Título: Literatura Brasileira: modos de usar
Autor: Luís Augusto Fischer
Número de páginas: 143 (com apêndice)
Ano: 2013 (lançado em 2007)
 |
| Homero não leu e não gostou, mas não é sempre que a gente concorda. |
Só agora, quase quatro da tarde, estou ingerindo os primeiros gramas de cafeína do dia. Acordei quando faltavam somente trinta minutos para meu treino de tênis, então, mal deu tempo de tomar a chuveirada que permite domar os cabelos moldados pelo laquê do travesseiros, engolir alguma glicose em forma de iogurte, vestir a roupa, encher a garrafinha de água e dirigir para a quadra pública que fica a cinco minutos de casa. O treino estendeu-se além do horário, depois fui ao clube tomar Sol e, em seguida, almocei no Mangai, um restaurante paraibano com filiais em Natal e aqui em Brasília. Como ontem fomos dormir perto de três da madrugada, porque decidimos assistir, tarde da noite, ao filme Lendas da paixão (Legends of the fall), é possível imaginar como a cafeína nossa de cada dia me fez falta até este instante e era fundamental para a escritura desta postagem.
Superado o drama pessoal, vamos aos livros, assunto principal deste blog. Comentarei minhas impressões sobre a leitura de Literatura Brasileira: modos de usar, do professor da UFRGS Luís Augusto Fischer. Como contei em uma rapidinha de Carnaval, comprei esse livro de bolso da L&PM no sábado passado, por acaso. Eu esperava uns amigos para almoçar em um shopping, e obviamente isso se faz na livraria mais próxima. Aproveitei a ocasião para procurar um exemplar do Memorial de Aires, destinado à promoção que está rolando. Na estante de títulos de bolso, com fileiras da Martin Claret, da Companhia de Bolso, da Hedra, não poderia faltar a editora de bolso por excelência no Brasil, a já citada L&PM, em cujas fileiras encontrei o protagonista de hoje.
Não me lembrava de ter visto antes esse pequeno guia de Luís Augusto Fischer em minhas assíduas visitas às livrarias. Puxei-o, pelo topo da lombada, com o dedo médio, dentre os outros livros encostados uns aos outros como andorinhas em fio de poste, olhei a capa, virei, inspecionei o índice e procurei algum capítulo que me chamasse especialmente a atenção. Gostei dos títulos, que prenunciavam uma forma diferente de apresentar a Literatura Brasileira. Em vez de uma exposição linear e cronológica, o autor agrupou tradições e temas recorrentes para construir os capítulos. Embora não abandone o critério temporal, Fischer não parece ter-se preocupado com categorizações bem delimitadas, portanto deixou o livro tomar a forma de um bom bate-papo sobre literatura, sobre seus usos e sobre suas determinantes no Brasil.
Com 140 páginas, em formato de bolso, para dar conta de uma literatura cujos antecedentes europeus remontam a séculos, o livro não poderia ser senão um panorama, mas é dos bons. Seja na exposição de tradições de nossa literatura, como nos capítulos "A tradição realista", "A tradição intimista" e " A tradição de vanguarda"; seja na discussão de gêneros que se destacam em nossa produção literária, como no subcapítulo "Ensaio, o quarto gênero literário" e nos capítulos "O gosto pelos gêneros menores" e "Linhagem das memórias"; seja, ainda, nos momentos em que debate os vínculos mais estreitos entre o mundo da literatura e a realidade nacional, como em "A literatura e o abismo social no Brasil" e em "A busca da identidade nacional", o autor conseguiu engendrar um texto leve e interessante, simpático e pertinente, fluido e informativo.
A preocupação confessada de Luís Augusto Fischer, ao escrever Literatura Brasileira: modos de usar, foi orientar quem não se transformou em leitor contumaz após o período escolar, mas tanto reconhece a importância da leitura como tem vontade de desenvolver o hábito. Ele mesmo diz que se trata de um livro de autoajuda. Seu objetivo é contribuir para que, em nosso país, haja mais leitores não profissionais. O professor Fischer diagnostica que "a circulação da literatura brasileira clássica depende muito, e em alguns casos exclusivamente, do circuito escolar universitário". Ele tem razão, quando diz que só continua lendo literatura, depois da escola ou da universidade, no Brasil, quem vai dedicar-se ao ensino da literatura como profissão. Alguém discorda de que essa seja a regra?
Para além da intenção do autor, muito útil e, a meu ver, realizada a contento, o Literatura Brasileira de Fischer serve como excelente introdução madura para quem está em preparação para concursos que cobrem o tema. Um que me veio à mente foi o do Instituto Rio Branco, que seleciona e prepara anualmente os novos diplomatas brasileiros. Especialmente para a segunda fase do certame, que visa a avaliar o desempenho dos candidatos quanto ao uso da língua portuguesa, creio que o livrinho de Fischer é de grande valia.
Eu me considero relativamente bem informado sobre Literatura Brasileira, mas o Literatura Brasileira: modos de usar teve ainda a utilidade de chamar minha atenção para autores com os quais eu pouco me importava e até para alguns desconhecidos, principalmente entre os contemporâneos. Anotei vários nomes e títulos para posterior atualização da lista de leituras.
Entre as muitas discussões propostas e pinceladas por Fischer, destaco aquelas que lidam com as ideias de regionalismo e de modernismo. Ele critica o emprego desses termos para descrever os fenômenos literários a que tradicionalmente se referem. Em ambos os casos, acusa o reducionismo de tais rótulos, calcados na hipervalorização do urbano, no caso do conceito de regionalismo, e do modernismo paulista, no caso da classificação de toda a literatura nacional do século XX como pré-modernista, modernista de primeira, de segunda e de terceira geração e pós-modernista, em função da Semana de 22. Chama o conceito de regionalismo de "rótulo insuficiente, redutor e anticrítico (...), o que já deveria ser motivo suficiente para ele ser posto de parte, no debate relevante". Chama a classificação fundada no modernismo de 22 de paulistocêntrica e modernistólatra, pretensamente responsável pela existência de tudo de relevante que aconteceu no século XX brasileiro em termos literários.
O efeito da cafeína está terminando, e eu vou tirar um cochilo. Mais tarde, uns amigos virão em casa para uma sessão de jogatina e de fondue. É prudente que eu descanse um pouco, senão o gás do candeeiro de meus olhos vai acabar antes de o papo com as visitas esquentar. Fica a sugestão de leitura com ótima relação custo-benefício: pouco tempo e muito pano pra manga.