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29/09/2016

"Meus desacontecimentos", de Eliane Brum - resenha


Avaliação: ****


Quando leio algo escrito por Eliane Brum, tenho a sensação de que vou me desequilibrar e cair no próximo passo. Um pouco de vertigem. Por incrível que pareça, a sensação é boa, porque a tensão vem de uma ameaça a minha zona de conforto. Ao mesmo tempo, dado o passo arriscado, transposta uma frase, transcorrido um parágrafo, é comum sentir que descobri ou elucidei uma parte de mim que estava guardada, confusa, enevoada. Não sou jogado para fora da zona de conforto com um golpe maldoso, mas sou conduzido, sorrateira e suavemente, para fora dela, como que por uma sábia feiticeira que quisesse me ensinar não apenas com a cognição, mas também com outros aspectos da alma, aqueles a que escrita literária dá acesso de forma privilegiada. Ler Eliane Brum sempre me deixa melhor do que era.
Por essa experiência com o texto da escritora, decidi provar um de seus livros. Procurei o que havia disponível no "Kindle Unlimited", a assinatura de livros oferecida pela Amazon, nos moldes do Netflix, e encontrei Uma, duas, uma ficção de que já ouvira falar, e Meus desacontecimentos, cujo subtítulo prometia contar à história da autora com as palavras. Eu sempre me interesso pelos bastidores da vida de quem escreve. Uma bisbilhotice boa. Quero saber as circunstâncias que levam alguém a criar e a publicar, a estabelecer uma comunicação carregada de inteligência estética com pessoas desconhecidas. Deixei Uma, duas para depois. Queria mitigar o risco de me desgostar naquela empreitada de aproximação da escrita de Eliane Brum, agora em livro. Meus desacontecimentos prometia ser algo mais próximo ao tipo de texto da autora com o qual eu estava habituado. 
A subjetividade de Eliane Brum está muito presente no texto do livro, mas, ao representar seus meandros, a autora conecta-se com a gente e nos representa também. O tipo de sofrimento relacionado à dificuldade de estar no mundo é universal, e Eliane Brum nos toca muito bem com a revelação de seus casos. Na obra, ela conta o que escrever significou para ela, como foram definidos seus marcos do estar no mundo e seus compromissos éticos com o jornalismo e com a literatura. Sua preocupação humanista, o olhar atento e sensível para as questões vinculadas à condição das minorias sociais, sua espécie de sacerdócio ou de profissão de fé com a escrita: tudo isso vai historiado e bem exposto no livro.

Seguem meus trechos preferidos, organizados tematicamente:

Relação com as palavras








Existência humana







Preocupação social e realidade brasileira






A história com a menina de rua

(A sequência em que Eliane Brum conta sua história com uma menina de rua que lhe pareceu ameaçadora ao primeiro contato me chamou especialmente a atenção. Nela se representa muito bem a falácia daquilo que, no Brasil, alguns estratos sociais costumam chamar de meritocracia, mas não passa de discurso autorreferenciado e consagrador de privilégios. Essa parte da história é tão dolorosa quanto necessária.)




Condição feminina

11/03/2015

Diário de leitura: "A desumanização" - parte 2


Hoje vou fazer uma postagem de preguiçoso, porém os leitores fingirão que não notaram, e nossa amizade seguirá firme e cordial. Não avancei na leitura de A desumanização, quando já deveria tê-la concluído. No Dia das Mulheres, preferi dedicar meu tempo a Chimamanda Adichie e a Virginia Woolf, como os dois textos do final de semana comprovam. Ontem e hoje, não encontrei forças para desgarrar-me dos lençóis e fazer minha sessão matinal de leitura, sempre com o auxílio do café, antes de aprontar-me para o dia de trabalho. Dormi vergonhosamente até o último segundo possível e atrasei minha agenda. 

22/02/2015

Diário de leitura: O Anjo Pornográfico

Comecei a ler, há aproximadamente uma semana, O Anjo Pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro. O biógrafo tem uma prosa bem marcante, que mescla certo tom informal com palavras pouco comuns, mas expressivas. O resultado é ótimo. Tive contato com esse estilo famoso de Ruy Castro no ano passado, quando li Era no tempo do Rei, um romancezinho despretensioso que me pareceu ter toda a pinta de infanto-juvenil, mas não deixou de me impressionar pelo aspecto da escrita em si. 
Estou entre o primeiro quarto e o primeiro terço da biografia e posso dizer que a combinação da prosa de Ruy com sua pesquisa bem feita e com suas escolhas sobre o que era relevante aparecer na obra rendeu um ótimo resultado, muito melhor do que o obtido por ele no romance lido no ano passado por mim. 
Castro ficou famoso por suas biografias de Nelson Rodrigues, de Garrincha e de Carmen Miranda, além de outros títulos de crônicas. Creio que, ao lado de Fernando Morais, autor de Olga e de Chatô: o Rei do Brasil, bem como de Lira Neto, que trouxe à luz biografias do Padre Cícero, de Maysa e, em três volumes, de Getúlio Vargas, Ruy Castro é o maior biógrafo da atualidade no mercado editorial brasileiro. O Anjo Pornográfico, lançado em 1992, foi o primeiro de seus livros nesse gênero.
A intenção do autor, conforme anunciada na "Introdução", não é a crítica ou a análise das obras de Nelson Rodrigues, mas eminentemente factual: seu intuito é narrar, segundo suas palavras, "onde, quando, como e por que". As iscas que ele inseriu na seção introdutória, como que para vender o peixe do livro, são eloquentes: "O Anjo Pornográfico é a espantosa vida de um homem - um escritor a quem uma espécie de ímã demoníaco (o acaso, o destino, o que for) estava sempre arrastando para uma realidade ainda mais dramática do que a que ele punha sobre o papel." Aí se tem uma amostra da prosa de Ruy, com essa ótima expressão "ímã demoníaco". Ademais, quem tem alguma noção do que é a obra de Nelson Rodrigues - quase todo mundo tem - fica curiosíssimo por saber como a vida dele pode superar sua obra em dramaticidade.
No passo em que me encontro, o livro está transitando da fase em que se conta a vida de Nelson no contexto familiar para aquela que será centrada, imagino, propriamente nele. A narrativa começa no Recife, onde nasceu o biografado, passa pela mudança da família Rodrigues para o Rio de Janeiro e segue pelos altos e baixos deles no período de formação de Nelson. Nota-se que Ruy Castro aponta, aqui e ali, possíveis fontes para a ficção rodriguesiana, marcada por traições, bebedeiras, mortes apoteóticas e loucuras.
Uma personagem que chamou particularmente minha atenção, nesse quase primeiro terço de livro, foi Sylvia Seraphim, uma mulher estonteantemente bonita, colaboradora de jornais da época e amiga de intelectuais, algo ainda incomum então. O desquite de Sylvia foi noticiado de forma sensacionalista pelo jornal de Mário Rodrigues, pai de Nelson, apesar dos apelos reiterados para que deixassem esse assunto privado fora das páginas do diário. As consequências foram catastróficas, e aqui eu fico, para vocês não me acusarem de estragar um dos baratos da biografia.
Uma coisa bacana das boas biografias é que elas logicamente não informam apenas da vida da personagem-título. Para permitir que essa seja entendida, vêm a reboque as de outras personagens relevantes, afora elementos de história e de tudo quanto possa lançar luz sobre o biografado. O Anjo Pornográfico também trata, por exemplo, de Mário Rodrigues Filho, irmão de Nelson e grande pioneiro da crônica esportiva nacional, cujo prestígio redundou na escolha de seu nome para o mundialmente famoso estádio do Maracanã. Outro irmão de Nelson, Roberto, ilustrador e artista plástico que viveu muito pouco para deixar uma obra mais marcante, teve um filho, morto em 2014, que seria um dos maiores designers do Brasil.
Incluí O Anjo Pornográfico na meta de leituras de 2015 por duas razões principais. Em primeiro lugar, estou interessado no gênero biográfico e considero que preciso me encharcar dele, para absorver sua forma. Em segundo lugar, se elegi a prioridade de ler biografias, tanto melhor que sejam sobre pessoas que foram protagonistas em áreas que me interessam primordialmente. No caso de agora, o mundo da literatura. Voltarei mais tarde a essas duas intenções geradoras da presente leitura, mas adianto que o livro de Ruy Castro tem cumprido muito bem a destinação que lhe dei, além de deleitar-me com seu ímã demoníaco.

(O trecho lido no vídeo acima refere-se ao caso de Sylvia Seraphim)

(Sobre o abandono dos estudos por Nelson Rodrigues)

(O pai de Nelson Rodrigues começou como jornalista e terminou com proprietário de jornal. Uma das seções que certamente serviram de inspiração para a obra do biografado foi a policial.)

(Ruy Castro especula sobre a influência da vida na primeira vizinhança dos Rodrigues no Rio de Janeiro sobre a mente de Nelson)

(Logo que os Rodrigues chegam ao Rio, a cidade é assolada pela epidemia da gripe espanhola)

12/02/2015

Memorial do "Memorial de Aires"

Anteontem terminei a releitura de Memorial de Aires, último romance escrito por Machado de Assis. Deu tempo de publicar algo no Instagram, mas só hoje arranjei um momento para escrever a respeito do livro.

Notei que, depois de iniciado nesta atividade blogueira e instagrameira, minhas experiências de leitura são marcadas por uma novidade: a preocupação em procurar elementos interessantes para as postagens. Além da atenção voltada para os aspectos estéticos, para a construção da trama, para referências e significados indiretos, para trechos de conteúdo memorável, passei a ter sempre presente, ao virar as páginas, a pergunta sobre o que poderia ser objeto de bons debates no Palavra de Literatura. O complexo ato da leitura fica, assim, enriquecido por essa nova disposição de espírito.

O problema é que estou começando com essa história de escrever sobre livros e, feliz ou infelizmente, tive muitas ideias para o texto que escreveria sobre o Memorial. Eu poderia implementar todas e desdobrá-las em várias postagens, mas, conhecendo-me bem, temo deixar ideias soltas pelo caminho, sem que lhes dê corpo textual. Confesso aos leitores, metalinguisticamente, os impasses de um novel blogueiro com sua mente cheia de projetos confrontada com as restrições de tempo que a vida lá fora impõe aos que cumprem expediente por um salário. 

Pensei, por exemplo, em dedicar uns parágrafos só para os aspectos de construção do narrador-personagem em sua condição de diplomata aposentado. Reuniria e comentaria tanto as passagens com referências abertas e diretas à vida profissional do Conselheiro Aires, o narrador, no exterior e na relação com os órgãos de governo, como exploraria aquelas características mais sutis e indiretas atinentes ao perfil esperado de um diplomata. Um texto assim discutiria, em primeiro lugar, a construção da personagem por Machado de Assis: minúcias que conferem verossimilhança e consistência ao protagonista. Por exemplo:

"Quando eu era do corpo diplomático efetivo não acreditava em tanta cousa junta, era inquieto e desconfiado; mas, se me aposentei foi justamente para crer na sinceridade dos outros. Que os efetivos desconfiem!"

Outra vertente que me renderia uma postagem exclusiva, ainda como fruto da leitura do Memorial de Aires, seria a discussão sobre a arte da conversa na forma como ela se manifesta no livro: falas, respostas, hesitações, cálculos e sutilezas que são narrados pelo Conselheiro Aires, nas páginas de seu diário, relativas à condução de conversas nos ambientes sociais que frequenta. A informação que obtemos da trama, contada no dia-a-dia registrado no diário, vem da habilidade com a qual o narrador conduz os bate-papos entabulados com um e com outro de suas relações. 

Achei interessantíssimo como ele, em diversas ocasiões, confessa haver tido a intenção de dizer algo, mas ter recuado por julgar inconveniente ou invasivo. Em outras, suscita assuntos, como quem não quer nada, para descobrir as novidades sobre a viúva Fidélia ou sobre o jovem Tristão. Reconhece a maldade de D. Cesária, mas admite sua queda pelas maledicências da senhora. Há momentos, ainda, em que consegue desviar de temas dolorosos e entreter seus interlocutores com amenidades. Essa habilidade liga-se, a propósito, com a profissão do Conselheiro Aires, pois se espera que um diplomata colete informações de bastidores relevantes para seu país, e uma das formas mais corriqueiras de consegui-las é fazer amizades certas, conquistar a confiança delas e ser capaz de seduzir pela conversa. Eis um trecho que ilustra o que digo:

"D. Carmo entendeu acaso que o assunto podia ser enfadonho a estranhos, e trocou as mãos à conversa. Não totalmente, é verdade; falou da casa do Desembargador Campos e do que iria por lá. Eu (habilmente, confesso) querendo saber o estado do coração de Osório, perguntei se ele não estaria lá também, ele, que também é do foro."

Mais pano para manga seria explorar as marcas do gênero "diário" empregadas por Machado de Assis, para engendrar o Memorial de Aires. Assim como há a construção da verossimilhança do narrador-personagem como diplomata aposentado, também se encontram, a serviço do convencimento literário, elementos desse gênero de escrita pessoal, destinado a consignar confidências e registros mais ou menos aleatórios do cotidiano de quem o escreva. Aires, por exemplo, conversa com o papel e discute o que deve ou não incluir em sua superfície. Ele comenta os dias omissos, admite o encurtamento de uma história em razão do cansaço, anota as datas e os horários de inclusão das linhas no diário, questiona-se sobre a finalidade dos textos. Eu já tentei disciplinar-me a escrever diário e vivenciei muito do que Aires revela passar nessa sua atividade. Para além disso, caberia, na postagem que tratasse desse aspecto, discutir como Machado se valeu desse formato, para contar uma história.

"Sete dias sem uma nota, um fato, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque também hoje não tenho que apontar aqui. Escrevi isto só para não perder longamente o costume. Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem pensa nada."

Até este ponto, acho que os aspectos levantados foram primordialmente formais: a construção da personagem narradora, a arte da conversa como meio de revelação do eixo central da trama e as marcas do gênero "diário". A última postagem que faria sobre minha releitura (quer dizer, a penúltima, porque a última poderia ser sobre a experiência das releituras) do Memorial de Aires seria de fundo, de conteúdo: a relação entre a juventude e a velhice. A maioria das personagens é idosa: o próprio Aires, o casal Aguiar, a irmã do diplomata, Rita, e o tio da viúva Fidélia, Desembargador Campos. No vaivém dos dias, eles giram em torno do destino de Fidélia e de Tristão, ambos amados como filhos pelo mencionado casal Aguiar. Mais não digo, para não estruir algum elemento surpresa da narrativa. Dou só um aperitivo:


"... concluí que a mocidade tem o direito de viver e amar, e separar-se alegremente, do extinto e do caduco."

Creio que já vão bastantes linhas para atualizar o blog. Ao mesmo tempo que considero haver transmitido algum gosto da obra, deixo estabelecido um plano de postagens, que só o tempo dirá se virão à luz. Os leitores podem ajudar-me, com pressões e com pitacos, incentivando a realização do projeto. Não preciso dizer a ninguém que o romance é recomendadíssimo, porque estão aí décadas e décadas de críticos sagazes, de acadêmicos rigorosos e de bons leitores a elogiar, com cada milímetro de mérito, a maestria de Machado de Assis na seara da prosa.

20/01/2015

"Dois irmãos": meus trechos prediletos


Depois da postagem anterior sobre Dois irmãos, deixo aqui meus trechos preferidos do livro:

A sala fervilhava de foliões, e no meio das tantas cores e das máscaras ele viu as tranças brilhantes e os lábios pintados, e logo ficou trêmulo ao reconhecer o cabelo e o rosto semelhantes ao dele, pertinho do rosto que admirava.

Quando as casas da rua explodiam de gritos, Zana me mandava zarelhar pela vizinhança, eu cascalhava tudo, roía os ossos apodrecidos dos vizinhos. Era cobra nisso. Memorizava as cenas, depois contava tudo para Zana, que se deliciava, os olhos saltando de tanta curiosidade: "Conta logo, menino, mas devagar... sem pressa". Eu me esmerava nos detalhes, inventava, fazia uma pausa, absorto, como se me esforçasse para lembrar (...).

(...) mas a memória inventa, mesmo quando quer ser fiel ao passado.

Mas eu me lembro, sempre tive sede de lembranças, de um passado desconhecido, jogado sei lá em que praia de rio.

Não se sabe o que conversaram, mas cada uma tateava o território da outra, ambas cheias de gestos e disfarces, e muito nervosas, atrizes em noite de estreia.

Era um rapaz esquisito mesmo, dissimulado, quase apresentado, quase sorridente, um tipo cheio de metades e quase, com um nariz enjambrado no rosto meio chupado. Uma figura que carecia de olhar, que é como carecer de alma.

Tinha asas, era impulsivo, mas faltou-lhe força para voar alto e perder-se livremente no imenso céu do desejo.

Suas orações, sempre serenas, pareciam duvidar das coisas do além.

A floresta: é sobrevoar, admirar, assombrar-se e desistir.

Nenhum passado é anônimo.

A vida vai andando em linha reta, de repente dá uma cambalhota, a linha dá um nó sem ponta.

"O comércio é antes de tudo uma troca de palavras".

(...) o tempo que faz uma pessoa se tornar humilde, cínica ou cética.

As asas finas de um saracuá, o pássaro mais belo, empoleirado num galho de verdade, enterrado numa bacia de latão. Asas bem abertas, peito esguio, bico para o alto, ave que deseja voar. Toda a fibra e o ímpeto da minha mãe tinham servido os outros.

Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras (...).

Notei no seu rosto o esforço, a força para murmurar uma frase em português, como se a partir daquele momento apenas a língua materna fosse sobreviver. Mas quando Zana procurou minhas mãos, conseguiu balbuciar: Nael... querido...

O futuro, essa falácia que persiste.