Mostrando postagens com marcador Engenho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Engenho. Mostrar todas as postagens

29/01/2015

"O moleque Ricardo": trechos escolhidos

Qual dos trechos abaixo é o preferido de vocês?



O alumbramento com a paisagem

"Voltava sozinho da escola. A estrada, um ermo completo. De barulho, só mesmo o das cigarras e das lagartixas nas folhas secas. Pensava então em muita cousa. Via pelos partidos o vento dobrando a folha da cana. Os pendões floriam pelo meio. Era um mau sinal. Cana de pendão não prestava, amadurecia antes de tempo."

(Cana-de-açúcar em pendão)

"O Sol das seis horas tocava nas coisas com mão de veludo. Acariciava. Os jardins tinham cores magníficas para mostrar."

"- Que lua bonita! - diziam elas olhando a lua com orgulho.
Eles ali também tinham lua. Era mesmo que barriga cheia."


Vida social

"Os protestantes falavam dos padres e de Nossa Senhora, e na casa de uma preta velha a polícia de vez em quando ia por lá buscar gente na corda. Fazia-se por lá feitiçaria."

"Havia muita briga de marido e mulher. E por causa de cousas pequenas. O jogo do bicho era sempre motivo dos maiores. O jantar não prestava, era pouco:
- Em que diabo gastaste o dinheiro, mulher? Está jogando no bicho outra vez, hein, cachorra?
E o bofete cantava no toitiço. Elas também não ficavam quietas, como leva-pancadas. Investiam. Os meninos choravam na porta de casa, num berreiro de saída de enterro. E o braço vadiando dentro de casa, os dentes da mãe no cangote do pai, os troços se quebrando. O povo acudia, desempatava o casal, a mulher chorando, de sangue correndo pelas ventas, e o homem bufando:
- Esta burra pensa que faz o que quer!
Os outros se chegavam para ele, acomodavam. E a mulher ia para a cama chorar, fazer dormir os meninos pequenos. Nesta noite o marido dormia debaixo da mangueira, com as estrelas no céu e o vento bom para acalentar o sono de um justo. De manhã a mulher preparava o café com pão crioulo. Ele saía de casa com a cara feia, mas se não tivesse gênio, de noite chegaria com a cara alegre. E a mulher passaria uma semana sem jogar no bicho. E quase sempre um filho novo aparecia de tudo isso."

"O que aprendeu num ano que passou na escola, nada lhe valia. Deu somente para lhe abrir uma brecha para o mundo, para a vida. Ninguém passaria por aquela brecha tão estreita."

"Eram bons companheiros, os caranguejos. Viviam deles, roíam-lhes as patas, comiam-lhes as vísceras amargas. Cozinhavam nas panelas de barro, e os goiamuns de olhos azuis, magros que só tinham o casco, enchiam a barriga deles. Morar na beira do mangue só tinha esta vantagem: os caranguejos. Com o primeiro trovão que estourava, saíam doidos dos buracos, enchiam as casas com o susto. Os meninos pegavam os fugitivos e quando havia de sobra encangavam para vender. Para isto andavam de noite na lama com lamparina acesa na perseguição. Caranguejo ali era mesmo que vaca leiteira, sustentava o povo."

(Catador de caranguejo)


A sensibilidade de Ricardo

"Coração feito mais de carne do que os dos outros. Nele qualquer coisa doía, feria fundo."

"A dor ainda não se comunicara ao que ele tinha de vivo. O coração do negro permanecia com o seu baticum, mas batia dentro de uma caixa como qualquer outra."


O Carnaval

("Frevo", de Pierre Verger)


"O Carnaval era para aquela gente uma libertação. Podiam passar fome, podiam aguentar o diabo da vida, mas no Carnaval se espedaçavam de brincar."

"Se eles tivessem uma Isaura, só cuidariam dela. A negra era falante. Falava como as brancas do Santa Rosa, usava sapatos de salto alto, lia o jornal. Um assombro para o moleque embeiçado. No seu quarto pregara o retrato dela na parede, de pega-rapaz caindo pela testa, de olhos quebrados. Isaura. O nome entrava-lhe pelos ouvidos com recordações antigas."

"Os clubes e os blocos quando passavam, parava tudo que era carro e automóvel. Os cabras quebravam na frente numa impetuosidade de furiosos. As pernas entravam umas por dentro das outras, depois ficavam com a bunda quase que rente ao chão e as mulheres sacudiam para frente tudo que tinham de bom. E peitos e ventres que pouco ligavam à surra das umbigadas. Era uma alegria que atingia os últimos recursos. De repente paravam. A orquestra se calava. Esperava-se então que rompesse o fogo outra vez para que eles pudessem se despedaçar:
- Música! música! - gritavam."

"Verdade no Carnaval não ofendia a ninguém."

"Na rua da Concórdia houve rolo dos Toureiros com os Vassourinhas. A faca botou barriga de gente abaixo. Um automóvel esbagoara um menino do Bloco das Flores. Mas ninguém parava para ver."


A morte na vizinhança

"Dentro da casa as mulheres rezavam em voz alta. A reza saía pelo nariz e era triste de verdade."

"A casa se enchera de espectadores para ver o drama mais representado deste mundo e o mais inédito para todo o mundo. A casa se enchera para ver Odete morrer."

"O cheiro de incenso e o canto das negras davam sinais de eternidade à casa pobre de seu Abílio."

O moleque Ricardo

O moleque Ricardo é um romance particularmente rico na produção do paraibano José Lins do Rego. Celebrizado pelas obras do chamado ciclo da cana de açúcar, que reconstitui vivamente os aspectos privados e socioeconômicos da civilização do açúcar, Zé Lins criou essa espécie de interregno, que é o livro objeto desta resenha. O foco da narrativa desloca-se da elite canavieira e da geografia da várzea do Paraíba para o negro Ricardo e suas peripécias no mundo urbano do Recife nas primeiras décadas do século XX.


(O pernambucano Manuel Bandeira e o paraibano José Lins do Rego, este com a farda da Academia Brasileira de Letras)

Desde o ano passado, estou relendo, em alguns casos, e lendo, em outros, todos os romances do ciclo açucareiro. Reli Menino de engenho e li Doidinho, Banguê e Usina, além do já mencionado O moleque Ricardo. Falta, para completar o projeto, a releitura de Fogo morto, considerado a obra-prima do autor. Tenho particular interesse por essas histórias, porque, sendo paraibano, o ambiente descrito é-me familiar, e eu pretendo aproveitar o resgate da natureza e da sociedade da época para, quem sabe, escrever um livro sobre o qual poderei comentar futuramente. Zé Lins registrou aspectos dessa civilização que não são facilmente recuperados por meio de pesquisa em arquivos, de modo que sua literatura, além das qualidades estéticas e da função que exerce como arte, também é fonte histórica valiosa.


(Minha edição de O moleque Ricardo, caixa com livros do ciclo da cana-de-açúcar e os dois do ciclo do cangaço)

Como eu dizia, O moleque Ricardo conecta-se com os demais romances do ciclo, mas incorre em um duplo deslocamento, que tem efeitos extraordinários. A leitura pode ser feita independentemente, mas aposto que fica bem melhor, se realizada na sequência, porque as referências a personagens, ao mundo do engenho e a situações tornam o relato muito mais interessante. Como diz uma personagem de Saramago no romance Caim: "nos pormenores é que está o sal". 
Os momentos mais temperados do livro são aqueles em que Ricardo confronta os dois mundos, o rural do engenho e o urbano do Recife. Há um jogo de expectativas e de frustrações do começo ao fim, e a prosa de Zé Lins, íntima, amiga, dotada da difícil simplicidade que caracteriza a fala dos grandes contadores de histórias ao pé do fogão ou no alpendre de casa, enreda-nos na torcida pelo pobre moleque de bagaceira que, apesar de todos os motivos de revolta que a vida lhe daria, esmera-se no trabalho, esforça-se diligentemente e seria candidato a case de self-made man, se ele existisse em um meio social que premiasse o empenho e o mérito.
Ao ler O moleque Ricardo, prestem atenção à diversidade de elementos da vida urbana recifense, comum a várias cidades brasileiras do início do século, com a diferença apenas da medida. Comparecem os imigrantes, a miséria das periferias, os carnavais de rua, o engajamento popular nos blocos, a religiosidade que mistura crenças de matriz africana com o catolicismo nosso de todo o sempre, o surgimento do movimento sindical e das primeiras greves, o oportunismo de políticos populistas que pegam carona nos anseios de vida digna dos operários citadinos. O livro é largo e profundo, sem perder a coesão, cujo núcleo é a personagem-título.
Eu dei 4 estrelas de 5. Minha edição é a 27.a, com a capa amarelo creme que caracterizou uma leva de edições da obra de Zé Lins. As capas mais recentes estão mais bonitas, com imagens em estilo de xilogravura e um quadrado monocromático com aplicação de verniz, em que ficam os nomes do autor e de cada obra. O trecho que selecionei para a postagem do @palavradeliteratura foi este:


A lua banhava tudo de branco como nas cajazeiras da estrada. Mãe Avelina, Joana, todas se sentavam na porta da rua para apreciar o luar. O terreiro parecia uma toalha de MADAPOLÃO estendida.
Reproduz bem o estilo de Zé Lins, com imagens muito concretas, que evocam os sentidos e o passado. "Madapolão" é, segundo o Dicionário Houaiss, um "tecido encorpado de algodão, branco e liso". Na cena descrita, as ex-escravas ficadas no engenho por falta de rumo melhor, inclusive a mãe de Ricardo, Avelina, estão sentadas ao relento, em noite de Lua, provavelmente trocando impressões sobre o dia, falando da vida alheia ou ouvindo histórias sem tempo. O terreiro, onde sujam esquecidas os pés de poeira e acompanham, de soslaio, a brincadeira dos moleques, está todo coberto pela luz lunar benfazeja, que não discrimina ninguém, como um manto da santa protetora.


(Obra de Cícero Dias com reprodução do ambiente do Engenho Noruega)

Se já leu O moleque Ricardo, diga-me o que achou no campo de comentários abaixo!