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09/02/2017

Resenha-parágrafo - "Azul corvo", de Adriana Lisboa

Uma jovem adulta de seus 22 anos narra como, após a morte da mãe, partiu do Rio de Janeiro para os Estados Unidos, aos 13 anos, em busca do pai desconhecido, e, ao mesmo tempo que resgatava sua memória familiar, tomava conhecimento do passado de seu país no período sombrio da ditadura instalada em 1964. Em mais uma obra em que a morte de alguém próximo e o luto dela decorrente ensejam uma viagem que problematiza identidades - como em Rakushisha e em Hanói -, Adriana Lisboa engendra uma trama com lirismo comedido, com personagens cativantes e com reverberações de sentido que se perdem no horizonte mental do leitor. As partes que tratam da guerrilha do Araguaia são reveladas ao leitor pelo contato que a narradora travou com as memórias de seu pai oficial, Fernando, em cuja casa ela vai morar nos Estados Unidos. A perda da mãe, bem como a busca e o encontro com as figuras paternas podem ser lidas também como metáforas da forma como a sociedade brasileira se relaciona com a memória desse período sombrio de nossa história nacional.

27/10/2016

"Azul corvo", de Adriana Lisboa - Diário de leitura

Estou quase terminando de ler Azul corvo, o único dos cinco romances adultos de Adriana Lisboa que ainda não havia lido. Dizer "romance adulto" faz parecer que o livro traz cenas tórridas de sexo explícito, mas não é o caso. É, na verdade, para diferenciar do infanto-juvenil O coração às vezes pára de bater, da editora Rocco, que só hoje descobri.

Não vim esgotar Azul corvo, mas só compartilhar como estou gostando da personagem Fernando, o "pai" da narradora, Vanja. Essas aspas em torno de "pai" serão facilmente entendidas por quem ler o livro. Trata-se de uma relação sofisticadamente bela, sobre a qual pretendo escrever depois aqui. Fernando foi casado com a mãe de Vanja e, depois de separados, topou registrá-la como filha. Morre Suzana, a mãe de Vanja, e a garota de 13 anos resolve mudar-se para os Estados Unidos para, com a ajuda do pai pró-forma, encontrar o biológico.

Fernando remeteu-me ao protagonista de Barba ensopada de sangue e a David, personagem de outro romance escrito por Adriana Lisboa, Hanói. Faz parte de um grupo cujo perfil me é particularmente querido, ao mesmo tempo estoico, com carapaça de dureza e de abnegação em relação às vicissitudes do mundo, porém deixando escapar um afeto semiárido, como a flor do mandacaru, como a prosa de Graciliano e como a poética de João Cabral, todos de rara e enxuta beleza. 

06/10/2016

Resenha-parágrafo - "Um beijo de colombina", de Adriana Lisboa

Avaliação: ***

Só não li da autora até agora Azul Corvo, e Um beijo de colombina foi o de que menos gostei. O argumento do livro é bom, mas a história foi perdendo o interesse do meio para o fim, até que, no último capítulo, houve uma compensação. O narrador do livro vive com uma escritora que, em uma das vezes em que vai nadar no mar, perto da casa de praia que alugam juntos, desaparece, e ele passa a vivenciar um processo de luto por essa perda. Para tentar superar, começa também a escrever. O livro, por isso, tem vários trechos metalinguísticos bacanas, em que o ofício da escrita é objeto de reflexões e de comentários. Os capítulos são organizados em referência a poemas de Manuel Bandeira, cujas vida e obra têm presença preponderante no romance. Se não gostar de "spoiler", pare de ler aqui... Recorde-se que Manuel Bandeira contraiu tuberculose na juventude e teve a morte como certa para pouco tempo à frente, todavia foi um dos escritores mais longevos de sua geração. Esse é um dos pontos em que a biografia do poeta toca a trama do livro.

30/09/2016

Resenha-parágrafo - "Hanói", de Adriana Lisboa

Ando sumido, eu sei. Tenho pensado em como recuperar a regularidade nas postagens deste blog, porque ainda quero bem a ele e continuo convencido de seu proveito para mim; não tanto, como sempre, do valor dele para os outros. Tive agora a ideia de facilitar a frequência das postagens impondo-me um desafio simples: escrever um parágrafo sobre livros que eu ler, visto que textos mais longos exigem mais tempo e dedicação do que tenho sido capaz de reservar. Vejamos como me saio.

Hanói, de Adriana Lisboa

David, um homem de seus trinta anos, músico diletante, ocupante de um emprego banal, recentemente abandonado pela namorada, recebe do médico a notícia de que vai morrer em poucos meses. Em meio às iniciativas que toma para despedir-se da existência, como distribuir os poucos bens contidos em seu apartamento, conhece Alex, descendente de vietnamitas imigrados para os Estados Unidos, caixa de um mercadinho de bairro e mãe solo de um garoto. O encontro dos dois é especialmente problemático pela dúvida sobre se é plausível e desejável um envolvimento amoroso cujo prazo de validade está prestes a vencer pela morte iminente de uma das partes. O que poderia ser um dramalhão ou um fardo emocional é representado por Adriana Lisboa com uma limpidez e uma serenidade que nos fazem deparar com a tristeza e com o implacável de uma forma terna. Pessoalmente, sinto saudades das personagens e de sua convivência. 

Avaliação: ****

13/01/2016

O beijo de Maria José Limeira

Senhoras e senhores, continuo de férias na Paraíba, minha terra natal. Ontem, terça-feira, fui ao Centro e fiz uma farra bibliófila. Limpei parte das estantes de meu antigo quarto, onde restaram muitos livros que não era prioridade levar para Brasília, e troquei, no Sebo Cultural, por obras de autores paraibanos. Depois passei na tradicionalíssima Livraria do Luiz, loja de rua, fora de Shopping Center, felizmente revitalizada, aparentemente salva da falência para a qual demonstrava caminhar, e comprei outros livros de autores conterrâneos.  Como as produções regionais quase não circulam nas livrarias de Brasília, priorizei essas compras.
Adquiri três livros de Maria José Limeira, que era prima legítima de meu avô materno. Aqui na Paraíba, primo legítimo não se contrapõe a bastardo ou ilegítimo, como alguns amigos pensam ao ouvir o termo, de chofre, em Brasília. É o primo-irmão do Rio de Janeiro, o primo básico. Zezé Limeira tem uma obra interessantíssima, de grande qualidade, tanto em prosa quanto em poesia. Ela enfia a faca nas vísceras da gente.
Estava aqui, madrugada à solta, folheando o Crônicas do amanhecer, da citada autora, e deparei com um texto sobre o beijo, "Beijar é bom e eu gosto". É um dos muitos textos em prosa poética de Maria José Limeira. Começa assim: "Eu quero agarrar o instante, quando o beijo nos reuniu, e você fala em adeus".
Vocês, que não me leem, guardam a lembrança de algum beijo-síntese? Algum beijo, por exemplo, represado até o último instante contra uma vontade avassaladora de beijar, até que o beijo aconteceu como o rompimento da barragem em Mariana e deixou um rastro de destruição que, segundo as projeções, deve imprimir danos de décadas por onde se alastrou?
A boa literatura faz isso com a gente.

10/12/2015

Doidinho, de José Lins do Rego


Uma das postagens mais visitadas do blog trata do romance Moleque Ricardo, de José Lins do Rego. Do ano passado para cá, decidi ler ou reler, conforme o caso, as obras do ciclo da cana de açúcar, principalmente porque pretendia travar contato com a realidade cultural, social e histórica representada nelas, para subsidiar um projeto de pesquisa pessoal. Para concluir a empreitada, falta a releitura de Fogo morto, considerado a obra-prima do autor. Também incluí, de lambuja, depois de iniciado o miniplano de leituras, as obras do ciclo do cangaço (Cangaceiros e Pedra bonita) e Meus verdes anos, de memórias.
Vi, em minha visita corriqueira à loja da Amazon em busca das promoções de e-books do dia, que Doidinho, segundo romance do mencionado ciclo, estava em promoção. Resolvi avisar da oportunidade às leitoras* do blog e aproveitar, para comentar o livro, lido antes de que existisse o Palavra de Literatura.

30/11/2015

Rapidinhas de final de novembro

Prevejo que dezembro será um mês com fôlego nas postagens. Estive mais ausente do blog do que gostaria em novembro. Tive a seleção do Mestrado em Literatura, precisei preparar e apresentar um seminário na disciplina que curso, como aluno especial, do mesmo programa de pós-graduação, houve meu aniversário, que consome tempo na obrigação prazerosa de atender aos apelos de familiares e de amigos para comemorações, além das fogueiras de tempo de sempre: trabalho, relacionamento, amizades, visitas de gente querida a Brasília. Concluídas essas etapas, consegui terminar algumas leituras e retomar outras, agora falta comentá-las aqui.

***

O livro que mais trabalho me dará vai ser Viva o povo brasileiro. Li-o, como sabe quem acompanhou postagens recentes aqui, por causa do seminário referido no parágrafo acima. Se toda obrigação fosse assim prazerosa e transformadora, eu viveria submetido a elas. O problema para tratar desse romance de João Ubaldo Ribeiro aqui será a dificuldade de abarcar a grandiosidade desse texto. É impossível fazer jus ao todo que ele significa, e disso sobressai o desafio de fazer recortes que sejam cirúrgicos e relevantes. A seleção será muito complicada, eu provavelmente não ficarei plenamente satisfeito com o resultado, contudo é preciso fazê-la.

***

Darei notícias também sobre Cangaços. Apanhado de textos de Graciliano Ramos sobre as manifestações do cangaço, inclui crônicas, ensaios e capítulos de romances como "Vidas secas" e "Caetés". A unidade temática da coleção é reforçada por notas explicativas e contextualizadoras, e um posfácio dos organizadores sintetiza os aspectos formais e conteudísticos comuns, além de sugerir liames desses textos com a obra de Graciliano considerada globalmente. A prosa do escritor alagoano, louvada há décadas com muita razão, a meu ver, dispensa comentários e responde por boa parte do prazer proporcionado pela leitura deste volume.

29/09/2015

O dia em que comemos Maria Dulce - resenha

Li há alguns meses O dia em que comemos Maria Dulce, livro de contos de Antonio Mariano, escritor paraibano que transita entre vários gêneros, especialmente poesia e conto. Minha edição foi digital, adquirida pela Amazon e lida no Kindle. A prosa é fluida e tem momentos de poeticidade concreta, minha preferida, a lembrar as coisas de João Cabral de Melo Neto. As narrativas curtas tocam-se aqui e ali, embora não constituam um encadeamento linear. A personagem Jaílson é a que parece mais relevante, e flashes de sua vida e de suas relações aparecem ao longo da obra, porém um conto independe da leitura do outro. É uma literatura de clima, de atmosfera, de ambiência, que me pareceu muito compatível com a contemporaneidade, meio absurda, meio cotidiana, ao mesmo tempo prosaica, rasteira e irracional. Minha cotação: ***.

Trechos selecionados:

"A bondade da velha era urtiga em carne viva. Sal grosso na pele esfolada."

"Brincar me trazia a ilusão, ainda que momentânea, da felicidade."

"Ele que nunca foi de muito papo, evitava como podia o pote da comunicação."

"O Sol, como uma laranja imensa, quer nascer para todos. Conseguirá? Indiferente a tudo, porém, ele vai se elevando aos poucos, puxado por trás da parede do tempo."

"A fruta de fogo despertando a cidade com seu grito de luz e calor. Surpresa alguma. A aurora cai, de vez e já apodrecida, no colo magro na manhã que nasce."


11/09/2015

A diplomacia no "Memorial de Aires"

Nosso mito literário.

A releitura recente do Memorial de Aires tem rendido uma série de postagens. Na primeira delas, estabeleci uma espécie de programa, de que o presente texto é um cumprimento parcial. Entre o surgimento da ideia desta postagem e sua execução, ocorreu que li um texto crítico de John Gledson sobre o romance, e isso reconfigurou o plano inicial. Minha intenção será analisar como a caracterização do narrador como diplomata confirma a interpretação do romance proposta por John Gledson, no ensaio crítico que eu mencionei na postagem Mais "Memorial de Aires", John Gledson e a crítica literária.
O diplomata-mor brasileiro.
O narrador do romance é diplomata aposentado. Ele terminou sua atividade profissional na classe de Conselheiro, que atualmente é uma posição intermediária na carreira diplomática, formada por seis níveis, comparáveis às patentes militares ou eclesiásticas. No plano atual da diplomacia brasileira, começa-se a carreira como Terceiro-Secretário e pode-se passar a Segundo- e Primeiro-Secretário, Conselheiro, Ministro de Segunda Classe e Ministro de Primeira Classe. Na época de Aires, o cargo de Conselheiro era um dos mais altos, quando a quantidade de países soberanos era bem menor, o Brasil tinha uma presença bem mais modesta no mundo, e as relações exteriores brasileiras eram, por conseguinte, menos complexas.

13/06/2015

Dois tipos de amor num poema de Augusto dos Anjos - "Versos de amor"

Com um pouco de atraso, mas foi o que deu para fazer, trago um poema de Augusto dos Anjos sobre o amor, em referência ao Dia dos Namorados. Eu releio esse poema desde o Ensino Médio, quando o escolhi para um trabalho da escola na disciplina de Literatura. Ele chamou-me a atenção, primeiramente, por trazer um tema incomum na obra de Augusto, mais conhecido por tratar da finitude, da degradação física e espiritual, da noite e do sombrio. 
Esse "Versos de amor" tem um toque de amargura ou, para usar os termos do próprio poema, de azedume, porque o eu poético começa apresentando uma concepção traiçoeira e egoísta do amor, para depois contrapor a sua, que tem por tão sublime, que não pode ser enunciada por uma língua; precisa, na verdade, de um instrumento musical único que a torne compreensível por toda a humanidade, quer dizer, universal. 
Gosto da sonoridade especialmente da primeira e da última estrofes. A primeira recorre a uma imagem que deveria ser muito familiar à realidade do poeta, criado em um engenho de açúcar na Paraíba: a da cana, que sempre se espera seja doce, mas se revela azeda na realidade. A última estrofe, como era de esperar-se de Augusto dos Anjos, retoma a presença da morte nas reflexões sobre as coisas da vida, e aqui parece que o eu poético considera que o amor, como ele o concebe, seria uma forma de contrapor-se ao vazio existencial que a morte demarca.




Versos de amor


A um poeta erótico


Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a . . ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.


Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!


Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.


Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.


Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!


É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!


Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Mársias — o inventor da flauta —
Vou inventar também outro instrumento!


Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!


Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!

21/02/2015

Guia leve e informativo sobre a Literatura Brasileira

Título: Literatura Brasileira: modos de usar
Autor: Luís Augusto Fischer
Editora: L&PM
Número de páginas: 143 (com apêndice)
Ano: 2013 (lançado em 2007)
Homero não leu e não gostou, mas não é sempre que a gente concorda.

Só agora, quase quatro da tarde, estou ingerindo os primeiros gramas de cafeína do dia. Acordei quando faltavam somente trinta minutos para meu treino de tênis, então, mal deu tempo de tomar a chuveirada que permite domar os cabelos moldados pelo laquê do travesseiros, engolir alguma glicose em forma de iogurte, vestir a roupa, encher a garrafinha de água e dirigir para a quadra pública que fica a cinco minutos de casa. O treino estendeu-se além do horário, depois fui ao clube tomar Sol e, em seguida, almocei no Mangai, um restaurante paraibano com filiais em Natal e aqui em Brasília. Como ontem fomos dormir perto de três da madrugada, porque decidimos assistir, tarde da noite, ao filme Lendas da paixão (Legends of the fall), é possível imaginar como a cafeína nossa de cada dia me fez falta até este instante e era fundamental para a escritura desta postagem.

Superado o drama pessoal, vamos aos livros, assunto principal deste blog. Comentarei minhas impressões sobre a leitura de Literatura Brasileira: modos de usar, do professor da UFRGS Luís Augusto Fischer. Como contei em uma rapidinha de Carnaval, comprei esse livro de bolso da L&PM no sábado passado, por acaso. Eu esperava uns amigos para almoçar em um shopping, e obviamente isso se faz na livraria mais próxima. Aproveitei a ocasião para procurar um exemplar do Memorial de Aires, destinado à promoção que está rolando. Na estante de títulos de bolso, com fileiras da Martin Claret, da Companhia de Bolso, da Hedra, não poderia faltar a editora de bolso por excelência no Brasil, a já citada L&PM, em cujas fileiras encontrei o protagonista de hoje. 

Não me lembrava de ter visto antes esse pequeno guia de Luís Augusto Fischer em minhas assíduas visitas às livrarias. Puxei-o, pelo topo da lombada, com o dedo médio, dentre os outros livros encostados uns aos outros como andorinhas em fio de poste, olhei a capa, virei, inspecionei o índice e procurei algum capítulo que me chamasse especialmente a atenção. Gostei dos títulos, que prenunciavam uma forma diferente de apresentar a Literatura Brasileira. Em vez de uma exposição linear e cronológica, o autor agrupou tradições e temas recorrentes para construir os capítulos. Embora não abandone o critério temporal, Fischer não parece ter-se preocupado com categorizações bem delimitadas, portanto deixou o livro tomar a forma de um bom bate-papo sobre literatura, sobre seus usos e sobre suas determinantes no Brasil.

Com 140 páginas, em formato de bolso, para dar conta de uma literatura cujos antecedentes europeus remontam a séculos, o livro não poderia ser senão um panorama, mas é dos bons. Seja na exposição de tradições de nossa literatura, como nos capítulos "A tradição realista", "A tradição intimista" e " A tradição de vanguarda"; seja na discussão de gêneros que se destacam em nossa produção literária, como no subcapítulo "Ensaio, o quarto gênero literário" e nos capítulos "O gosto pelos gêneros menores" e "Linhagem das memórias"; seja, ainda, nos momentos em que debate os vínculos mais estreitos entre o mundo da literatura e a realidade nacional, como em "A literatura e o abismo social no Brasil" e em "A busca da identidade nacional", o autor conseguiu engendrar um texto leve e interessante, simpático e pertinente, fluido e informativo.

A preocupação confessada de Luís Augusto Fischer, ao escrever Literatura Brasileira: modos de usar, foi orientar quem não se transformou em leitor contumaz após o período escolar, mas tanto reconhece a importância da leitura como tem vontade de desenvolver o hábito. Ele mesmo diz que se trata de um livro de autoajuda. Seu objetivo é contribuir para que, em nosso país, haja mais leitores não profissionais. O professor Fischer diagnostica que "a circulação da literatura brasileira clássica depende muito, e em alguns casos exclusivamente, do circuito escolar universitário". Ele tem razão, quando diz que só continua lendo literatura, depois da escola ou da universidade, no Brasil, quem vai dedicar-se ao ensino da literatura como profissão. Alguém discorda de que essa seja a regra?

Para além da intenção do autor, muito útil e, a meu ver, realizada a contento, o Literatura Brasileira de Fischer serve como excelente introdução madura para quem está em preparação para concursos que cobrem o tema. Um que me veio à mente foi o do Instituto Rio Branco, que seleciona e prepara anualmente os novos diplomatas brasileiros. Especialmente para a segunda fase do certame, que visa a avaliar o desempenho dos candidatos quanto ao uso da língua portuguesa, creio que o livrinho de Fischer é de grande valia.

Eu me considero relativamente bem informado sobre Literatura Brasileira, mas o Literatura Brasileira: modos de usar teve ainda a utilidade de chamar minha atenção para autores com os quais eu pouco me importava e até para alguns desconhecidos, principalmente entre os contemporâneos. Anotei vários nomes e títulos para posterior atualização da lista de leituras.

Entre as muitas discussões propostas e pinceladas por Fischer, destaco aquelas que lidam com as ideias de regionalismo e de modernismo. Ele critica o emprego desses termos para descrever os fenômenos literários a que tradicionalmente se referem. Em ambos os casos, acusa o reducionismo de tais rótulos, calcados na hipervalorização do urbano, no caso do conceito de regionalismo, e do modernismo paulista, no caso da classificação de toda a literatura nacional do século XX como pré-modernista, modernista de primeira, de segunda e de terceira geração e pós-modernista, em função da Semana de 22. Chama o conceito de regionalismo de "rótulo insuficiente, redutor e anticrítico (...), o que já deveria ser motivo suficiente para ele ser posto de parte, no debate relevante". Chama a classificação fundada no modernismo de 22 de paulistocêntrica e modernistólatra, pretensamente responsável pela existência de tudo de relevante que aconteceu no século XX brasileiro em termos literários.

O efeito da cafeína está terminando, e eu vou tirar um cochilo. Mais tarde, uns amigos virão em casa para uma sessão de jogatina e de fondue. É prudente que eu descanse um pouco, senão o gás do candeeiro de meus olhos vai acabar antes de o papo com as visitas esquentar. Fica a sugestão de leitura com ótima relação custo-benefício: pouco tempo e muito pano pra manga.

17/02/2015

Rapidinha (de Carnaval) 2

Conforme programado, talvez com um pouco de atraso, terminei a leitura meio obrigatória de História das Relações Internacionais Contemporâneas, que estabeleci como condição para iniciar O Anjo Pornográfico. No meio do caminho, porém, tinha uma ida à livraria, de onde saí, no sábado de Carnaval, com os três livros que postei no Instagram. Comecei a ler Literatura Brasileira: modos de usar, do professor da UFRGS Luís Augusto Fischer, ainda no shopping onde o comprei, e terminei-o só um pouco depois do de Relações Internacionais. 


Vim só dar notícias, dizer que atribuí quatro estrelas ao livrinho de Fischer - que será objeto de postagem própria - e consignar minha alegria de começar a virar as páginas da biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, com grandes expectativas.

12/02/2015

Memorial do "Memorial de Aires"

Anteontem terminei a releitura de Memorial de Aires, último romance escrito por Machado de Assis. Deu tempo de publicar algo no Instagram, mas só hoje arranjei um momento para escrever a respeito do livro.

Notei que, depois de iniciado nesta atividade blogueira e instagrameira, minhas experiências de leitura são marcadas por uma novidade: a preocupação em procurar elementos interessantes para as postagens. Além da atenção voltada para os aspectos estéticos, para a construção da trama, para referências e significados indiretos, para trechos de conteúdo memorável, passei a ter sempre presente, ao virar as páginas, a pergunta sobre o que poderia ser objeto de bons debates no Palavra de Literatura. O complexo ato da leitura fica, assim, enriquecido por essa nova disposição de espírito.

O problema é que estou começando com essa história de escrever sobre livros e, feliz ou infelizmente, tive muitas ideias para o texto que escreveria sobre o Memorial. Eu poderia implementar todas e desdobrá-las em várias postagens, mas, conhecendo-me bem, temo deixar ideias soltas pelo caminho, sem que lhes dê corpo textual. Confesso aos leitores, metalinguisticamente, os impasses de um novel blogueiro com sua mente cheia de projetos confrontada com as restrições de tempo que a vida lá fora impõe aos que cumprem expediente por um salário. 

Pensei, por exemplo, em dedicar uns parágrafos só para os aspectos de construção do narrador-personagem em sua condição de diplomata aposentado. Reuniria e comentaria tanto as passagens com referências abertas e diretas à vida profissional do Conselheiro Aires, o narrador, no exterior e na relação com os órgãos de governo, como exploraria aquelas características mais sutis e indiretas atinentes ao perfil esperado de um diplomata. Um texto assim discutiria, em primeiro lugar, a construção da personagem por Machado de Assis: minúcias que conferem verossimilhança e consistência ao protagonista. Por exemplo:

"Quando eu era do corpo diplomático efetivo não acreditava em tanta cousa junta, era inquieto e desconfiado; mas, se me aposentei foi justamente para crer na sinceridade dos outros. Que os efetivos desconfiem!"

Outra vertente que me renderia uma postagem exclusiva, ainda como fruto da leitura do Memorial de Aires, seria a discussão sobre a arte da conversa na forma como ela se manifesta no livro: falas, respostas, hesitações, cálculos e sutilezas que são narrados pelo Conselheiro Aires, nas páginas de seu diário, relativas à condução de conversas nos ambientes sociais que frequenta. A informação que obtemos da trama, contada no dia-a-dia registrado no diário, vem da habilidade com a qual o narrador conduz os bate-papos entabulados com um e com outro de suas relações. 

Achei interessantíssimo como ele, em diversas ocasiões, confessa haver tido a intenção de dizer algo, mas ter recuado por julgar inconveniente ou invasivo. Em outras, suscita assuntos, como quem não quer nada, para descobrir as novidades sobre a viúva Fidélia ou sobre o jovem Tristão. Reconhece a maldade de D. Cesária, mas admite sua queda pelas maledicências da senhora. Há momentos, ainda, em que consegue desviar de temas dolorosos e entreter seus interlocutores com amenidades. Essa habilidade liga-se, a propósito, com a profissão do Conselheiro Aires, pois se espera que um diplomata colete informações de bastidores relevantes para seu país, e uma das formas mais corriqueiras de consegui-las é fazer amizades certas, conquistar a confiança delas e ser capaz de seduzir pela conversa. Eis um trecho que ilustra o que digo:

"D. Carmo entendeu acaso que o assunto podia ser enfadonho a estranhos, e trocou as mãos à conversa. Não totalmente, é verdade; falou da casa do Desembargador Campos e do que iria por lá. Eu (habilmente, confesso) querendo saber o estado do coração de Osório, perguntei se ele não estaria lá também, ele, que também é do foro."

Mais pano para manga seria explorar as marcas do gênero "diário" empregadas por Machado de Assis, para engendrar o Memorial de Aires. Assim como há a construção da verossimilhança do narrador-personagem como diplomata aposentado, também se encontram, a serviço do convencimento literário, elementos desse gênero de escrita pessoal, destinado a consignar confidências e registros mais ou menos aleatórios do cotidiano de quem o escreva. Aires, por exemplo, conversa com o papel e discute o que deve ou não incluir em sua superfície. Ele comenta os dias omissos, admite o encurtamento de uma história em razão do cansaço, anota as datas e os horários de inclusão das linhas no diário, questiona-se sobre a finalidade dos textos. Eu já tentei disciplinar-me a escrever diário e vivenciei muito do que Aires revela passar nessa sua atividade. Para além disso, caberia, na postagem que tratasse desse aspecto, discutir como Machado se valeu desse formato, para contar uma história.

"Sete dias sem uma nota, um fato, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque também hoje não tenho que apontar aqui. Escrevi isto só para não perder longamente o costume. Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem pensa nada."

Até este ponto, acho que os aspectos levantados foram primordialmente formais: a construção da personagem narradora, a arte da conversa como meio de revelação do eixo central da trama e as marcas do gênero "diário". A última postagem que faria sobre minha releitura (quer dizer, a penúltima, porque a última poderia ser sobre a experiência das releituras) do Memorial de Aires seria de fundo, de conteúdo: a relação entre a juventude e a velhice. A maioria das personagens é idosa: o próprio Aires, o casal Aguiar, a irmã do diplomata, Rita, e o tio da viúva Fidélia, Desembargador Campos. No vaivém dos dias, eles giram em torno do destino de Fidélia e de Tristão, ambos amados como filhos pelo mencionado casal Aguiar. Mais não digo, para não estruir algum elemento surpresa da narrativa. Dou só um aperitivo:


"... concluí que a mocidade tem o direito de viver e amar, e separar-se alegremente, do extinto e do caduco."

Creio que já vão bastantes linhas para atualizar o blog. Ao mesmo tempo que considero haver transmitido algum gosto da obra, deixo estabelecido um plano de postagens, que só o tempo dirá se virão à luz. Os leitores podem ajudar-me, com pressões e com pitacos, incentivando a realização do projeto. Não preciso dizer a ninguém que o romance é recomendadíssimo, porque estão aí décadas e décadas de críticos sagazes, de acadêmicos rigorosos e de bons leitores a elogiar, com cada milímetro de mérito, a maestria de Machado de Assis na seara da prosa.

04/02/2015

"A coruja", poema de Sérgio de Castro Pinto


De um livrinho de poemas de minha estante, Zoo imaginário, do paraibano Sérgio de Castro Pinto, compartilho "A coruja". Considero os textos deste livro pertencentes àquele raro e difícil tipo de obra capaz de comunicar-se com crianças e com adultos de todas as idades, como ocorre aos filmes de Chaplin. 



As ilustrações são desenhos a bico de pena do artista plástico Flávio Tavares, que não se deve confundir com o escritor homônimo. A publicação é da editora Escrituras.



A coruja

são todo ouvidos
os teus olhos
de vigília.

olhos acesos,
luzeiros
de sabedoria.

olhos atentos
à geografia
do dentro,

és uma concha.

um encorujado
caramujo.

monja em voto de silêncio.

03/02/2015

Bandeira branca para a morte



(Manuel Bandeira por Portinari)

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

(Manuel Bandeira)


Em minha memória, a primeira vez em que tive contato com o poema acima, do pernambucano Manuel Bandeira, foi em uma aula de inglês, por incrível que pareça. Peço mil desculpas ao curioso leitor por minha capacidade mnemônica insuficiente, mas não consigo lembrar-me de como um poema em língua portuguesa foi invadir uma aula do idioma de Shakespeare. Com diria Chicó, só sei que foi assim. Lembro que a palavra consoada despertou-me inquietante aguilhão, como sempre me ocorre, ao deparar com um vocábulo desconhecido. Sendo parte do título, certamente conhecer o significado da palavra seria elemento-chave para a interpretação do poema.

2. Muita gente tem medo de poesia, e aqui uso o termo no sentido estrito, de gênero literário, para não confundirem com o poético em sentido amplo, presente em todas as artes e, inclusive, fora delas, como quando se fala da poesia das coisas. Eu passei longos anos muito mais inclinado à prosa do que à poesia, em parte por causa da dificuldade maior de acesso a este gênero, em parte por causa do enfado que me causavam aqueles que espalham pelo mundo desabafos em formato de verso e consideram que é poesia. Não entro nesse mérito agora, porque exigiria muito mais espaço do que comporta o presente comentário ao poema de Bandeira.

3. Não percamos o fio da meada: o medo de poesia. Nunca tive aversão, algum contato sempre mantive, mas, como disse, havia um pendor para a prosa. Aqui vai uma revelação pessoal, em homenagem a Literaterapia, minha comentadora predileta e mais assídua e principal incentivadora desta postagem sobre poesia: quando cursei uns semestres da graduação em Letras, tive uma excelente professora de Teoria Literária. Creio que devo a ela o fato de a poesia ter despertado mais interesse e tempo de leitura de minha parte. Pelo exercício conjunto de leitura e de análise dos poemas com a turma e também pela seleção de saborosos textos de crítica sobre poesia, ela fez crescer meu entusiasmo pelo gênero.

4. Pergunta: o que aprendi sobre a leitura de poesia, que não serve, necessariamente, de receita para todo mundo, mas pode ser uma experiência que indique caminhos? Nenhuma boa literatura revela-se totalmente de cara. Mesmo os textos em prosa com significado evidente à uma primeira leitura devem guardar uma rede subterrânea de sentidos que os leitores mais maduros desencavam com paciência de mineradores. Com a poesia, isso torna-se ainda mais verdadeiro. Há, claro, os poemas que fascinam o leitor médio à primeira visada, pelo ritmo, pela melodia, pelo jogo de palavras, como aquele peixe das regiões oceânicas abissais atrai sua presa com uma luz sedutora. Acho que os poemas de Augusto dos Anjos são assim. Ilude-se, porém, quem acha que eles se esgotam nisso. Também perdem muito, como quem julga um livro pela capa, aqueles que menosprezam um poema que não se apresenta em roupagem de luxo.

5. Em um bom poema, o sentido vem condensado. As palavras, os acontecimentos, a realidade estão comprimidos como na desgastada metáfora da semente. Assim como é necessário plantar, adubar, cavoucar a terra ao redor, regar e ter paciência para a semente revelar a planta, é também preciso ler, reler, correr ao dicionário, pronunciar as palavras, misturar as linhas, desconfiar e ter mais ou menos paciência, até os sentidos enterrados no poema perderem a timidez e apresentarem-se à luz de sua consciência, leitoras e leitores deste pouco movimentado blog. Quase sempre e de propósito, os sentidos são muitos, há diversos caminhos a seguir, e o percurso de um intérprete cruza-se com o do outro, mas ninguém está errado ou certo. A lida com os poemas, em muitos aspectos, parece um jogo, um quebra-cabeças, uma charada, um desafio lógico, mas não restrito ao campo da razão. Tudo isso costuma proporcionar-me um prazer danado, que não sei se vocês também sentem, mas gostaria muito de poder compartilhá-lo.

6. Esta postagem está comprida, mas, se chegamos até aqui, não voltemos nem fiquemos no meio da estrada. Na verdade, a volta que faremos será ao texto de Manuel Bandeira. Paramos na importância de desvelar o significado da palavra consoada, que dá título ao poema. Fiz um rodeio para ilustrar como é necessário enfrentar os poemas, armar-se do dicionário e avançar sobre o texto com todos os meios disponíveis. Segundo o Dicionário Houaiss (vocês verão muito o nome de Houaiss no Palavra de Literatura), consoada tem dois significados: 

a) "leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum";
b) "ceia familiar da Noite de Natal ou de véspera de Ano Novo".

(Consoada, como se chama a ceia de Natal em Portugal)

7. E agora? Ficamos com a acepção "a" ou com a "b"? Embora ambas se refiram a uma refeição, contrapõem-se quanto à medida. Uma é frugal, conformada, franciscana, penitente, quase a continuação do jejum; outra é uma ceia festiva, uma comemoração com comes e bebes e com gente a granel. Guardemos esses dois significados, cada qual referente a um conjunto de imagens, e retomemos o poema passo a passo.


8. A pessoa que fala por intermédio do poema, o chamado eu poético ou eu lírico, antecipa como recepcionará a morte, "a Indesejada das gentes". Detenhamo-nos. Note-se que a morte não é nomeada senão por um epíteto esquivo, de maneira indireta: "a Indesejada das gentes". Eu poderia arriscar que essa forma de referir-se à morte remete àquele velho e humano temor de pronunciar o nome de tudo quanto mais nos aterroriza: a última jornada (a morte), o ceá (câncer), o aqui-inimigo de Deus (Satanás) e, para os leitores da série Harry Potter, Você-sabe-quem (Voldemort). Reparemos agora na conjunção "quando", que introduz o verso. Ela comunica-nos que a chegada da morte é certa, e não se trata de uma hipótese, como poderia ser, se o verso fosse: "Se a Indesejada das gentes chegar". Por último, perceba-se que a morte aparece personificada, e pode-se, inclusive, sorrir para ela, falar-lhe uma piada. Segundo o Dicionário de Simbologia, de Manfred Lurker, a personificação, por tornar possível o diálogo com ela, permite "uma superação emocional da vivência da morte".

("A morte como amiga", de Alfred Rethel)


9. Passemos aos quatro versos adiante. Ao contrário do primeiro, que indica a certeza da chegada da morte, os quatro seguintes demonstram a dúvida do eu lírico com relação ao modo como a receberá. Primeiramente,  especula sobre a postura dela: "dura ou caroável", quer dizer, penosa e impiedosa ou afável e gentil? Essa dúvida sobre a apresentação da Senhora da Foice combina com a hesitação do eu poético quanto a sua reação à chegada: poderá temê-la, ou tratá-la com simpatia e até com algum deboche, a depender, imaginemos, se for, respectivamente, "dura ou caroável". No último caso, ele lhe dirigirá um relaxado e conformado "Alô, iniludível!". Aqui, retoma-se a ideia de que a chegada é certa, pois ninguém ilude a morte, ou livra-se dela.

10. Podemos parar para um refresco na travessia desse poema. Chegamos a uma divisa. Por causa do ritmo, estabelecido por um primeiro verso com doze sílabas poéticas, seguido de um com oito e de três versos com seis sílabas; pelo número de versos, cinco, equivalente à metade do total; bem como pelo tema, que, até esta altura, foi a certeza da vinda da morte e a dúvida com relação a como se reagirá a ela, terminamos uma seção.

11. Como a primeira seção, a segunda é aberta por um verso com doze sílabas. Nele, o eu lírico declara que seu dia foi bom e como que autoriza a descida - ou chegada - da noite. Dia e noite representam, respectivamente, a vida e a morte. Assim como o segundo verso, o sétimo vem entre parênteses, o que reforça, a meu ver, a ideia de duas partes, por uma espécie de simetria calcada nos elementos de forma e de conteúdo já citados. A noite, que estamos equiparando, no âmbito simbólico, à morte, viria "com seus sortilégios", palavra que pode significar feitiço e malefício, encanto e fascinação ou maquinação e trama secreta. Todos esses sentidos podem ser atribuídos à morte.

12. Os três últimos versos surpreendem. A atitude que normalmente se espera de alguém que esteja na iminência da morte é de loucura, de desregramento, de desespero, de desilusão ou de abandono. Quem aguarda a morte para logo passa a duvidar da utilidade das coisas, deixa de fazer planos e de realizar projetos que ultrapassem um dia, abdica de aprender o novo, não poupa dinheiro nem procura precaver-se de nenhuma maneira: maximiza o princípio do carpe diem, muitas vezes, em detrimento da razão. Lembre-se, por exemplo, da música de Paulinho Moska, da qual transcrevo duas estrofes:

"Meu amor o que você faria? 
Se só te restasse esse dia 
Se O mundo fosse acabar 
Me diz o que você faria?

Andava pelado na chuva 
Corria no meio da rua 
Entrava de roupa no mar 
Trepava sem camisinha"

13. Nada disso se acha na atitude do eu poético de Consoada. Tudo indica que a proximidade da morte não altera seu modo de viver. Representar, na segunda parte do poema, a vida e a morte como, respectivamente, o dia e a noite, que também definem a rotina e o cotidiano, permite que o poeta utilize as imagens subsequentes relativas a tarefas comezinhas, corriqueiras, banais. Repare-se que o eu lírico não se abstém mesmo de cumprir tarefas que pressupõem esforço, tempo e a fé na colheita, como é o caso de lavrar o campo, no oitavo verso. Não descura do asseio da casa nem da arrumação de tudo.




14. "A mesa posta" remete o leitor atento à palavra do título, consoada. Pôr a mesa é um ritual. Na correria em que, quase sempre, vivemos, ninguém se dá a esse trabalho: come-se em pé, no balcão da cozinha, no sofá da sala, defronte à televisão. Arruma-se a mesa apenas em casas tradicionais ou em ocasiões mais solenes, como uma ceia, seja de aniversário, seja de Natal, seja quando se têm convidados. Vejam como é bonita a poesia: "a mesa posta" tanto pode denotar que o eu poético tem tanta certeza da chegada iminente da morte, que se prepara, como um anfitrião, para recepcioná-la; como pode indicar que ele está tão tranquilo e sereno com relação a essa chegada, terrível para a maioria de nós, que não se priva de seus rituais pessoais e de sua rotina por causa do fim.

15. No final das contas, parece-me que os dois sentidos da palavra consoada tocam o poema. Por um lado, a acepção "a", "leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum", coaduna-se com a solidão da morte, com o estoicismo do eu poético face ao destino final, com a disciplina de cumprir bem sua rotina, como se cumpre um jejum. Está presente, inclusive, a imagem da noite, pois se trata de "refeição noturna". Por outro lado, a acepção "b", "ceia familiar da Noite de Natal ou de véspera de Ano Novo", suscita a ideia de preparação para uma mudança ou para uma passagem, de espera solene.


29/01/2015

"O moleque Ricardo": trechos escolhidos

Qual dos trechos abaixo é o preferido de vocês?



O alumbramento com a paisagem

"Voltava sozinho da escola. A estrada, um ermo completo. De barulho, só mesmo o das cigarras e das lagartixas nas folhas secas. Pensava então em muita cousa. Via pelos partidos o vento dobrando a folha da cana. Os pendões floriam pelo meio. Era um mau sinal. Cana de pendão não prestava, amadurecia antes de tempo."

(Cana-de-açúcar em pendão)

"O Sol das seis horas tocava nas coisas com mão de veludo. Acariciava. Os jardins tinham cores magníficas para mostrar."

"- Que lua bonita! - diziam elas olhando a lua com orgulho.
Eles ali também tinham lua. Era mesmo que barriga cheia."


Vida social

"Os protestantes falavam dos padres e de Nossa Senhora, e na casa de uma preta velha a polícia de vez em quando ia por lá buscar gente na corda. Fazia-se por lá feitiçaria."

"Havia muita briga de marido e mulher. E por causa de cousas pequenas. O jogo do bicho era sempre motivo dos maiores. O jantar não prestava, era pouco:
- Em que diabo gastaste o dinheiro, mulher? Está jogando no bicho outra vez, hein, cachorra?
E o bofete cantava no toitiço. Elas também não ficavam quietas, como leva-pancadas. Investiam. Os meninos choravam na porta de casa, num berreiro de saída de enterro. E o braço vadiando dentro de casa, os dentes da mãe no cangote do pai, os troços se quebrando. O povo acudia, desempatava o casal, a mulher chorando, de sangue correndo pelas ventas, e o homem bufando:
- Esta burra pensa que faz o que quer!
Os outros se chegavam para ele, acomodavam. E a mulher ia para a cama chorar, fazer dormir os meninos pequenos. Nesta noite o marido dormia debaixo da mangueira, com as estrelas no céu e o vento bom para acalentar o sono de um justo. De manhã a mulher preparava o café com pão crioulo. Ele saía de casa com a cara feia, mas se não tivesse gênio, de noite chegaria com a cara alegre. E a mulher passaria uma semana sem jogar no bicho. E quase sempre um filho novo aparecia de tudo isso."

"O que aprendeu num ano que passou na escola, nada lhe valia. Deu somente para lhe abrir uma brecha para o mundo, para a vida. Ninguém passaria por aquela brecha tão estreita."

"Eram bons companheiros, os caranguejos. Viviam deles, roíam-lhes as patas, comiam-lhes as vísceras amargas. Cozinhavam nas panelas de barro, e os goiamuns de olhos azuis, magros que só tinham o casco, enchiam a barriga deles. Morar na beira do mangue só tinha esta vantagem: os caranguejos. Com o primeiro trovão que estourava, saíam doidos dos buracos, enchiam as casas com o susto. Os meninos pegavam os fugitivos e quando havia de sobra encangavam para vender. Para isto andavam de noite na lama com lamparina acesa na perseguição. Caranguejo ali era mesmo que vaca leiteira, sustentava o povo."

(Catador de caranguejo)


A sensibilidade de Ricardo

"Coração feito mais de carne do que os dos outros. Nele qualquer coisa doía, feria fundo."

"A dor ainda não se comunicara ao que ele tinha de vivo. O coração do negro permanecia com o seu baticum, mas batia dentro de uma caixa como qualquer outra."


O Carnaval

("Frevo", de Pierre Verger)


"O Carnaval era para aquela gente uma libertação. Podiam passar fome, podiam aguentar o diabo da vida, mas no Carnaval se espedaçavam de brincar."

"Se eles tivessem uma Isaura, só cuidariam dela. A negra era falante. Falava como as brancas do Santa Rosa, usava sapatos de salto alto, lia o jornal. Um assombro para o moleque embeiçado. No seu quarto pregara o retrato dela na parede, de pega-rapaz caindo pela testa, de olhos quebrados. Isaura. O nome entrava-lhe pelos ouvidos com recordações antigas."

"Os clubes e os blocos quando passavam, parava tudo que era carro e automóvel. Os cabras quebravam na frente numa impetuosidade de furiosos. As pernas entravam umas por dentro das outras, depois ficavam com a bunda quase que rente ao chão e as mulheres sacudiam para frente tudo que tinham de bom. E peitos e ventres que pouco ligavam à surra das umbigadas. Era uma alegria que atingia os últimos recursos. De repente paravam. A orquestra se calava. Esperava-se então que rompesse o fogo outra vez para que eles pudessem se despedaçar:
- Música! música! - gritavam."

"Verdade no Carnaval não ofendia a ninguém."

"Na rua da Concórdia houve rolo dos Toureiros com os Vassourinhas. A faca botou barriga de gente abaixo. Um automóvel esbagoara um menino do Bloco das Flores. Mas ninguém parava para ver."


A morte na vizinhança

"Dentro da casa as mulheres rezavam em voz alta. A reza saía pelo nariz e era triste de verdade."

"A casa se enchera de espectadores para ver o drama mais representado deste mundo e o mais inédito para todo o mundo. A casa se enchera para ver Odete morrer."

"O cheiro de incenso e o canto das negras davam sinais de eternidade à casa pobre de seu Abílio."

O moleque Ricardo

O moleque Ricardo é um romance particularmente rico na produção do paraibano José Lins do Rego. Celebrizado pelas obras do chamado ciclo da cana de açúcar, que reconstitui vivamente os aspectos privados e socioeconômicos da civilização do açúcar, Zé Lins criou essa espécie de interregno, que é o livro objeto desta resenha. O foco da narrativa desloca-se da elite canavieira e da geografia da várzea do Paraíba para o negro Ricardo e suas peripécias no mundo urbano do Recife nas primeiras décadas do século XX.


(O pernambucano Manuel Bandeira e o paraibano José Lins do Rego, este com a farda da Academia Brasileira de Letras)

Desde o ano passado, estou relendo, em alguns casos, e lendo, em outros, todos os romances do ciclo açucareiro. Reli Menino de engenho e li Doidinho, Banguê e Usina, além do já mencionado O moleque Ricardo. Falta, para completar o projeto, a releitura de Fogo morto, considerado a obra-prima do autor. Tenho particular interesse por essas histórias, porque, sendo paraibano, o ambiente descrito é-me familiar, e eu pretendo aproveitar o resgate da natureza e da sociedade da época para, quem sabe, escrever um livro sobre o qual poderei comentar futuramente. Zé Lins registrou aspectos dessa civilização que não são facilmente recuperados por meio de pesquisa em arquivos, de modo que sua literatura, além das qualidades estéticas e da função que exerce como arte, também é fonte histórica valiosa.


(Minha edição de O moleque Ricardo, caixa com livros do ciclo da cana-de-açúcar e os dois do ciclo do cangaço)

Como eu dizia, O moleque Ricardo conecta-se com os demais romances do ciclo, mas incorre em um duplo deslocamento, que tem efeitos extraordinários. A leitura pode ser feita independentemente, mas aposto que fica bem melhor, se realizada na sequência, porque as referências a personagens, ao mundo do engenho e a situações tornam o relato muito mais interessante. Como diz uma personagem de Saramago no romance Caim: "nos pormenores é que está o sal". 
Os momentos mais temperados do livro são aqueles em que Ricardo confronta os dois mundos, o rural do engenho e o urbano do Recife. Há um jogo de expectativas e de frustrações do começo ao fim, e a prosa de Zé Lins, íntima, amiga, dotada da difícil simplicidade que caracteriza a fala dos grandes contadores de histórias ao pé do fogão ou no alpendre de casa, enreda-nos na torcida pelo pobre moleque de bagaceira que, apesar de todos os motivos de revolta que a vida lhe daria, esmera-se no trabalho, esforça-se diligentemente e seria candidato a case de self-made man, se ele existisse em um meio social que premiasse o empenho e o mérito.
Ao ler O moleque Ricardo, prestem atenção à diversidade de elementos da vida urbana recifense, comum a várias cidades brasileiras do início do século, com a diferença apenas da medida. Comparecem os imigrantes, a miséria das periferias, os carnavais de rua, o engajamento popular nos blocos, a religiosidade que mistura crenças de matriz africana com o catolicismo nosso de todo o sempre, o surgimento do movimento sindical e das primeiras greves, o oportunismo de políticos populistas que pegam carona nos anseios de vida digna dos operários citadinos. O livro é largo e profundo, sem perder a coesão, cujo núcleo é a personagem-título.
Eu dei 4 estrelas de 5. Minha edição é a 27.a, com a capa amarelo creme que caracterizou uma leva de edições da obra de Zé Lins. As capas mais recentes estão mais bonitas, com imagens em estilo de xilogravura e um quadrado monocromático com aplicação de verniz, em que ficam os nomes do autor e de cada obra. O trecho que selecionei para a postagem do @palavradeliteratura foi este:


A lua banhava tudo de branco como nas cajazeiras da estrada. Mãe Avelina, Joana, todas se sentavam na porta da rua para apreciar o luar. O terreiro parecia uma toalha de MADAPOLÃO estendida.
Reproduz bem o estilo de Zé Lins, com imagens muito concretas, que evocam os sentidos e o passado. "Madapolão" é, segundo o Dicionário Houaiss, um "tecido encorpado de algodão, branco e liso". Na cena descrita, as ex-escravas ficadas no engenho por falta de rumo melhor, inclusive a mãe de Ricardo, Avelina, estão sentadas ao relento, em noite de Lua, provavelmente trocando impressões sobre o dia, falando da vida alheia ou ouvindo histórias sem tempo. O terreiro, onde sujam esquecidas os pés de poeira e acompanham, de soslaio, a brincadeira dos moleques, está todo coberto pela luz lunar benfazeja, que não discrimina ninguém, como um manto da santa protetora.


(Obra de Cícero Dias com reprodução do ambiente do Engenho Noruega)

Se já leu O moleque Ricardo, diga-me o que achou no campo de comentários abaixo!