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04/02/2015

Meta de leitura 2015: introdução

Achei uma boa comentar com vocês a lista de livros que pretendo ler em 2015. Pretendo explicar o que norteou a escolha dos livros e trocar impressões com @s leitor@s do blog. Também acho que será um bom exercício refletir publicamente sobre a formação dessa lista e, no final do ano, ao olhar retrospectivamente as postagens desta série, avaliar se foi cumprida, o que ficou de fora, o que entrou e não estava previsto e por quê.
Em 2014, pela primeira vez, eu estabeleci uma meta numérica de leitura. Um amigo meu tinha assumido um desafio no Goodreads, uma rede social e aplicativo para leitores, e eu animei-me a seguir o exemplo. Julguei que ler 25 livros seria razoável, tendo em vista o trabalho, as obrigações assumidas, a vida social. Terminei em 30. Com esse resultado, resolvi aumentar em 10%, pelo menos, a nova meta. Para este ano, pretendo ler 33 folhosos, no mínimo, o que resulta em uma média mensal de menos de três, bem factível.
Para escolher os títulos, eu tinha de conciliar minha livre vontade de ler com as leituras que, por projetos pessoais que me atribuí, teriam de ser feitas. Dadas essas condições, criei cinco categorias, pelas quais distribuí os livros que digerirei em 2015.
Uma categoria incluirá os volumes relacionados a minha área de atuação profissional, as Relações Internacionais. Essa foi uma necessidade ainda maior, porque provavelmente darei algumas aulas sobre o tema. 
Outra categoria vincula-se um pouco à carreira, mas provavelmente existiria de qualquer forma, por interesse pessoal: livros em língua estrangeira. Nessa, defini que serão lidos quatro escritos em inglês, dois em espanhol e mais dois em francês. Minha intenção é praticar os idiomas e entreter-me. Um critério essencial é que a obra tenha sido escrita originalmente na língua estrangeira em questão. Por ora, aqueles em espanhol serão El General en su laberinto, de García Márquez, e um de contos do peruano Julio Ramón Ribeyro, que comprei quando estive em Lima. Em inglês, também sujeitos a mudança, serão Oliver Twist, A single man, The remains of the day e Purple hibiscus. Em francês, ainda não defini.



Duas outras categorias ligam-se a um projeto de livro/pesquisa que eu pretendo levar a cabo e a um tema, o Nordeste, que decidi estudar melhor, para poder entender e discutir. Na primeira das categorias citadas, estão, até agora, Fogo morto, O espetáculo das raças e Política e parentela na Paraíba. Na segunda, A invenção do Nordeste, Cangaceiros, Pedra bonita, a biografia de Padre Cícero escrita por Lira Neto e o primeiro volume de Crimes que abalaram a Paraíba, que já está lido.
O quinto grupo é o melhor: chama-se "livre". Nele, eu incluo as leituras que me derem na telha. Quatro já foram: O evangelho segundo Jesus Cristo, Cinzas do Norte, A sombra do meio-dia e Caim. Dos que constam da lista, faltam: Odisseia, em nova tradução de Christian Werner, lançada pela Cosac & Naify (foi meu autopresente de aniversário em 2014); as duas últimas biografias de Getúlio escritas por Lira Neto (autor que está bombando em minha lista, notaram?), O anjo pornográfico, Chatô, O mestre e Margarida e Memorial de Aires.



Aos poucos, vou singularizar cada livro mencionado em um texto próprio, em que detalharei informações sobre eles e explicarei por que despertaram meu interesse e candidataram-se a ocupar meu precioso tempo. E vocês? Fazem lista com metas de leituras? Como as organizam? Já leram, ou pretendem ler algum dos livros que mencionei? Diz aí, vai.

29/01/2015

O moleque Ricardo

O moleque Ricardo é um romance particularmente rico na produção do paraibano José Lins do Rego. Celebrizado pelas obras do chamado ciclo da cana de açúcar, que reconstitui vivamente os aspectos privados e socioeconômicos da civilização do açúcar, Zé Lins criou essa espécie de interregno, que é o livro objeto desta resenha. O foco da narrativa desloca-se da elite canavieira e da geografia da várzea do Paraíba para o negro Ricardo e suas peripécias no mundo urbano do Recife nas primeiras décadas do século XX.


(O pernambucano Manuel Bandeira e o paraibano José Lins do Rego, este com a farda da Academia Brasileira de Letras)

Desde o ano passado, estou relendo, em alguns casos, e lendo, em outros, todos os romances do ciclo açucareiro. Reli Menino de engenho e li Doidinho, Banguê e Usina, além do já mencionado O moleque Ricardo. Falta, para completar o projeto, a releitura de Fogo morto, considerado a obra-prima do autor. Tenho particular interesse por essas histórias, porque, sendo paraibano, o ambiente descrito é-me familiar, e eu pretendo aproveitar o resgate da natureza e da sociedade da época para, quem sabe, escrever um livro sobre o qual poderei comentar futuramente. Zé Lins registrou aspectos dessa civilização que não são facilmente recuperados por meio de pesquisa em arquivos, de modo que sua literatura, além das qualidades estéticas e da função que exerce como arte, também é fonte histórica valiosa.


(Minha edição de O moleque Ricardo, caixa com livros do ciclo da cana-de-açúcar e os dois do ciclo do cangaço)

Como eu dizia, O moleque Ricardo conecta-se com os demais romances do ciclo, mas incorre em um duplo deslocamento, que tem efeitos extraordinários. A leitura pode ser feita independentemente, mas aposto que fica bem melhor, se realizada na sequência, porque as referências a personagens, ao mundo do engenho e a situações tornam o relato muito mais interessante. Como diz uma personagem de Saramago no romance Caim: "nos pormenores é que está o sal". 
Os momentos mais temperados do livro são aqueles em que Ricardo confronta os dois mundos, o rural do engenho e o urbano do Recife. Há um jogo de expectativas e de frustrações do começo ao fim, e a prosa de Zé Lins, íntima, amiga, dotada da difícil simplicidade que caracteriza a fala dos grandes contadores de histórias ao pé do fogão ou no alpendre de casa, enreda-nos na torcida pelo pobre moleque de bagaceira que, apesar de todos os motivos de revolta que a vida lhe daria, esmera-se no trabalho, esforça-se diligentemente e seria candidato a case de self-made man, se ele existisse em um meio social que premiasse o empenho e o mérito.
Ao ler O moleque Ricardo, prestem atenção à diversidade de elementos da vida urbana recifense, comum a várias cidades brasileiras do início do século, com a diferença apenas da medida. Comparecem os imigrantes, a miséria das periferias, os carnavais de rua, o engajamento popular nos blocos, a religiosidade que mistura crenças de matriz africana com o catolicismo nosso de todo o sempre, o surgimento do movimento sindical e das primeiras greves, o oportunismo de políticos populistas que pegam carona nos anseios de vida digna dos operários citadinos. O livro é largo e profundo, sem perder a coesão, cujo núcleo é a personagem-título.
Eu dei 4 estrelas de 5. Minha edição é a 27.a, com a capa amarelo creme que caracterizou uma leva de edições da obra de Zé Lins. As capas mais recentes estão mais bonitas, com imagens em estilo de xilogravura e um quadrado monocromático com aplicação de verniz, em que ficam os nomes do autor e de cada obra. O trecho que selecionei para a postagem do @palavradeliteratura foi este:


A lua banhava tudo de branco como nas cajazeiras da estrada. Mãe Avelina, Joana, todas se sentavam na porta da rua para apreciar o luar. O terreiro parecia uma toalha de MADAPOLÃO estendida.
Reproduz bem o estilo de Zé Lins, com imagens muito concretas, que evocam os sentidos e o passado. "Madapolão" é, segundo o Dicionário Houaiss, um "tecido encorpado de algodão, branco e liso". Na cena descrita, as ex-escravas ficadas no engenho por falta de rumo melhor, inclusive a mãe de Ricardo, Avelina, estão sentadas ao relento, em noite de Lua, provavelmente trocando impressões sobre o dia, falando da vida alheia ou ouvindo histórias sem tempo. O terreiro, onde sujam esquecidas os pés de poeira e acompanham, de soslaio, a brincadeira dos moleques, está todo coberto pela luz lunar benfazeja, que não discrimina ninguém, como um manto da santa protetora.


(Obra de Cícero Dias com reprodução do ambiente do Engenho Noruega)

Se já leu O moleque Ricardo, diga-me o que achou no campo de comentários abaixo!