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06/10/2016

Resenha-parágrafo - "Um beijo de colombina", de Adriana Lisboa

Avaliação: ***

Só não li da autora até agora Azul Corvo, e Um beijo de colombina foi o de que menos gostei. O argumento do livro é bom, mas a história foi perdendo o interesse do meio para o fim, até que, no último capítulo, houve uma compensação. O narrador do livro vive com uma escritora que, em uma das vezes em que vai nadar no mar, perto da casa de praia que alugam juntos, desaparece, e ele passa a vivenciar um processo de luto por essa perda. Para tentar superar, começa também a escrever. O livro, por isso, tem vários trechos metalinguísticos bacanas, em que o ofício da escrita é objeto de reflexões e de comentários. Os capítulos são organizados em referência a poemas de Manuel Bandeira, cujas vida e obra têm presença preponderante no romance. Se não gostar de "spoiler", pare de ler aqui... Recorde-se que Manuel Bandeira contraiu tuberculose na juventude e teve a morte como certa para pouco tempo à frente, todavia foi um dos escritores mais longevos de sua geração. Esse é um dos pontos em que a biografia do poeta toca a trama do livro.

15/07/2015

"Harry Potter e a Pedra Filosofal" - Diário de Leitura 1

Entre os livros que estou lendo, mencionados em postagens recentes, está, inesperadamente para mim e para alguns que me conhecem, Harry Potter e a Pedra Filosofal. Passei da metade na manhã de sábado, 11 de julho. Conheço gente de todas as idades que leram o best-seller, pessoas com interesses variados, com ambições intelectuais bem díspares também. Nunca tive vontade de ler a série, tampouco assisti, na íntegra, a qualquer um dos filmes inspirados nela.

O livro é simpático, a estória e o modo como é contada não me irritam - como imagino que ocorreria, caso tentasse ler outras obras de literatura infanto-juvenil -, mas certamente não é o tipo de escrita que mais me interessa. Resolvi ler, pelo menos, um Harry Potter, mais por interesse pelas pessoas que leram - gente demais! - do que pelo prazer que a obra me proporcionaria diretamente. 

Uma coisa que notei é que, entre o pessoal que trata de livros em redes sociais, especialmente no Instagram, a febre momentânea são as obras de John Green. Minha irmã mais nova, uma boa leitora, bem acima da média dos adolescentes com sua idade, gostou muito de Quem é você, Alasca? e de algum outro cujo título não me ocorre agora. Como a maioria dos usuários do Instagram deve ser formada por leitores dessa idade, é o que mais se vê. É meio triste, porque falta diversidade, porém isso é típico de sociedade de massa como é a nossa faz tempo. Tenho sérias dúvidas sobre se John Green será lido em vinte anos.

Com Harry Potter, parece-me ocorrer algo diferente. O livro foi febre e continua arrebanhando fãs nas novas gerações, desde 1997, quando foi lançado em inglês, há quase vinte anos. Os primeiros adolescentes que leram a estória do bruxo britânico, se tivessem seus 12 anos à época, estão na casa dos 30 no mundo anglófono. Além disso, como mencionei, a adesão ao livro e aos filmes, que ajudaram a catapultar o universo construído nessa narrativa em todas as direções geográficas e etárias, ocorreu também entre pessoas já crescidas na época e depois do lançamento. Estou no começo dos 30 e não havia tocado ainda em Harry Potter, mas meu melhor amigo, meses mais velho do que eu - faço questão de ressaltar isso, na esperança de que ele veja esta postagem um dia - leu toda a série e sempre me veio com referências das obras que me deixavam boiando, e eu tinha de pedir explicações do que se tratava: tornei-me um amigo de conversa claudicante para ele. O mesmo aconteceu em várias ocasiões, quando se falava em lançar um "avada kedavra" sobre um desafeto do dia, em "aparatar" em algum lugar ou em mandar uma coruja a alguém.

O interesse pelas pessoas que leram Harry Potter e me fez decidir correr os olhos por essas páginas pode ser desdobrado, pelo menos, de duas formas. O primeiro é o de dar o braço a torcer e encarar a realidade: pelo visto, até minha morte, os elementos do universo potteriano estarão a minha volta, e talvez o custo de oportunidade da leitura, em termos de tempo que poderia ser dedicado a outras páginas, seja muito baixo e recompensador, tendo em vista o aumento de repertório compartilhado com o resto das pessoas que me são mais próximas. Poderei, assim, entendê-las melhor e alcançar suas referências, afinal, uma das formas por meio das quais a literatura nos afeta profunda e imperceptivelmente é transformar nossa capacidade de representar o mundo, de imaginar hipóteses e possibilidades e de expressar ideias e emoções, por analogia positiva ou negativa com os eventos, os sentimentos, as possibilidades assimiladas na leitura.

O segundo desdobramento de meu interesse pelos que leram Harry Potter como justificativa para eu mesmo lê-lo é o de tentar entender o que há nessa obra que tanto fascínio exerce em gente tão díspar, ao longo de quase duas décadas. Alguma qualidade de tocar seres humanos tão diferentes deve ser reconhecida nessa narrativa. Aliás, não "alguma", mas muita, porque o livro é um fenômeno, mesmo se nos restringimos apenas a sua performance editorial. Se eu tiver algum palpite do que pode ser, comentarei aqui.

Voltarei a Harry Potter e a Pedra Filosofal em postagens futuras.

13/06/2015

Dois tipos de amor num poema de Augusto dos Anjos - "Versos de amor"

Com um pouco de atraso, mas foi o que deu para fazer, trago um poema de Augusto dos Anjos sobre o amor, em referência ao Dia dos Namorados. Eu releio esse poema desde o Ensino Médio, quando o escolhi para um trabalho da escola na disciplina de Literatura. Ele chamou-me a atenção, primeiramente, por trazer um tema incomum na obra de Augusto, mais conhecido por tratar da finitude, da degradação física e espiritual, da noite e do sombrio. 
Esse "Versos de amor" tem um toque de amargura ou, para usar os termos do próprio poema, de azedume, porque o eu poético começa apresentando uma concepção traiçoeira e egoísta do amor, para depois contrapor a sua, que tem por tão sublime, que não pode ser enunciada por uma língua; precisa, na verdade, de um instrumento musical único que a torne compreensível por toda a humanidade, quer dizer, universal. 
Gosto da sonoridade especialmente da primeira e da última estrofes. A primeira recorre a uma imagem que deveria ser muito familiar à realidade do poeta, criado em um engenho de açúcar na Paraíba: a da cana, que sempre se espera seja doce, mas se revela azeda na realidade. A última estrofe, como era de esperar-se de Augusto dos Anjos, retoma a presença da morte nas reflexões sobre as coisas da vida, e aqui parece que o eu poético considera que o amor, como ele o concebe, seria uma forma de contrapor-se ao vazio existencial que a morte demarca.




Versos de amor


A um poeta erótico


Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a . . ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.


Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!


Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.


Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.


Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!


É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!


Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Mársias — o inventor da flauta —
Vou inventar também outro instrumento!


Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!


Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!

10/03/2015

Rapidinha de inscrição como aluno especial

Faz tempo que nutro a vontade de fazer mestrado em Literatura, mas ora as datas de inscrição coincidem com viagens agendadas muito antecipadamente, ora fico reticente quanto a assumir obrigações de leitura e de comparecimento a aulas, depois de um longo período de vida consumido por esse tipo compromisso. Vinha pesando na balança do tempo se valeria a pena privar-me, de novo, do atual período de relativa liberdade na escolha das leituras e na destinação de meu parco tempo livre de expediente. Acabei de escrever a exposição de motivos requerida pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura da UnB para inscrição como aluno especial. Solicitarei matrícula em duas disciplinas. Aguardem cenas dos próximos capítulos.