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06/03/2015

Diário de Leitura: "O Anjo Pornográfico" - parte final.

Lendo as últimas páginas da biografia de Nelson Rodrigues, com café, brownie e livros recém-comprados.

Estou imbuído da difícil missão de produzir o último texto sobre O Anjo Pornográfico. Como um princípio fundamental deste blog é escrever, custe o que custar, estou começando a dar forma à postagem final do diário de leitura da biografia de Nelson Rodrigues, sem antever um plano geral. Passei uma vista no que escrevi antes sobre o livro e tentarei guiar-me pelo que prometi: analisá-lo à luz das razões e das expectativas que me levaram a incluí-lo na lista de 2015.

02/03/2015

Rapidinha de final de livro

Ontem à noite, despedi-me de O Anjo Pornográfico como se fora de uma amizade inesperada que partisse depois de nos acostumarmos com sua companhia sempre cheia de ação e de interesse, de uma beleza discreta e indubitável subjacente ao convívio. Nelson Rodrigues é uma personagem ideal de biografia, cheio de defeitos e de talentos, de paixões e de gestos generosos para além do óbvio. Cativante. Nada melhor para uma biografia arrebatadora do que uma pessoa que fez da vida uma batalha resoluta e diuturna contra a unanimidade e a corrente do comum e do normal. Essa rapidinha é o prenúncio do texto que está por vir sobre o livro de Ruy Castro.

***

Ontem também comprei, na Livraria Cultura, A desumanização, do português Valter Hugo Mãe. Edição da Cosac Naify, obviamente bela. Já estou grifando alucinadamente, porque o livro é curto, mas a prosa é intensa, repleta de imagens vivíssimas. Um aperitivo:

"A minha mãe disse que era um pequeno vulcão. São as flores das mulheres. São de sangue. São de lume. Magoam. Todos me falavam de passar a ser mulher e sobre o que isso significava de perigo e condenação. Ser mulher, explicavam, era como ter o trabalho todo do que respeita à humanidade."

25/02/2015

Diário de leitura: "O anjo pornográfico" - parte 3

Desde a última página do diário de leitura de O Anjo Pornográfico, vamos ao que me chamou mais atenção.
Nelson Rodrigues, depois de fazer muito sucesso com Vestido de noiva, começou a enfrentar problemas com a censura. Por ironia, esses problemas passaram a existir depois da redemocratização do país, com a saída de Getúlio da Presidência. Cada peça escrita por Rodrigues, nessa época, como Álbum de família, O anjo negro e Doroteia, precisaria do auxílio de uma campanha movida por ele e por seus amigos, que envolvia, inclusive, pedido de parecer a um padre, oferecimento de jantar ao Ministro da Justiça e indicação de uma comissão de arbitramento composta por intelectuais isentos, para avaliar a liberação da peça. No caso de Doroteia, Nelson submeteu-a ao crivo dos censores como sendo de outro autor, um amigo seu, pois já se considerava maldito.
Também ressalta das últimas páginas lidas a criação de Suzana Flag. Como mais uma forma de ganhar dinheiro escrevendo, Nelson Rodrigues engendra folhetins bastante exitosos travestido dessa escritora com sobrenome estrangeiro, isso uma estratégia de marketing. Ruy Castro conta que Rodrigues tinha grande preocupação em não descobrirem que ele era o verdadeiro inventor daquelas narrativas. Grande propagandista, o dramaturgo consagrado temia que aquelas páginas maculassem sua reputação de artista da palavra. Os folhetins, depois publicados em livro, renderam a Nelson um bom dinheiro. A ideia deu tão certo, que depois ele criaria Myrna e, sob esse disfarce, ficaria encarregado de uma seção de jornal em que respondia a cartas de leitoras, como uma que teve os cabelos raspados pela mãe, para que não saísse de casa.
Merece um parágrafo à parte a montagem de O anjo negro, cujo papel-título foi escrito para Abdias do Nascimento, amigo de Nelson. Embora a peça tenha passado pela peneira da censura, o Teatro Municipal não autorizou a atuação de um ator negro. A montagem foi estrelada por um branco pintado de graxa. Essa idiotice ocorreu há pouco mais de meio século; outros ignominiosos penduricalhos de uma mentalidade pedestre permanecem, e tomara que se vão depressa. Ainda sobre esse assunto, deu vontade de ler um livro de Mário Filho, irmão de Nelson, citado no capítulo 17 de O Anjo Pornográfico: O negro no futebol brasileiro, que Ruy Castro diz ser a obra máxima de Mário, "uma espécie de Casa-grande & senzala urbana, um livro equivalente na historiografia racial ao de Gilberto Freyre. Se Castro tiver mesmo razão, não é pouca coisa.
Termino a página de hoje com algumas palavras de literatura aparecidas nas últimas páginas lidas:

Sua relação com qualquer tipo de documento era patafísica. Nelson perdia sua carteira profissional; a custo tirava outra no Ministério do Trabalho; tempos depois achava a carteira original e ficava com duas; em seguida, perdia ambas; depois de tirar uma terceira via, achava as duas primeiras. E todas iam sendo carimbadas e anotadas por funcionários tão patafísicos quanto ele

Dito assim, pode-se pensar que Nelson enfrentava problemas em casa ou que seu casamento com Elza, tendo sobrevivido à acídia dos sete anos, estivesse começando a deslizar pela ribanceira.

"Precisamos acabar com esse preconceito de que o público brasileiro é alvar, só sabe rir."

Se Álvaro Lins, que era Álvaro Lins, achava isso, que importava para Nelson que aquela plateia de lorpas e pascácios não lhe tivessem dado bola?

24/02/2015

Diário de leitura: "O Anjo Pornográfico" - parte 2

Como eu mencionei na postagem anterior deste diário de leitura, depois do primeiro terço de O Anjo Pornográfico o narrador deixa, aos poucos, a vida de Nelson no período de formação e no contexto familiar e volta-se para aquele em que ele é efetivamente o protagonista da história. Os primeiros eventos dignos de nota são o casamento de Nelson Rodrigues com Elza e sua estreia como dramaturgo, primeiramente com a montagem de A Mulher sem pecado e, mais emocionante e épica, a de Vestido de noiva.

O casamento e o início da carreira dramatúrgica são entrelaçadas na narrativa de Ruy Castro. Nelson casa com Elza e contra a sogra, que o considerava um partido ruim para a filha. Ganhava pouco e morava longe, como se diria atualmente. Andava desleixado e não inspirava um futuro promissor em termos de conforto material talvez nem para ele mesmo. Além de tudo isso, tinha um histórico de tuberculose persistente, em uma época em que o tratamento da doença era, a bem dizer, um jogo de sorte. Consumado o matrimônio, o futuro célebre escritor resolveu escrever peças como forma de aumentar a renda:

Estava passando pela porta do Teatro Rival, na Cinelândia, onde uma fila se atropelava para ver Jaime Costa em "A família Lero-lero", de R. Magalhães Jr. Nelson ouviu alguém comentar: 
"Essa chanchada está rendendo os tubos!" 
Por que não escrever teatro? Não lhe parecia mais difícil do que escrever um romance. Pelo menos, era mais rápido. Com os dedos salivando, Nelson resolveu tentar." 
Atentem para "os dedos salivando", mais uma amostra do talento de prosador de Ruy Castro. Atentem também para o momento marcante na gênese do escritor Nelson Rodrigues. Quem, como eu, interessa-se pelo mundo da literatura - mas especialmente quem deseja tornar-se um escritor - deve achar particular interesse em como se cria um escritor consagrado, em como ele resolve e conclui que se dedicará ao métier. Cada um poderá ter suas motivações, e nós tendemos a idealizá-las. No caso de Nelson, uniu-se a prática da escrita por meio do jornalismo com a necessidade de complementar a renda. Ele vislumbrou a aplicação à produção artística, para fins pecuniários, de um talento aprimorado com o exercício diário nos jornais.

Escrever todo mundo escreve, naquela época como hoje. Eu estou escrevendo, por exemplo. Outra coisa é ser lido. Outra ainda mais difícil é ganhar dinheiro com isso. Minha já arrojada ambição restringe-se ao segundo passo da mencionada escala, mas não era o caso de Nelson Rodrigues. Ele distribuiu suas peças para leitura de medalhões da literatura e da crítica nacionais, como Manuel Bandeira, pediu que escrevessem opinião, de preferência favorável, a respeito delas, bem como usou suas amizades nos meios jornalístico e político, para viabilizar a montagem e alcançar o público. Mutatis mutandis, como os blogueiros e instagrameiros da atualidade trocam curtidas, indicações e divulgações de forma geral.

22/02/2015

Diário de leitura: O Anjo Pornográfico

Comecei a ler, há aproximadamente uma semana, O Anjo Pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro. O biógrafo tem uma prosa bem marcante, que mescla certo tom informal com palavras pouco comuns, mas expressivas. O resultado é ótimo. Tive contato com esse estilo famoso de Ruy Castro no ano passado, quando li Era no tempo do Rei, um romancezinho despretensioso que me pareceu ter toda a pinta de infanto-juvenil, mas não deixou de me impressionar pelo aspecto da escrita em si. 
Estou entre o primeiro quarto e o primeiro terço da biografia e posso dizer que a combinação da prosa de Ruy com sua pesquisa bem feita e com suas escolhas sobre o que era relevante aparecer na obra rendeu um ótimo resultado, muito melhor do que o obtido por ele no romance lido no ano passado por mim. 
Castro ficou famoso por suas biografias de Nelson Rodrigues, de Garrincha e de Carmen Miranda, além de outros títulos de crônicas. Creio que, ao lado de Fernando Morais, autor de Olga e de Chatô: o Rei do Brasil, bem como de Lira Neto, que trouxe à luz biografias do Padre Cícero, de Maysa e, em três volumes, de Getúlio Vargas, Ruy Castro é o maior biógrafo da atualidade no mercado editorial brasileiro. O Anjo Pornográfico, lançado em 1992, foi o primeiro de seus livros nesse gênero.
A intenção do autor, conforme anunciada na "Introdução", não é a crítica ou a análise das obras de Nelson Rodrigues, mas eminentemente factual: seu intuito é narrar, segundo suas palavras, "onde, quando, como e por que". As iscas que ele inseriu na seção introdutória, como que para vender o peixe do livro, são eloquentes: "O Anjo Pornográfico é a espantosa vida de um homem - um escritor a quem uma espécie de ímã demoníaco (o acaso, o destino, o que for) estava sempre arrastando para uma realidade ainda mais dramática do que a que ele punha sobre o papel." Aí se tem uma amostra da prosa de Ruy, com essa ótima expressão "ímã demoníaco". Ademais, quem tem alguma noção do que é a obra de Nelson Rodrigues - quase todo mundo tem - fica curiosíssimo por saber como a vida dele pode superar sua obra em dramaticidade.
No passo em que me encontro, o livro está transitando da fase em que se conta a vida de Nelson no contexto familiar para aquela que será centrada, imagino, propriamente nele. A narrativa começa no Recife, onde nasceu o biografado, passa pela mudança da família Rodrigues para o Rio de Janeiro e segue pelos altos e baixos deles no período de formação de Nelson. Nota-se que Ruy Castro aponta, aqui e ali, possíveis fontes para a ficção rodriguesiana, marcada por traições, bebedeiras, mortes apoteóticas e loucuras.
Uma personagem que chamou particularmente minha atenção, nesse quase primeiro terço de livro, foi Sylvia Seraphim, uma mulher estonteantemente bonita, colaboradora de jornais da época e amiga de intelectuais, algo ainda incomum então. O desquite de Sylvia foi noticiado de forma sensacionalista pelo jornal de Mário Rodrigues, pai de Nelson, apesar dos apelos reiterados para que deixassem esse assunto privado fora das páginas do diário. As consequências foram catastróficas, e aqui eu fico, para vocês não me acusarem de estragar um dos baratos da biografia.
Uma coisa bacana das boas biografias é que elas logicamente não informam apenas da vida da personagem-título. Para permitir que essa seja entendida, vêm a reboque as de outras personagens relevantes, afora elementos de história e de tudo quanto possa lançar luz sobre o biografado. O Anjo Pornográfico também trata, por exemplo, de Mário Rodrigues Filho, irmão de Nelson e grande pioneiro da crônica esportiva nacional, cujo prestígio redundou na escolha de seu nome para o mundialmente famoso estádio do Maracanã. Outro irmão de Nelson, Roberto, ilustrador e artista plástico que viveu muito pouco para deixar uma obra mais marcante, teve um filho, morto em 2014, que seria um dos maiores designers do Brasil.
Incluí O Anjo Pornográfico na meta de leituras de 2015 por duas razões principais. Em primeiro lugar, estou interessado no gênero biográfico e considero que preciso me encharcar dele, para absorver sua forma. Em segundo lugar, se elegi a prioridade de ler biografias, tanto melhor que sejam sobre pessoas que foram protagonistas em áreas que me interessam primordialmente. No caso de agora, o mundo da literatura. Voltarei mais tarde a essas duas intenções geradoras da presente leitura, mas adianto que o livro de Ruy Castro tem cumprido muito bem a destinação que lhe dei, além de deleitar-me com seu ímã demoníaco.

(O trecho lido no vídeo acima refere-se ao caso de Sylvia Seraphim)

(Sobre o abandono dos estudos por Nelson Rodrigues)

(O pai de Nelson Rodrigues começou como jornalista e terminou com proprietário de jornal. Uma das seções que certamente serviram de inspiração para a obra do biografado foi a policial.)

(Ruy Castro especula sobre a influência da vida na primeira vizinhança dos Rodrigues no Rio de Janeiro sobre a mente de Nelson)

(Logo que os Rodrigues chegam ao Rio, a cidade é assolada pela epidemia da gripe espanhola)

17/02/2015

Rapidinha (de Carnaval) 2

Conforme programado, talvez com um pouco de atraso, terminei a leitura meio obrigatória de História das Relações Internacionais Contemporâneas, que estabeleci como condição para iniciar O Anjo Pornográfico. No meio do caminho, porém, tinha uma ida à livraria, de onde saí, no sábado de Carnaval, com os três livros que postei no Instagram. Comecei a ler Literatura Brasileira: modos de usar, do professor da UFRGS Luís Augusto Fischer, ainda no shopping onde o comprei, e terminei-o só um pouco depois do de Relações Internacionais. 


Vim só dar notícias, dizer que atribuí quatro estrelas ao livrinho de Fischer - que será objeto de postagem própria - e consignar minha alegria de começar a virar as páginas da biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, com grandes expectativas.

07/02/2015

Metas de leitura de 2015: "O anjo pornográfico"



Está na agulha, para leitura ainda este mês, a primeira biografia que lerei no ano, de Ruy Castro, mestre do gênero no Brasil. Trata-se de O anjo pornográfico, publicação da editora Companhia das Letras. Lembram que, na postagem sobre Dois irmãos, mencionei um clube de leitura formado com amigos meus do trabalho? Pois, decidimos encarar a biografia de Nelson Rodrigues. De Ruy Castro, há também as famosas e elogiadas biografias que tomaram por objeto as vidas de Carmem Miranda e de Garrincha.

Estou particularmente interessado pelo gênero "biografia", porque ando com a coceira de escrever uma. Botei na cabeça, por isso, que deveria ler o máximo delas que pudesse, prestando especial atenção à construção, à forma, à organização das informações sobre a vida do biografado, às escolhas do autor sobre o que foi relevante vir a público. Uma de minhas intenções primordiais, com essa leitura, é assimilar a forma. A escolha do grupo veio ao encontro de um de meus projetos.

Pelo fato de tratar da vida de um escritor e provavelmente incluir, por isso, informações sobre o mundo literário da época, com a presença de outros escritores, de intelectuais, de jornalistas e de figuras dos bastidores da cena editorial, nutro a expectativa de também ter acesso a informações históricas de particular interesse para mim, que curto literatura e gosto de escrever. Espero, por exemplo, saber como Nelson Rodrigues publicou seu primeiro livro, se sua inclinação para a escrita surgiu desde cedo, se foi espontânea ou estimulada, se teve crises de criatividade, como encarou eventuais insucessos de público ou de crítica etc.

(Minha edição autografada pelo autor na Bienal do Livro de Brasília em 2014)

Conforme prometi na postagem sobre as metas de leitura para 2015, compartilhei um pouco dos critérios que usei para fazer minhas escolhas de leitura deste ano e transmiti algumas informações elementares sobre o livro que foram importantes para a seleção. Aos poucos, farei o mesmo com os outros títulos da lista deste ano. Igualmente, quando terminar as leituras, voltarei com minhas impressões, com a confirmação ou com a rejeição de minhas expectativas quanto a elas, com informações mais detalhadas que permitam vocês decidirem se vale a pena incluir em suas listas e com minha avaliação geral de 1 a 5 estrelas.