Uma jovem adulta de seus 22 anos narra como, após a morte da mãe, partiu do Rio de Janeiro para os Estados Unidos, aos 13 anos, em busca do pai desconhecido, e, ao mesmo tempo que resgatava sua memória familiar, tomava conhecimento do passado de seu país no período sombrio da ditadura instalada em 1964. Em mais uma obra em que a morte de alguém próximo e o luto dela decorrente ensejam uma viagem que problematiza identidades - como em Rakushisha e em Hanói -, Adriana Lisboa engendra uma trama com lirismo comedido, com personagens cativantes e com reverberações de sentido que se perdem no horizonte mental do leitor. As partes que tratam da guerrilha do Araguaia são reveladas ao leitor pelo contato que a narradora travou com as memórias de seu pai oficial, Fernando, em cuja casa ela vai morar nos Estados Unidos. A perda da mãe, bem como a busca e o encontro com as figuras paternas podem ser lidas também como metáforas da forma como a sociedade brasileira se relaciona com a memória desse período sombrio de nossa história nacional.
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27/10/2016
"Azul corvo", de Adriana Lisboa - Diário de leitura
Estou quase terminando de ler Azul corvo, o único dos cinco romances adultos de Adriana Lisboa que ainda não havia lido. Dizer "romance adulto" faz parecer que o livro traz cenas tórridas de sexo explícito, mas não é o caso. É, na verdade, para diferenciar do infanto-juvenil O coração às vezes pára de bater, da editora Rocco, que só hoje descobri.
Não vim esgotar Azul corvo, mas só compartilhar como estou gostando da personagem Fernando, o "pai" da narradora, Vanja. Essas aspas em torno de "pai" serão facilmente entendidas por quem ler o livro. Trata-se de uma relação sofisticadamente bela, sobre a qual pretendo escrever depois aqui. Fernando foi casado com a mãe de Vanja e, depois de separados, topou registrá-la como filha. Morre Suzana, a mãe de Vanja, e a garota de 13 anos resolve mudar-se para os Estados Unidos para, com a ajuda do pai pró-forma, encontrar o biológico.
Fernando remeteu-me ao protagonista de Barba ensopada de sangue e a David, personagem de outro romance escrito por Adriana Lisboa, Hanói. Faz parte de um grupo cujo perfil me é particularmente querido, ao mesmo tempo estoico, com carapaça de dureza e de abnegação em relação às vicissitudes do mundo, porém deixando escapar um afeto semiárido, como a flor do mandacaru, como a prosa de Graciliano e como a poética de João Cabral, todos de rara e enxuta beleza.
06/10/2016
Resenha-parágrafo - "Um beijo de colombina", de Adriana Lisboa
Avaliação: ***
Só não li da autora até agora Azul Corvo, e Um beijo de colombina foi o de que menos gostei. O argumento do livro é bom, mas a história foi perdendo o interesse do meio para o fim, até que, no último capítulo, houve uma compensação. O narrador do livro vive com uma escritora que, em uma das vezes em que vai nadar no mar, perto da casa de praia que alugam juntos, desaparece, e ele passa a vivenciar um processo de luto por essa perda. Para tentar superar, começa também a escrever. O livro, por isso, tem vários trechos metalinguísticos bacanas, em que o ofício da escrita é objeto de reflexões e de comentários. Os capítulos são organizados em referência a poemas de Manuel Bandeira, cujas vida e obra têm presença preponderante no romance. Se não gostar de "spoiler", pare de ler aqui... Recorde-se que Manuel Bandeira contraiu tuberculose na juventude e teve a morte como certa para pouco tempo à frente, todavia foi um dos escritores mais longevos de sua geração. Esse é um dos pontos em que a biografia do poeta toca a trama do livro.
Postado por
RLCA
às
13:05
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30/09/2016
Resenha-parágrafo - "Hanói", de Adriana Lisboa
Ando sumido, eu sei. Tenho pensado em como recuperar a regularidade nas postagens deste blog, porque ainda quero bem a ele e continuo convencido de seu proveito para mim; não tanto, como sempre, do valor dele para os outros. Tive agora a ideia de facilitar a frequência das postagens impondo-me um desafio simples: escrever um parágrafo sobre livros que eu ler, visto que textos mais longos exigem mais tempo e dedicação do que tenho sido capaz de reservar. Vejamos como me saio.
Hanói, de Adriana Lisboa
David, um homem de seus trinta anos, músico diletante, ocupante de um emprego banal, recentemente abandonado pela namorada, recebe do médico a notícia de que vai morrer em poucos meses. Em meio às iniciativas que toma para despedir-se da existência, como distribuir os poucos bens contidos em seu apartamento, conhece Alex, descendente de vietnamitas imigrados para os Estados Unidos, caixa de um mercadinho de bairro e mãe solo de um garoto. O encontro dos dois é especialmente problemático pela dúvida sobre se é plausível e desejável um envolvimento amoroso cujo prazo de validade está prestes a vencer pela morte iminente de uma das partes. O que poderia ser um dramalhão ou um fardo emocional é representado por Adriana Lisboa com uma limpidez e uma serenidade que nos fazem deparar com a tristeza e com o implacável de uma forma terna. Pessoalmente, sinto saudades das personagens e de sua convivência.
Avaliação: ****
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