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10/05/2018

Resenha: "A guerra não tem rosto de mulher", de Svetlana Alexiévitch

A guerra não tem rosto de mulher, primeiro livro que consumo da ganhadora do prêmio Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Alexiévitch, resulta de uma grande e engenhosa costura dos milhares de depoimentos de mulheres que participaram da guerra contra os nazistas pelo lado da antiga União Soviética. Insere-se bem na descrição que dela fez o comitê do Nobel, como uma "obra polifônica, um monumento do sofrimento e da coragem em nosso tempo". O título, muito chamativo e escolhido com genialidade, sintetiza bem o que se encontra no miolo.

Quando se pensa em guerra, realmente não se enxerga no rosto da entidade imaginada nenhum traço feminino. Não se cogita sequer de um rosto, este nosso emblema pessoal, outdoor de emoções e de sentimentos. Os olhos, que choram e são a janela da alma, estão no rosto, não nos braços que empunham metralhadoras e baionetas, nem nos pés que calçam botas e palmilham lamaçais, terrenos minados e corpos finados anônimos. O título escolhido por Svetlana Alexiévitch remete não apenas ao fato de as representações da guerra, onipresente fenômeno humano, serem completamente esvaziadas da participação feminina, como se essa não tivesse existido, mas também às tintas de intimidade, de sentimentos, de dramas prosaicos e quase envergonhados, como o de não poder usar um vestido, ou, durante um ataque, correr para o rio e arriscar-se, para poder lavar-se da menstruação com alguma privacidade, longe dos olhos masculinos. Esse enfoque contrasta até com o contexto em que as depoentes viveram, de preponderância do coletivo sobre o individual no mundo soviético.

Como não poderia deixar de ser, a condição feminina, com todos os seus desafios, seus traços históricos e sociais, sua racionalidade e sua sensibilidade, até seus estereótipos combatidos por parte do movimento feminista, aparece na obra com efeito impressionantemente inovador. A questão do que pode ou não pode, do que deve ou não deve ser dito sobre a guerra aflora logo no começo do livro, quando algumas mulheres relatam que os respectivos maridos quiseram ditar-lhes o que abordar. Nada de sentimentalismos, nada de cheiros, de emoções, de conflitos familiares. Vários depoimentos registram a preocupação de estar falando algo realmente relevante, mas do ponto de vista da corrente ainda majoritária de representar a guerra por meio de estratégias, de movimentações de tropas, de dados estatísticos e de heroísmos quase sempre masculinos. Se algum rosto aparecer, que seja o do general, do presidente, sempre homem.

A guerra não tem rosto de mulher ajuda a desconstruir mais esse primado do masculino nas representações políticas e sociais humanas, sem renunciar, para isso, a nenhum aspecto do feminino.

02/03/2017

Resenha-parágrafo: "Trópicos utópicos", de Eduardo Gianetti


A leitura é agradável como um papo sagaz sobre assunto que nos interessa afetiva e intelectualmente. Propõe-se objetivo muito instigante e promissor, investigar os limites de uma visão de futuro comum à nação brasileira que a distinguisse do resto do mundo e por meio da qual ela se inserisse na ordem global. Fez um prólogo que consome 90% do livro e não desenvolveu bem o objetivo inicial, restrito às últimas 15 páginas. A conclusão é quase nada de original, mas o livro tem a virtude de atualizar e de bem sintetizar, em linguagem sedutora, uma discussão ainda válida, embora antiga. Parece-me problemático em alguns pontos em que recorre, por exemplo, a noções como "vitalidade iorubá", "alegria tupi" e "ternura portuguesa".

21/02/2016

"Persépolis", de Marjane Satrapi

Terminei recentemente um livro em quadrinhos, o já famosinho "Persépolis", da iraniana Marjane Satrapi. Esse livro eu ganhei em um amigo secreto organizado entre um grupo de pessoas que escrevem e falam sobre livros nas redes sociais. Lá no canal no YouTube, lançado há uns dois meses, publiquei um vídeo sobre a obra, por isso vou deixar aqui para quem quiser assistir e farei uma lista de dez motivos por que acho que "Persépolis" deve ser lido.


Você deve ler "Persépolis" porque...

  1. é uma narrativa muito bem alinhavada, cativante e prazerosa;
  2. é uma história autobiográfica de uma pessoa cujas circunstâncias pessoais, usadas como eixo do que se conta, permitem revelar muitas facetas da realidade regional e da alma humana;
  3. os desenhos são bonitos, simples, no sentido difícil de se atingir, muito expressivos, como deve ser, acho, uma boa HQ;
  4. condensa muita informação sobre uma área importante para a geopolítica mundial;
  5. conjuga aspectos privados e públicos de uma vida vivida em contexto de conflitos nacionais e internacionais;
  6. ajuda a desfazer estereótipos e a combater a desinformação gerada pela hegemonia eurocêntrica da imprensa sobre o Irã e sobre o Oriente Médio;
  7. mostra as contradições de processos políticos complexos e os erros corriqueiros mesmo de quem está do lado tido como certo das disputas;
  8. representa a visão da mesma personagem, na infância, na adolescência e na fase adulta, sobre questões de caráter público, sobre as repercussões desses acontecimentos nas decisões pessoais, sobre o estilo de vida etc, em um amadurecimento progressivo que pode ser acompanhado, em seu desenvolvimento, pelo leitor;
  9. é um livro escrito e desenhado por uma mulher artista iraniana que viveu parte importante da história do seu país, onde as mulheres e a arte não tinham grande margem para florescer, e pode contá-la de fora e de dentro ao mesmo tempo.


27/06/2015

"Getúlio 1930-1945": aula de biografia na forma, aula de política no conteúdo.


Há quase dez dias, terminei de ler Getúlio 1930-1945: Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo, segundo livro da trilogia biográfica publicada recentemente pela Companhia das Letras, com autoria de Lira Neto. Fiquei muito empolgado com a leitura do primeiro volume, o que reforçou minha vontade de percorrer não apenas os outros dois sobre Getúlio, mas também aqueles sobre Padre Cícero e sobre José de Alencar (um amigo que me dá dicas de leitura valiosíssimas adorou a biografia de Alencar e recomendou-a faz tempo).  O Getúlio #2, recém-terminado, não foi tão instigante quanto o #1, porém, com isso, não quero dizer que não seja um livro excelente, que merece ser lido por quem gosta de história e de biografias.
Como indicado no título, o segundo volume conta a vida e o contexto histórico do Presidente Getúlio Vargas, desde que conquistou o poder por meio de um golpe, com a ajuda fundamental de forças militares, até que foi retirado da mesma posição, também pela intervenção essencial de forças militares. Lira Neto expõe com que estratégias, talentos e ardis Vargas se equilibrou em uma corda-bamba instável, para manter-se no posto presidencial. Como em qualquer biografia, em que estão em foco, eminentemente, os atos - as decisões - do biografado, é difícil não fazer constantemente juízos sobre Getúlio. 
Eu diria que Lira Neto tem uma opinião mais positiva do que negativa do objeto de sua pesquisa, o que é legítimo. Imparcialidade não se alcança aqui, muito menos na China. As contradições de Getúlio, as ambiguidades, os vaivéns nas alianças estão lá no texto, mas também estão elementos que poderiam justificar, a critério de quem o lê, cada caminho adotado. Notei que muitas justificativas ou interpretações positivas sobre a conduta de Getúlio são calçadas no depoimento de Alzira Vargas, a filha dileta do ex-Presidente, e nos diários que este manteve até quase o final de sua primeira estada no poder. No geral, o equilíbrio é muito adequado entre a exposição do que poderiam ser consideradas canalhices e trapassas e suas motivações, seja no âmbito do pragmatismo, seja no das limitações e dos equívocos pessoais, mesmo que bem-intencionados. De qualquer forma, Getúlio estava cercado de raposas, de egos, de lideranças mais ou menos reconhecidas que, à sua maneira, buscavam cavar espaço e prestígio para os interesses que representavam, inclusive, os mais pessoais: caso de José Américo de Almeida, de Góes Monteiro, de Eurico Gaspar Dutra, de Oswaldo Aranha etc.

"Dotado de hábil pragmatismo e de impressionante paciência histórica, preferia deixar suas opções políticas sempre em aberto, na expectativa de que o tempo oferecesse a oportunidade propícia para deliberações mais seguras ou até mesmo para futuras conciliações, por mais improváveis que estas aparentassem ser no momento." (pos. Kindle 288)

Getúlio Vargas detinha um tino político fora do comum. Foram 15 anos de permanência na chefia do Executivo. De 1930 a 1945, todos os aliados que ajudaram a alçá-lo à cadeira presidencial, na Revolução de 1930, saíram de cena, ou foram eclipsados, sempre que Getúlio pôde fazê-lo. Na gangorra entre aqueles que defendiam a democracia liberal e os outros que se opunham a esta como um sistema vicioso e corrupto, com referência ao período da República Velha, Vargas acenava, sugeria compromissos que não cumpria, e, no fim das contas, promoveu o que ficou conhecido como modernização conservadora da sociedade brasileira. Houve avanços trabalhistas significativos, a indústria ganhou robustez. Ironicamente, foi introduzida uma legislação eleitoral mais avançada, sob a supervisão de um tribunal próprio, porém Getúlio, supostamente por considerar que a sociedade estava imatura para eleições diretas, não a pôs em prática.

"Durante os dez dias que passou no Rio Grande do Sul, Aranha cumpriu uma extenuante maratona de compromissos políticos. Trancafiou-se com Pilla em uma reunião de mais de seis horas em Porto Alegre. Tomou um trem noturno para ir a Cachoeira conversar com Borges de Medeiros e João Neves. Voou em um pequeno Farman-Salmson de apenas dois lugares - um para o piloto, outro para o passageiro - e aterrissou em Pelotas, no aeroporto mais próximo de Pedras Altas, para uma conferência com Assis Brasil. Além disso, participou de almoços e jantares com lideranças empresariais, autoridades militares e representantes de sindicatos. Ouviu muito, falou mais ainda." (loc. Kindle 935)

A política em períodos de fragilidade constitucional, quando a unidade e o consenso nacionais são frágeis, apresenta semelhança interessante com os processos de articulação diplomática. Mesmo tendo chegado ao poder pela força, Getúlio é obrigado a negociar apoios e, para isso, envia seu Ministro Oswaldo Aranha ao Rio Grande do Sul, no intuito de arrefecer ânimos e de recuperar o apoio de sua base regional, sem a qual jamais chegaria ao comando do país. Trata-se de ponto crucial entre a passagem de Getúlio de liderança com legitimidade e com compromissos oligárquicos regionais para a situação posterior, em que sua figura pública desprende-se, em grande medida, da identidade gaúcha e passa a ser associada à brasileira. A missão de Oswaldo Aranha, mencionada na citação logo acima, assemelha-se bastante a uma missão diplomática ao exterior, quando se busca a adesão de soberanias - leia-se "países independentes" - a determinada tese, projeto ou valor. Coincidência ou não, Aranha depois seria Ministro das Relações Exteriores de reconhecido talento.
A história desses quinze anos abrange também a guerra civil de 1932, que os paulistas chamam de Revolução Constitucionalista, a Intentona Comunista, o golpe dentro do do golpe, em 1937, a barganha com os Estados Unidos pelo apoio brasileiro no contexto da Segunda Guerra Mundial e a queda de Getúlio. Além disso, há a desilusão amorosa de Vargas pelo abandono por sua amante e a interessante e saborosa relação entre o Presidente e Alzira, sua filha mais próxima, uma mulher que se enxeriu em ambiente predominantemente masculino e conquistou a confiança e a admiração do pai, como confidente e como conselheira. Como mencionei, o depoimento de Alzira em livro foi essencial para a reconstituição operada por Lira Neto.

"Pela primeira vez na história do país, um líder político buscou sua legitimação no povo, o que ajudou a cristalizar sua figura, no imaginário popular, como um aliado preferencial dos mais pobres e humildes. Ao mesmo tempo, a proibição de greves e a repressão brutal a comunistas e anarquistas minimizaram de modo progressivo a resistência histórica das organizações patronais e das elites, que também foram convocadas a se aproximar do aparelho estatal, como parcela indissolúvel de sua estrutura burocrática." (loc. Kindle 10133)

O jornalista cearense Lira Neto, talento consagrado do gênero biográfico no Brasil.


Por último, destaco, porque me interesso particularmente pelo processo de construção de biografias, o post-scriptum do autor sobre a criação de Getúlio #2. Lira Neto explica que, enquanto o desafio do primeiro volume era recuperar informações pouco conhecidas sobre a vida de Vargas antes da chegada à Presidência, a dificuldade do segundo era lidar com a caudal de informações e de estudos disponíveis acerca de um dos períodos mais pesquisados da história política brasileira. Talvez por isso, como mencionei em postagem anterior e na introdução a este texto, instigou-me mais a narrativa de Getúlio #1.

"Meu propósito, como biógrafo, foi articular o vasto pano de fundo com os aspectos da vida privada do biografado, sobrepondo cotidiano e contexto histórico, para tentar compreender de que forma essas duas dimensões interagiram e sofreram influências mútuas." (loc. Kindle 10164)

"A partir do mapeamento prévio do material depositado no CPDOC, confrontaram-se as informações obtidas nos registros particulares do biografado com a extensa bibliografia disponível (…). Mais de duas dezenas de outros arquivos foram igualmente pesquisados, no Brasil e no exterior, para compor o mosaico de dados. A leitura de periódicos de época, das mais diversas procedências e tendências políticas, contribuiu para conferir à narrativa certa polifonia de vozes, produzida pelos repórteres e analistas que então escreviam e interpretavam a história em tempo real. Charges, caricaturas, canções populares, panfletos, inquéritos policiais, filmes, fotografias e gravuras também ampararam a recomposição de época." (loc. Kindle 10175)

10/06/2015

"Getúlio (1930-1945): do Governo provisório à ditadura do Estado Novo" - notas de leitura

Minha agenda de postagens do blog degringolou. Sempre que penso em retomar as publicações, acontece-me algo que transcende as forças de minha vontade publicadora. Decidi comentar despretensiosamente minhas leituras em curso, para tentar retomar o hábito, inclusive, dos diários de leitura.

***

Já faz algum tempo, estou lendo o segundo volume da biografia de Getúlio Vargas escrita por Lira Neto. Comentei aqui no blog o primeiro livro dessa trilogia. Fiquei realmente capturado pelo talento de Lira Neto, que vem sendo comprovado e aprimorado na sucessão de trabalhos biográficos que ele lança. O cara poderia fazer uma pesquisa minuciosa e exaustiva, mas ter um estilo desinteressante. Mesmo que conjugasse pesquisa diligente e prosa atraente, poderia ter problemas para estruturar o oceano de informações reunidas, de modo que não apenas reforçassem teses e interpretações pertinentes sobre a vida e sobre o contexto histórico do biografado, mas também gerassem no leitor aquela tensão dramática e a afeição típica de narrativas ficcionais. Lira Neto faz tudo isso com maestria, e eu espero que continue dando à luz obras do gênero, que me tem interessado crescentemente.

Ainda sobre a biografia de Getúlio Vargas, é instrutivo acompanhar as artimanhas políticas, as articulações tortuosas, a espera tática e os vaivéns de aliados orquestrados pelo Chefe de Estado mais longevo da história republicana brasileira e o segundo de todos os tempos, atrás apenas do monarca Pedro II. Não há como resistir à presença da personalidade de Getúlio como marco e cicatriz de nossa biografia nacional. Os ecos das tensões políticas que ele tentou equilibrar continuam reverberando nas disputas que se travam atualmente em nossa sociedade. Identificar os padrões daquela época, tão bem reconstruídos por Lira Neto, é instrutivo e útil para participar e interpretar a realidade em marcha.

Por ora, achei mais vibrante e envolvente a leitura do primeiro volume, porque remonta a fases menos difundidas da carreira política do biografado. A passagem de uma liderança local e regional para o âmbito nacional pareceu-me particularmente interessante, em uma época de forças centrípetas prevalecendo na organização do Estado brasileiro. A tentativa de identificar, nos anos de formação, padrões e razões que ajudariam a entender o homem de Estado também estão entre os elementos que aumentam minha predileção pelo volume de abertura, o que, no entanto, não significa que o atual seja prescindível.

06/04/2015

Retorno das férias

Voltei hoje a Brasília de pouco mais de duas semanas de férias na Paraíba. Acabaram as férias, a vagabundagem e o descaso com a atualização do blog, que não tem novidades desde 23 de março. A família lá é grande, e a programação, intensa, por isso rogo a compreensão dos poucos mas valorosos leitores que, ao retornar ao Palavra de Literatura, deram com o nariz em uma postagem cheia de teias de aranha e de poeira repetidas vezes.

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Até o final desta semana, haverá texto sobre o remorso de baltazar serapião. Como escrevi apenas uma postagem à guisa de diário de leitura, meu comentário sobre o livro deve ser mais comprido. Ainda não sei se publicarei todo de uma vez, ou se o fracionarei, para torná-lo mais palatável. De quebra, posso inflacionar artificialmente a estatística de postagens e fazer pose de blogueiro diligente. Gostei muito desse romance de Valter Hugo Mãe e já comprei a máquina de fazer espanhóis. Espero lê-lo ainda este ano.

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Escreverei também sobre o livro Breves narrativas diplomáticas, que terminei de ler nessas férias. Será meio que um ponto fora da curva, porque priorizo literatura stricto sensu no Palavra de Literatura. Não vai doer, no entanto, se eu escrever rapidamente sobre esse. Servirá também para superfaturar as postagens e para ampliar um pouco o escopo do blog, sem sair do mundo dos livros. As leitoras sempre têm a opção de ignorar, mesmo antes de ler, embora eu preze bastante a atenção de todas.
 
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Já estou lendo o segundo volume da biografia de Getúlio Vargas escrita por Lira Neto. Cobre o período de 1930, quando Getúlio assume o poder depois de um golpe, chamado por alguns de revolução, até 1945, quando o próprio Vargas é defenestrado da Presidência da República. Lira Neto é um mestre do gênero biográfico. É claro e direto, sem ser banal ou simplório. Consegue escrever uma prosa elegante e agradável, sem prejudicar a legibilidade e a informatividade que se espera de uma biografia. A pesquisa que ele realizou, e eu pude avaliar no primeiro volume, demonstra, até o momento, a mesma qualidade e o mesmo rigor no segundo. Acho que terei oportunidade de escrever um diário de leitura e lá o comentarei mais detidamente.
 
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 Talvez ninguém lembre, mas prometi umas postagens sobre aspectos específicos do Memorial de Aires. Esses textos estão em construção, contudo são mais longos do que os demais do blog, por isso a demora. Não desisti: sairão à luz cedo ou tarde.
 
 
 

22/02/2015

Diário de leitura: O Anjo Pornográfico

Comecei a ler, há aproximadamente uma semana, O Anjo Pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro. O biógrafo tem uma prosa bem marcante, que mescla certo tom informal com palavras pouco comuns, mas expressivas. O resultado é ótimo. Tive contato com esse estilo famoso de Ruy Castro no ano passado, quando li Era no tempo do Rei, um romancezinho despretensioso que me pareceu ter toda a pinta de infanto-juvenil, mas não deixou de me impressionar pelo aspecto da escrita em si. 
Estou entre o primeiro quarto e o primeiro terço da biografia e posso dizer que a combinação da prosa de Ruy com sua pesquisa bem feita e com suas escolhas sobre o que era relevante aparecer na obra rendeu um ótimo resultado, muito melhor do que o obtido por ele no romance lido no ano passado por mim. 
Castro ficou famoso por suas biografias de Nelson Rodrigues, de Garrincha e de Carmen Miranda, além de outros títulos de crônicas. Creio que, ao lado de Fernando Morais, autor de Olga e de Chatô: o Rei do Brasil, bem como de Lira Neto, que trouxe à luz biografias do Padre Cícero, de Maysa e, em três volumes, de Getúlio Vargas, Ruy Castro é o maior biógrafo da atualidade no mercado editorial brasileiro. O Anjo Pornográfico, lançado em 1992, foi o primeiro de seus livros nesse gênero.
A intenção do autor, conforme anunciada na "Introdução", não é a crítica ou a análise das obras de Nelson Rodrigues, mas eminentemente factual: seu intuito é narrar, segundo suas palavras, "onde, quando, como e por que". As iscas que ele inseriu na seção introdutória, como que para vender o peixe do livro, são eloquentes: "O Anjo Pornográfico é a espantosa vida de um homem - um escritor a quem uma espécie de ímã demoníaco (o acaso, o destino, o que for) estava sempre arrastando para uma realidade ainda mais dramática do que a que ele punha sobre o papel." Aí se tem uma amostra da prosa de Ruy, com essa ótima expressão "ímã demoníaco". Ademais, quem tem alguma noção do que é a obra de Nelson Rodrigues - quase todo mundo tem - fica curiosíssimo por saber como a vida dele pode superar sua obra em dramaticidade.
No passo em que me encontro, o livro está transitando da fase em que se conta a vida de Nelson no contexto familiar para aquela que será centrada, imagino, propriamente nele. A narrativa começa no Recife, onde nasceu o biografado, passa pela mudança da família Rodrigues para o Rio de Janeiro e segue pelos altos e baixos deles no período de formação de Nelson. Nota-se que Ruy Castro aponta, aqui e ali, possíveis fontes para a ficção rodriguesiana, marcada por traições, bebedeiras, mortes apoteóticas e loucuras.
Uma personagem que chamou particularmente minha atenção, nesse quase primeiro terço de livro, foi Sylvia Seraphim, uma mulher estonteantemente bonita, colaboradora de jornais da época e amiga de intelectuais, algo ainda incomum então. O desquite de Sylvia foi noticiado de forma sensacionalista pelo jornal de Mário Rodrigues, pai de Nelson, apesar dos apelos reiterados para que deixassem esse assunto privado fora das páginas do diário. As consequências foram catastróficas, e aqui eu fico, para vocês não me acusarem de estragar um dos baratos da biografia.
Uma coisa bacana das boas biografias é que elas logicamente não informam apenas da vida da personagem-título. Para permitir que essa seja entendida, vêm a reboque as de outras personagens relevantes, afora elementos de história e de tudo quanto possa lançar luz sobre o biografado. O Anjo Pornográfico também trata, por exemplo, de Mário Rodrigues Filho, irmão de Nelson e grande pioneiro da crônica esportiva nacional, cujo prestígio redundou na escolha de seu nome para o mundialmente famoso estádio do Maracanã. Outro irmão de Nelson, Roberto, ilustrador e artista plástico que viveu muito pouco para deixar uma obra mais marcante, teve um filho, morto em 2014, que seria um dos maiores designers do Brasil.
Incluí O Anjo Pornográfico na meta de leituras de 2015 por duas razões principais. Em primeiro lugar, estou interessado no gênero biográfico e considero que preciso me encharcar dele, para absorver sua forma. Em segundo lugar, se elegi a prioridade de ler biografias, tanto melhor que sejam sobre pessoas que foram protagonistas em áreas que me interessam primordialmente. No caso de agora, o mundo da literatura. Voltarei mais tarde a essas duas intenções geradoras da presente leitura, mas adianto que o livro de Ruy Castro tem cumprido muito bem a destinação que lhe dei, além de deleitar-me com seu ímã demoníaco.

(O trecho lido no vídeo acima refere-se ao caso de Sylvia Seraphim)

(Sobre o abandono dos estudos por Nelson Rodrigues)

(O pai de Nelson Rodrigues começou como jornalista e terminou com proprietário de jornal. Uma das seções que certamente serviram de inspiração para a obra do biografado foi a policial.)

(Ruy Castro especula sobre a influência da vida na primeira vizinhança dos Rodrigues no Rio de Janeiro sobre a mente de Nelson)

(Logo que os Rodrigues chegam ao Rio, a cidade é assolada pela epidemia da gripe espanhola)

17/02/2015

Rapidinha (de Carnaval) 2

Conforme programado, talvez com um pouco de atraso, terminei a leitura meio obrigatória de História das Relações Internacionais Contemporâneas, que estabeleci como condição para iniciar O Anjo Pornográfico. No meio do caminho, porém, tinha uma ida à livraria, de onde saí, no sábado de Carnaval, com os três livros que postei no Instagram. Comecei a ler Literatura Brasileira: modos de usar, do professor da UFRGS Luís Augusto Fischer, ainda no shopping onde o comprei, e terminei-o só um pouco depois do de Relações Internacionais. 


Vim só dar notícias, dizer que atribuí quatro estrelas ao livrinho de Fischer - que será objeto de postagem própria - e consignar minha alegria de começar a virar as páginas da biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, com grandes expectativas.

13/02/2015

Resultado da promoção dos comentadores pioneiros

Estou devendo aos leitores o resultado da promoção que fiz para presentear os primeiros comentadores do blog. Como sou iniciante, planejei-me mal e não previ algumas dificuldades. A solução encontrada foi regulamentar melhor a coisa toda por meio da postagem de 4 de fevereiro. Esgotado o prazo de uma semana para manifestação dos contemplados, venho dar satisfação do desfecho e pedir que aqueles que ainda não o fizeram, por favor, informem-me o endereço para a entrega, pelo e-mail palavradeliteratura@hotmail.com.

Como Ricardo Alípio não reagiu à postagem mencionada, passou para o final da fila, apesar de ter sido o primeiro comentador de todos. Meu caro Ricardo, caso você retorne ao blog e me leia, peço-lhe que entre em contato, que farei o possível para enviar-lhe um marcador e um cartão condizentes com seu gosto.

A primeira da fila passou a ser, então, a mui querida Literaterapia, comentadora contumaz e autora de um lindo marcador de página inspirado em Homero, meu gato (ver foto no Instagram @palavradeliteratura). Ela escolheu o marcador magnético e o cartão com a obra de Klimt.

A segunda a escolher foi minha amiga da vida real Raquel Nascimento. Legal como só ela, incumbiu-me de selecionar o marcador e o cartão que receberá. Reservei para ela o marcador de Fernando Pessoa, que acho bonito pela forma e estimável por trazer a imagem do dileto poeta português, e o cartão com a pintura de Goya, um artista forte que retrata uma mulher com aparência altiva. Espero que você goste de minhas opções, Raquel. 

A terceira na linha das escolhas ficou sendo Rayssa. Ela terá em casa o marcador com a interrogação, da Livraria Cultura, e o cartão que reproduz a imagem de duas crianças no balanço, em paisagem de neve. Rayssa, obrigado por ter participado e por sua paciência em esperar este resultado.


Marcela Yoneda tem direito a presentes também, mas ainda não se manifestou. Ela e Ricardo Alípio estão empatados no final da fila, e quem dos dois se manifestar primeiro terá primazia na escolha entre as duas opções restantes de marcadores e de cartões.

Estou preparando outra promoção com presente, desta vez, relacionada à postagem sobre os grifos e anotações nos livros. Não é difícil adivinhar o que será.

Agradeço a todo mundo que participou e espero que continuem circulando por aqui, não só com os olhos, mas também com as pontas dos dedos no teclado e com um clique no final, para fazer novos comentários.

07/02/2015

Considerações sobre a "Odisseia"



Estou aproveitando que me deixaram sozinho em casa para atualizar o blog.

Quem acompanha o @palavradeliteratura no Instagram sabe que tenho uma queda especial pela Odisseia. Criei lá uma série em que posto o mesmo trecho dessa obra em diferentes traduções para o português disponíveis no Brasil. 

A Odisseia, como a Ilíada e a Bíblia, são livros fundadores da civilização ocidental. Nós crescemos em contato com várias referências a essas obras, muito frequentemente sem ter consciência disso, alheios à importância que elas tiveram em nossa formação e no modo como nosso mundo simbólico é organizado.

A questão da autoria e da formação de livros como a Odisseia é problemática. Nós contentamo-nos em dizer que os versos originais, em grego clássico, são de Homero, mas os especialistas acadêmicos ainda no presente debatem se ele foi uma pessoa só ou um conjunto de poetas. Chamam esse problema de "a questão homérica". Fazem, nesse esforço, um trabalho de arqueologia que também se aplica aos livros bíblicos, quando abordados histórica e literariamente. 

A forma atual da Odisseia remonta, mais ou menos, ao momento em que uma das mais avançadas sociedades humanas da época, a dos gregos antigos, transitou da vida predominantemente oral para um estágio em que a escrita se disseminou e passou, inclusive, a servir como suporte para as obras poéticas. Por essa posição inaugural, embora sejam reiteradas vezes citadas, de forma manifesta ou indireta, ao longo de toda a história da Literatura no Ocidente, as epopeias de Homero pouco ou nada têm, antes de si, para citarem, a não ser um abismo de tradição oral a que obviamente não temos acesso.

Os grandes dramaturgos gregos, Platão, Aristóteles, o latino Virgílio, o luso Camões, nosso Machado de Assis, no século XIX, e James Joyce, com seu Ulisses, formam uma longa fileira de sumidades literárias que, em quase três milênios, rendem tributo às epopeias homéricas.

Tão perto e tão longe. Apesar de sua presença constante e imperceptível, o fato de ter sido escrita por volta do século VIII a. C., em um contexto de todo diferente do nosso, torna a Odisseia potencialmente problemática para um leitor desavisado. Acho que é o tipo de livro que se deve abordar com obstinação e paciência. Talvez valha a pena ler primeiro em prosa, para familiarizar-se com o conteúdo, e depois, em uma releitura, experimentar o ritmo e o tom de traduções em verso, mais próximas ao original. A intimidade e o deleite vêm com o tempo, em minha opinião. Não é, portanto, uma obra para quem prefere pagar mais caro por um prazer imediato e momentâneo do que negociar com o tempo um prazer maior, mais duradouro e mais em conta.

Em 2015, relerei a Odisseia na tradução de Christian Werner, recém-lançada pela Cosac&Naify (ver postagem sobre as metas de leitura deste ano).

Em postagens futuras, mostrarei, também no blog, como diversos tradutores resolveram a difícil tarefa de verter do grego - ou de recriar para o português - os versos homéricos.

A seguir, minha coleção de edições da Odisseia, pela qual vocês podem inferir o bem que quero a esse livro.

(A primeira que eu comprei foi a da Cultrix, em tradução em prosa de Jaime Bruna, em 05/11/2004, por R$ 22,00. Ela também foi lançada pela Abril, com capa revestida de tecido, e vendida nas bancas de revista. Também está disponível em formato digital.)

(Essa foi minha primeira tradução em verso, talvez a mais famosa no Brasil, de Carlos Alberto Nunes, que também traduziu todos os diálogos de Platão. Essa tradução está disponível em várias edições, como as da Ediouro, da Saraiva/Nova Fronteira e da Hedra. Gosto muito dela.)

 (Essa edição em espanhol, com capa dura, comprei em Madri, em outubro de 2008, em uma banca de revista. Lembro que custou baratíssimo. É da editora Gredos.)

(Tradução do luso Frederico Lourenço, da sempre cuidadosa Companhia das Letras, em parceria com a Penguin)

(A Editora 34 lançou a tradução de Trajano Vieira, Professor da Unicamp, a qual inclui texto de Franz Kafka sobre a Odisseia. A minha é a versão de bolso, mas está disponível também em tamanho maior.)

(Esta edição portuguesa, em dois volumes, foi um de meus presentes de aniversário em 2013, dadas pela mais importante pessoa entre as que escolhi fazerem parte de minha vida.)

(A tradução de Christian Werner apareceu no mercado em 2014, em duas edições da Cosac & Naify: uma muito bonita e outra preciosíssima. A segunda foi meu autopresente de aniversário em 2014. Ela está em minha meta de leitura deste ano.)

(Essa foi a última que comprei, do maranhense Manuel Odorico Mendes, o primeiro a traduzir a Odisseia para a língua portuguesa, ainda no século XIX. A capa é horrível, como quase todas da Martin Claret, que agora tem melhorado isso. A recriação de Mendes é interessantíssima, mas pouco amigável ao leitor contemporâneo.) 




Metas de leitura de 2015: "O anjo pornográfico"



Está na agulha, para leitura ainda este mês, a primeira biografia que lerei no ano, de Ruy Castro, mestre do gênero no Brasil. Trata-se de O anjo pornográfico, publicação da editora Companhia das Letras. Lembram que, na postagem sobre Dois irmãos, mencionei um clube de leitura formado com amigos meus do trabalho? Pois, decidimos encarar a biografia de Nelson Rodrigues. De Ruy Castro, há também as famosas e elogiadas biografias que tomaram por objeto as vidas de Carmem Miranda e de Garrincha.

Estou particularmente interessado pelo gênero "biografia", porque ando com a coceira de escrever uma. Botei na cabeça, por isso, que deveria ler o máximo delas que pudesse, prestando especial atenção à construção, à forma, à organização das informações sobre a vida do biografado, às escolhas do autor sobre o que foi relevante vir a público. Uma de minhas intenções primordiais, com essa leitura, é assimilar a forma. A escolha do grupo veio ao encontro de um de meus projetos.

Pelo fato de tratar da vida de um escritor e provavelmente incluir, por isso, informações sobre o mundo literário da época, com a presença de outros escritores, de intelectuais, de jornalistas e de figuras dos bastidores da cena editorial, nutro a expectativa de também ter acesso a informações históricas de particular interesse para mim, que curto literatura e gosto de escrever. Espero, por exemplo, saber como Nelson Rodrigues publicou seu primeiro livro, se sua inclinação para a escrita surgiu desde cedo, se foi espontânea ou estimulada, se teve crises de criatividade, como encarou eventuais insucessos de público ou de crítica etc.

(Minha edição autografada pelo autor na Bienal do Livro de Brasília em 2014)

Conforme prometi na postagem sobre as metas de leitura para 2015, compartilhei um pouco dos critérios que usei para fazer minhas escolhas de leitura deste ano e transmiti algumas informações elementares sobre o livro que foram importantes para a seleção. Aos poucos, farei o mesmo com os outros títulos da lista deste ano. Igualmente, quando terminar as leituras, voltarei com minhas impressões, com a confirmação ou com a rejeição de minhas expectativas quanto a elas, com informações mais detalhadas que permitam vocês decidirem se vale a pena incluir em suas listas e com minha avaliação geral de 1 a 5 estrelas.