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13/01/2016

Livraria do Luiz

Ontem visitei a Livraria do Luiz, e foi uma redenção. Buscava livros de autores paraibanos, e o melhor lugar para garimpá-los atualmente, na capital do Estado, é lá. O atendimento está diligente, pode-se tomar um espresso São Braz enquanto se folheiam os livros pré-selecionados, e o ambiente parece bem apresentável. Antes ou depois de cavoucar estantes, tem-se a oportunidade de circular pelas calçadas do Centro, de rever as fachadas do Palácio da Redenção, da faculdade de Direito, do Tribunal de Justiça e a mais moderna da Assembleia. Ir lá é também uma forma de homenagear a memória de Augusto dos Anjos, cujo busto preside à entrada da galeria que leva seu nome e abriga a livraria.

Palácio da Redenção e parte da fachada da faculdade de Direito vistos da Praça João Pessoa.



17/02/2015

Meta de leitura: categoria "Paraíba e Nordeste" e "A invenção do Nordeste"


"Se eu fosse editor, ia buscar coisas no Nordeste: as coisas mais geniais do mundo estão lá."
(Tom Jobim, "O Pasquim", 1969)

Na semana que passou, voltando do trabalho para casa, ouvi pelo rádio que as denúncias contra ocorrências de xenofobia na Internet aumentaram 375%, em 2014, em relação ao ano anterior. A maior parte delas relacionava-se a casos de preconceito e de discurso de ódio contra os nordestinos no período pós-eleitoral.

Na época, o fenômeno não me apareceu quantificado, mas aquela discussão sobre a legitimidade do voto dos eleitores nordestinos despertou-me os instintos mais primitivos. Brincadeira. Na verdade, meu fogo de indignação foi aceso sim, mas, em vez de vontade de vingança primitiva, senti mesmo um desejo grande de conhecer melhor a realidade do que se convencionou chamar Nordeste e povo nordestino, para municiar-me de argumentos sólidos nesses debates, que, julgo eu, tendem a tornar-se mais frequentes no futuro próximo. 

Ligado a isso, cresceu meu interesse especificamente sobre a Paraíba, minha terra natal, que me vejo na obrigação de estudar e de conhecer. Se não forem os paraibanos a sistematizar e produzir conhecimento sobre o que aconteceu e acontece dentro das divisas do Estado e a contar a História do Brasil da perspectiva local, mais ou menos como fez Evaldo Cabral de Melo, raramente alguém vai dar atenção a esses temas e a esses pontos de vista fora do Nordeste. 

Já vivemos o apagamento sistemático das cores e dos traços locais pelo fato de que quase tudo que se produz, em termos de notícias e de debate jornalístico com abrangência nacional, de teses acadêmicas com oportunidade de publicação e distribuição, de peças audiovisuais com espaço na televisão para todo o Brasil, de ficção literária nas grandes editoras, eu dizia, tudo que se produz e adquire relevância geral no Brasil tem, atualmente e há muito tempo, de passar pelo crivo do eixo Rio-São Paulo. A história do país é contada, diariamente, pelas lentes, pelos interesses e pelos objetivos de quem vive no Sudeste. Não é questão de malvadeza, não se me entenda mal: é natural que quem tenha acesso ao microfone, à câmera, ao papel publicado e à tribuna em sentido geral conte sua versão, nos limites de seu mundo.

O primeiro e principal livro que incluí nas metas de leitura para 2015, na categoria "Paraíba e Nordeste (ver postagem sobre as metas de leitura deste ano), criada pelo sentimento pós-eleitoral e pela necessidade de conhecer melhor, para mostrar um ponto de vista fora do eixo, foi o de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, publicado pela editora Cortez: A invenção do Nordeste e outras artes. O livro é uma versão adaptada da tese do autor, defendida na Unicamp e vencedora do Concurso Nelson Chaves de teses sobre o Norte e Nordeste brasileiro, da Fundação Joaquim Nabuco. Minha edição é a quinta e data de 2011, mas o livro foi lançado em 1999.



Lembro que ouvi falar nesse livro, pela primeira vez, pela boca de um grande amigo que cursava a graduação em História na Universidade Federal da Paraíba. O autor foi professor da instituição, e já se falava neste, entre os estudantes, com uma admiração que testemunhei nos comentários de meu amigo. Esse amigo figura entre os mais inteligentes e estudiosos que conheci e também é apaixonado por livros.

A obra historia como, aos poucos, no século XX, formou-se a ideia de Nordeste, na condição de espaço de identidade dentro do guarda-chuva da nacionalidade brasileira. Assim como, após a Independência, a elite brasileira dedicou-se à invenção da brasilidade, processo mais ou menos consciente, ocorrido em detrimento de particularidades regionais e classistas não convidadas a participar integralmente dessa invenção, a nordestinidade também constitui o que Benedict Anderson chamou de comunidades imaginadas, em livro com esse mesmo nome. O fato de ser imaginada não significa que seja falsa. Como diz Lilia Moritz Schwarcz na apresentação ao livro de Anderson:


"Não se imagina no vazio e com base em nada. Os símbolos são eficientes quando se afirmam no interior de uma lógica comunitária afetiva de sentidos e quando fazem da língua e da história dados 'naturais e essenciais'".
Eis, em linhas gerais, o que me levou a criar a categoria "Paraíba e Nordeste" em minha lista de livros a ler em 2015. Fica explicado também por que incluí A invenção do Nordeste e outras artes entre as metas deste ano. A divulgação dos números com que comecei este texto lembrou-me de adiantar a postagem. 

Para terminar, indico outros títulos que já li e considero que seja importante figurarem em uma lista formada à luz das preocupações expostas aqui:

O Norte agrário e o Império: 1871-1889, de Evaldo Cabral de Melo, publicado pela Topbooks.



A outra Independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824, também de Evaldo Cabral de Melo, publicado pela Editora 34.



O fole roncou: uma história do forró, de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, publicado pal Zahar.



Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil, de Gilberto Freyre, publicado pela Graal.



Formação econômica do Brasil, de Celso Furtado, publicado por várias editoras, entre elas, a edição comemorativa dos 50 anos, pela Companhia das Letras.



O moleque Ricardo e Usina, de José Lins do Rego, publicados pela José Olympio.


29/01/2015

O moleque Ricardo

O moleque Ricardo é um romance particularmente rico na produção do paraibano José Lins do Rego. Celebrizado pelas obras do chamado ciclo da cana de açúcar, que reconstitui vivamente os aspectos privados e socioeconômicos da civilização do açúcar, Zé Lins criou essa espécie de interregno, que é o livro objeto desta resenha. O foco da narrativa desloca-se da elite canavieira e da geografia da várzea do Paraíba para o negro Ricardo e suas peripécias no mundo urbano do Recife nas primeiras décadas do século XX.


(O pernambucano Manuel Bandeira e o paraibano José Lins do Rego, este com a farda da Academia Brasileira de Letras)

Desde o ano passado, estou relendo, em alguns casos, e lendo, em outros, todos os romances do ciclo açucareiro. Reli Menino de engenho e li Doidinho, Banguê e Usina, além do já mencionado O moleque Ricardo. Falta, para completar o projeto, a releitura de Fogo morto, considerado a obra-prima do autor. Tenho particular interesse por essas histórias, porque, sendo paraibano, o ambiente descrito é-me familiar, e eu pretendo aproveitar o resgate da natureza e da sociedade da época para, quem sabe, escrever um livro sobre o qual poderei comentar futuramente. Zé Lins registrou aspectos dessa civilização que não são facilmente recuperados por meio de pesquisa em arquivos, de modo que sua literatura, além das qualidades estéticas e da função que exerce como arte, também é fonte histórica valiosa.


(Minha edição de O moleque Ricardo, caixa com livros do ciclo da cana-de-açúcar e os dois do ciclo do cangaço)

Como eu dizia, O moleque Ricardo conecta-se com os demais romances do ciclo, mas incorre em um duplo deslocamento, que tem efeitos extraordinários. A leitura pode ser feita independentemente, mas aposto que fica bem melhor, se realizada na sequência, porque as referências a personagens, ao mundo do engenho e a situações tornam o relato muito mais interessante. Como diz uma personagem de Saramago no romance Caim: "nos pormenores é que está o sal". 
Os momentos mais temperados do livro são aqueles em que Ricardo confronta os dois mundos, o rural do engenho e o urbano do Recife. Há um jogo de expectativas e de frustrações do começo ao fim, e a prosa de Zé Lins, íntima, amiga, dotada da difícil simplicidade que caracteriza a fala dos grandes contadores de histórias ao pé do fogão ou no alpendre de casa, enreda-nos na torcida pelo pobre moleque de bagaceira que, apesar de todos os motivos de revolta que a vida lhe daria, esmera-se no trabalho, esforça-se diligentemente e seria candidato a case de self-made man, se ele existisse em um meio social que premiasse o empenho e o mérito.
Ao ler O moleque Ricardo, prestem atenção à diversidade de elementos da vida urbana recifense, comum a várias cidades brasileiras do início do século, com a diferença apenas da medida. Comparecem os imigrantes, a miséria das periferias, os carnavais de rua, o engajamento popular nos blocos, a religiosidade que mistura crenças de matriz africana com o catolicismo nosso de todo o sempre, o surgimento do movimento sindical e das primeiras greves, o oportunismo de políticos populistas que pegam carona nos anseios de vida digna dos operários citadinos. O livro é largo e profundo, sem perder a coesão, cujo núcleo é a personagem-título.
Eu dei 4 estrelas de 5. Minha edição é a 27.a, com a capa amarelo creme que caracterizou uma leva de edições da obra de Zé Lins. As capas mais recentes estão mais bonitas, com imagens em estilo de xilogravura e um quadrado monocromático com aplicação de verniz, em que ficam os nomes do autor e de cada obra. O trecho que selecionei para a postagem do @palavradeliteratura foi este:


A lua banhava tudo de branco como nas cajazeiras da estrada. Mãe Avelina, Joana, todas se sentavam na porta da rua para apreciar o luar. O terreiro parecia uma toalha de MADAPOLÃO estendida.
Reproduz bem o estilo de Zé Lins, com imagens muito concretas, que evocam os sentidos e o passado. "Madapolão" é, segundo o Dicionário Houaiss, um "tecido encorpado de algodão, branco e liso". Na cena descrita, as ex-escravas ficadas no engenho por falta de rumo melhor, inclusive a mãe de Ricardo, Avelina, estão sentadas ao relento, em noite de Lua, provavelmente trocando impressões sobre o dia, falando da vida alheia ou ouvindo histórias sem tempo. O terreiro, onde sujam esquecidas os pés de poeira e acompanham, de soslaio, a brincadeira dos moleques, está todo coberto pela luz lunar benfazeja, que não discrimina ninguém, como um manto da santa protetora.


(Obra de Cícero Dias com reprodução do ambiente do Engenho Noruega)

Se já leu O moleque Ricardo, diga-me o que achou no campo de comentários abaixo!