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20/06/2015

"Pisa suave, que pisas em meus sonhos" (spoiler)


(O texto que você vai começar a ler tem um spoiler do filme Nunca te vi, sempre te amei)

Um de meus filmes mais queridos é Nunca te vi, sempre te amei, com Anthony Hopkins e Anne Bancroft. Citei-o na postagem "Leitura a lápis", porque quis usar umas falas da protagonista, Helene Hanff, sobre o hábito de grifar livros, para ilustrar meu ponto de vista de que se deve meter o lápis durante a leitura. É um filme imperdível, particularmente para bibliófilos. Trago-o de volta, porque senti vontade de compartilhar um poema de Yeats recitado nele pela personagem de Anthony Hopkins. O melhor: o trecho da recitação está disponível no YouTube, e eu vou inserir aqui, seguido do texto em inglês e de uma tradução que eu fiz por minha conta e risco, tudo isso após meus comentários.
O poema de Yeats parece mais belo e pungente no contexto em que é mentalmente recitado por Frank Doel, a personagem de Hopkins, um livreiro britânico de emoções contidíssimas, pouco comunicáveis, mas emoções lindas, das mais puras. Mr. Doel e sua cliente Helene Hanff correspondem-se separados pelo Atlântico: em Nova York, ela encomenda livros como quem pede um afago; de Londres, ele lhos remete pelo serviço postal com o cuidado de quem faz um cafuné. Uma cumplicidade espiritual, uma mútua compreensão de entrelinhas e um amor assaz raro e delicado surgem paulatinamente, como gotículas de umidade que se condensam em gotas maiores, em lágrimas de orvalho, em filetes de água, até que se acham em fluxos fluviais expressivos. Ela solteirona novaiorquina, ele comportadamente casado e pai de família, nunca dizem o nome desse amor. O amor chega, sem ser anunciado.
Na cena que antecede a recitação do poema, o sub-reptício amor de Mr. Doel acende uma fantasia incomum no tipo de homem que ele é. Enquanto lia Yeats em seu escritório, ouviu uma estadunidense adentrar a livraria e passou a acompanhar, olhos vidrados, respiração suspensa, o atendimento, na esperança de que aquela fosse Helene Hanff cumprindo, finalmente, sua promessa de visitar Londres. Quem não conhece os códigos pessoais do formal Mr. Doel não ultrapassará a superfície de sua expressão fria, de homem racional. Nós, espectadores, que o conhecemos mais de perto, sabemos, sentimos, que o homem, naquele instante, é todo esperança, é todo desejo ardente de encontrar, em pessoa, o objeto de seu amor.
Após ficar emocionalmente nu diante de nós, espectadores, Frank Doel escuta que a cliente ali mora no Delaware, portanto não pode ser Helene. Suas pálpebras, finalmente, piscam, provavelmente ele volta a respirar naquele instante, contudo a decepção deve ter sido mais doída do que o sufoco que estivesse sentindo de expectativa. É depois dessa frustração que ouvimos a recitação do poema, que não é falado pela personagem, mas ouvido em off, como sendo seu pensamento.
No poema de Yeats, o ser amante almeja poder amparar as solas dos pés da pessoa amada com os mais finos e delicados tecidos do céu. Ressalte-se: o eu lírico desejaria expor o que imagina mais precioso, infinito e esplêndido como o céu, à parte mais inferior do corpo de quem ele ama, a planta do pé, de couro enrijecido e geralmente empoeirado. Daí o eu poético estabelece um contraste entre os "tecidos bordados do céu" e seus sonhos, a única coisa que, sendo ele pobre, resta-lhe ofertar à pessoa amada. Esse contraste parece-me aparente. Embora a estrutura lógica do poema leve-nos a confrontar os sonhos com os tecidos preciosíssimos do céu, creio que, metaforicamente, todos os elementos desse manto celeste podem ser atribuídos aos sonhos de alguém. No fundo, para nós mesmos, nossos sonhos, que não têm tempo nem espaço bem definidos e oscilam entre a luz da consciência e as profundezas escuras do inconsciente, são o que temos de mais vulnerável e precioso.
A imagem de estender os próprios sonhos sob os pés de alguém e, ao mesmo tempo, esperar que essa pessoa entenda e sinta a delicadeza daquele tecido onírico que se lhe foi oferecido, que aceite caminhar sobre ele, mas que o faça suave e cuidadosamente, é uma das mais belas representações do amor que eu já encontrei em minhas leituras.





HE WISHES FOR THE CLOTHES OF HEAVEN

HAD I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:

But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

***
ELE ALMEJA OS TECIDOS DO CÉU

Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,
ornados com luz de ouro e de prata,
os tecidos azuis e turvos e escuros
da noite e do dia e da penumbra,
eu os estenderia sob teus pés:

Mas eu, pobre, só tenho meus sonhos;
Estendi meus sonhos sob teus pés;
Pisa suave, que pisas em meus sonhos.

09/02/2015

Leitura a lápis

Hoje o dia no trabalho foi pesado, cheio de responsabilidades. Depois do expediente, joguei pouco mais de duas horas de tênis, que relaxa e ajuda a saúde. Cheguei bem disposto para atualizar o blog.

No clube de leitura formado pelo pessoal de meu trabalho, a que me referi na postagem sobre Dois irmãos, surgiu uma discussão sobre grifar e anotar os livros. Já há algum tempo, esse assunto me surgiu como bom mote para uma postagem. Como o Palavra de Literatura é, lato sensu, um espaço da bibliofilia, cabem umas pinceladas sobre isso.


Eu, em meus primeiros anos de leitor, tive uma fase de veneração pelo livro como objeto. Nada de riscar, de anotar, de usar a orelha como marcador de página e, heresia das heresias, de abrir o coitado do folhoso como um caderno de arame, de forma que uma capa encostasse na outra. Meu pai, quando via uma traça saracotear para fora de um amontoado de papéis, xingava demais o coitado do bicho, o que sugere uma das fontes de meu zelo pelos livros. Creio que nunca cheguei a ser doentio nesse cuidado, mas sentia raiva de quem amassasse, dobrasse, riscasse, ou maculasse os de minha propriedade. Para preservar a amizade, era melhor nem emprestar.


Uma professora minha de português, posteriormente também patroa no curso dela e uma das principais incentivadoras, tanto pelo exemplo quanto pelo discurso, de minha paixão pelos livros, começou a quebrar o tratamento sacrossanto que eu dedicava a eles. Lembro que, certa vez, depois que eu lhe devolvi um exemplar emprestado, ela lamentou que eu não o tivesse grifado nem anotado, porque tinha curiosidade de saber o que chamara minha atenção naquela prosa. Era uma obra de Juan José Saer, escritor argentino, intitulada O enteado (recomendo!).




Outro motivo para ter mudado minha reticência quanto aos grifos e às notas foi a leitura de Como se faz uma tese, de Umberto Eco. Meu exemplar ficou no Nordeste (eu moro em Brasília), mas, felizmente para mim e para vocês, encontrei com facilidade o trecho que me interessava mostrar-lhes. Depois de dar várias instruções sobre como e por que grifar, leia-se o que diz Umberto Eco sobre a intocabilidade dos livros, o que vai em português europeu, que foi o que achei:


"Os sublinhados personalizam o livro. Assinalam as pistas do nosso interesse. Permitem-nos voltar ao mesmo livro muito tempo depois, detectando imediatamente aquilo que nos havia interessado."


"Se o livro é vosso e não tem valor de antiguidade, não se deve hesitar em anotá-lo. Não deveis dar crédito àqueles que dizem que os livros são intocáveis. Os livros respeitam-se usando-os e não deixando-os quietos."




Depois desse conselho de um dos mais importantes pensadores vivos atualmente, relaxei. Não foi só questão de autoridade: ele convenceu-me. Parece-me que mais vale garantir o prazer e a utilidade de, ao passar em revista um livro lido, reencontrar-se com os momentos marcantes da leitura, do que deixá-lo intocado. Fiquei tão persuadido, que passei a grifar com caneta. Sublinhava, comentava, discordava, exclamava, tudo naquele azul Bic indelével de esferográfica comum. O resultado foi que minha inexperiência traduzia-se em alguma falta de critério, e, aos poucos, notei que, ao folhear títulos já lidos, discordava da relevância de certos destaques. Foi o caso, por exemplo, daquela minha edição da Odisseia publicada pela Cultrix, que viu quem leu a postagem sobre minha coleção de traduções dessa obra.


O arrependimento do grifo não é algo tão grave. Sempre se pode encarar um realce que a gente descredencia depois como um registro histórico, como rastro de nosso passado mental. O confronto com ele pode ser motivo para reflexões proveitosas. De todo modo, a experiência conduziu-me ao estado atual em que espalho lápis por onde posso e sempre tenho um à mão, para a leitura da vez. Leio a lápis tanto quanto a olhos. Quando me dano a ler desarmado de um coto que seja de grafite e deparo com um trecho bonito, interessante, palpitante, é comum interromper o fluxo, pelo medo de, passando as páginas, esquecer-me dele depois. 


(Meus grifos em Memorial de Aires, de Machado de Assis: leitura em caneta, releitura em grafite)


Há quem alimente um ideal de isenção e independência e não queira nem influenciar nem ser influenciado pelos grifos alheios, ao ler um livro. Quem pensa assim usa esse argumento, para falar contra os riscos nas páginas. Não sabem que, quando levantamos a capa, nossa mente vem já grifada e anotada por inúmeras influências do mundo, e essa suposta independência de nossa leitura não passa mesmo de um ideal. A leitura é sempre sua, mesmo com condicionalidades e determinações externas.

Termino esta postagem com a citação de um de meus dez filmes mais queridos, que desperta enorme carga emocional em mim, cada vez que o revejo. Se você que me lê adora livros e se considera um bibliófilo tem obrigação de assistir a Nunca te vi, sempre te amei (84 Charing Cross Road). Certamente farei uma postagem exclusiva para essa película, mas vale dizer algo a respeito do enredo, para contextualizar a citação. Imagine-se uma escritora de humor fino, personalidade forte, inteligência aguda, na margem ocidental do Atlântico, em Nova York, interpretada por Anne Bancroft; no outro lado do mesmo oceano, em Londres, um livreiro sereno, contido, culto e diligente interpretado por Anthony Hopkins. 




Agora pensem em um filme quase todo construído sobre as cartas, as ordens de compra e as remessas de livros entre ambos. A amizade entre a escritora e os funcionários da livraria londrina enseja o envio por eles de um exemplar para ela, à guisa de presente. Como bons profissionais do ramo, mandam uma mensagem escrita à parte, em um cartão, não no livro. A seguir, leiam o que diz Helene Hanff, a presenteada, sobre tudo isso, que traduz perfeitamente o que sinto sobre grifos e anotações em livros (primeiro minha tradução livre, depois o original em inglês):




"Muito mau vocês terem sido tão exageradamente cuidadosos, que me escreveram em um cartão, em vez de fazê-lo na folha de rosto. É o livreiro dentro vocês todos. Recearam desvalorizar o livro. Teriam aumentado seu valor para esta dona e possivelmente para os futuros donos. Eu adoro inscrições em folhas de rosto e anotações nas margens. Gosto da sensação de camaradagem ao passar páginas que outra pessoa passou e ao ler passagens para as quais alguém, muito tempo atrás, chamou minha atenção."


"Too bad you were so over-courteous and put the inscription on a card instead of on the flyleaf. It's the bookseller in you all. You were afraid you'd decrease its value. You'd have increased it for this owner and possibly for future owners. I love inscriptions on flyleaves and notes in margins. I like the comradely sense of turning pages someone else turned and reading passages someone long gone has called my attention to."