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09/11/2015

"Viva o povo brasileiro" - diário de leitura


Estou concentrado esta semana na leitura de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. É um livro que estava listado havia tempos, mas cuja leitura, como a de muitos outros que mourejam aqui nas estantes de casa, esperava sem prazo. Lembro o muito que li de elogios e de recomendações sobre esse livro, especialmente de uma rara entrevista em que Marista Monte o incluía entre os seus mais estimados. Finalmente, porque é objeto principal de estudo de uma disciplina que estou cursando como aluno especial no Mestrado em Literatura da UnB, peguei-o.
Sem muito tempo agora, que a madrugada já finda, e eu tive de prolongar a vigília por causa de uma gatinha branca que adotei recentemente para fazer companhia a Homero (o gato ruivo que figura na imagem de fundo do blog), compartilho, antes de deitar, que poucos livros me proporcionaram um prazer tão grande como o que sinto ao correr as páginas de Viva o povo brasileiro. João Ubaldo tem uma prosa finíssima, ao mesmo sofisticada, rebuscada e clara. Alterna magistralmente registros os mais diversos, como frases barrocas à Antonio Vieira e o português malemolente das pessoas escravizadas no Brasil. A paleta de vocabulário dele e a forma certeira como emprega cada termo é sensacional. Prazer semelhante senti talvez com O Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, e, mais recentemente, com O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago.
Não transcrevo agora, porque esta é para ser uma postagem curta, de minutos antes de dormir, mas logo trarei em nova postagem uns quatro trechos que me impressionaram particularmente; tanto, que tenho vontade de relê-los sempre, para o resto da vida.
João Ubaldo: depois de começar a ler Viva o povo brasileiro, quero ser ele!

Boa semana, com este entusiasmo de ler Viva o povo brasileiro!

* A gatinha a que me referi, escolhida em uma feira de adoção no sábado, aqui em Brasília, chama-se Penélope, em homenagem à personagem da Odisseia. A adaptação entre ela e Homero está em curso, eles estranham-se muito, mas já dá para notar que tendem a ficar próximos, mesmo que ainda não estejam se embolando e dormindo encangados.

04/02/2015

Meta de leitura 2015: introdução

Achei uma boa comentar com vocês a lista de livros que pretendo ler em 2015. Pretendo explicar o que norteou a escolha dos livros e trocar impressões com @s leitor@s do blog. Também acho que será um bom exercício refletir publicamente sobre a formação dessa lista e, no final do ano, ao olhar retrospectivamente as postagens desta série, avaliar se foi cumprida, o que ficou de fora, o que entrou e não estava previsto e por quê.
Em 2014, pela primeira vez, eu estabeleci uma meta numérica de leitura. Um amigo meu tinha assumido um desafio no Goodreads, uma rede social e aplicativo para leitores, e eu animei-me a seguir o exemplo. Julguei que ler 25 livros seria razoável, tendo em vista o trabalho, as obrigações assumidas, a vida social. Terminei em 30. Com esse resultado, resolvi aumentar em 10%, pelo menos, a nova meta. Para este ano, pretendo ler 33 folhosos, no mínimo, o que resulta em uma média mensal de menos de três, bem factível.
Para escolher os títulos, eu tinha de conciliar minha livre vontade de ler com as leituras que, por projetos pessoais que me atribuí, teriam de ser feitas. Dadas essas condições, criei cinco categorias, pelas quais distribuí os livros que digerirei em 2015.
Uma categoria incluirá os volumes relacionados a minha área de atuação profissional, as Relações Internacionais. Essa foi uma necessidade ainda maior, porque provavelmente darei algumas aulas sobre o tema. 
Outra categoria vincula-se um pouco à carreira, mas provavelmente existiria de qualquer forma, por interesse pessoal: livros em língua estrangeira. Nessa, defini que serão lidos quatro escritos em inglês, dois em espanhol e mais dois em francês. Minha intenção é praticar os idiomas e entreter-me. Um critério essencial é que a obra tenha sido escrita originalmente na língua estrangeira em questão. Por ora, aqueles em espanhol serão El General en su laberinto, de García Márquez, e um de contos do peruano Julio Ramón Ribeyro, que comprei quando estive em Lima. Em inglês, também sujeitos a mudança, serão Oliver Twist, A single man, The remains of the day e Purple hibiscus. Em francês, ainda não defini.



Duas outras categorias ligam-se a um projeto de livro/pesquisa que eu pretendo levar a cabo e a um tema, o Nordeste, que decidi estudar melhor, para poder entender e discutir. Na primeira das categorias citadas, estão, até agora, Fogo morto, O espetáculo das raças e Política e parentela na Paraíba. Na segunda, A invenção do Nordeste, Cangaceiros, Pedra bonita, a biografia de Padre Cícero escrita por Lira Neto e o primeiro volume de Crimes que abalaram a Paraíba, que já está lido.
O quinto grupo é o melhor: chama-se "livre". Nele, eu incluo as leituras que me derem na telha. Quatro já foram: O evangelho segundo Jesus Cristo, Cinzas do Norte, A sombra do meio-dia e Caim. Dos que constam da lista, faltam: Odisseia, em nova tradução de Christian Werner, lançada pela Cosac & Naify (foi meu autopresente de aniversário em 2014); as duas últimas biografias de Getúlio escritas por Lira Neto (autor que está bombando em minha lista, notaram?), O anjo pornográfico, Chatô, O mestre e Margarida e Memorial de Aires.



Aos poucos, vou singularizar cada livro mencionado em um texto próprio, em que detalharei informações sobre eles e explicarei por que despertaram meu interesse e candidataram-se a ocupar meu precioso tempo. E vocês? Fazem lista com metas de leituras? Como as organizam? Já leram, ou pretendem ler algum dos livros que mencionei? Diz aí, vai.

18/01/2015

O evangelho segundo Jesus Cristo: "malga"

O blog começa retardatário em relação ao Instagram. Um dos objetivos, de partida, será publicar uma postagem aqui para cada uma das que já estão lá. Começo com José Saramago, seu Evangelho segundo Jesus Cristo e a palavra "malga".

(O lugar do blogueiro: esta postagem foi feita nesse cenário)


Não me lembro de nenhum outro livro ter-me transformado em um carrinho em trilho de montanha-russa e feito minhas emoções oscilarem tão intensamente e tantas vezes do riso às lágrimas.

Deve fazer uns quinze anos que li, pela primeira vez, um livro do único ganhador do prêmio Nobel de Literatura a escrever em português, José Saramago. Foi uma edição de banca de revista do Jangada de Pedra, a capa dura, o papel meio grosseiro, tipo de jornal. Integrava a coleção "Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa". De lá para cá, Saramago tornou-se um de meus autores prediletos. Até o presente, Ensaio sobre a cegueira, que virou filme sob a direção do brasileiro Fernando Meirelles, era meu preferido, seguido, de perto, de Todos os nomes. O evangelho, cuja leitura eu adiava havia anos, furou a fila e agora está na dianteira. Entrou também na lista de meus dez livros mais amados.


(alguns livros da coleção "Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa" em minha estante)


(livros de Saramago aqui à mão)

Que novidade poderia haver em uma história contada e recontada há dois mil e quinze anos? Quantas filmagens e encenações da Paixão de Cristo vocês não já viram, no todo ou em parte, ao longo da vida? O elemento surpresa, atrativo de muitas narrativas, dificilmente estaria presente: todo mundo sabe que a personagem principal dessa história morrerá crucificada, depois de vividos alguns episódios sem muita carga dramática, exceto por um milagre aqui ou ali, em que ninguém acha graça.  

Quem já refletiu um pouco mais sobre literatura e sobre a arte de contar histórias deve ter chegado à conclusão de que o fascínio de uma narrativa não está na exposição do milagre em si, mas, na verdade, em mostrar como foi feito, quais foram suas causas e quais serão as consequências. Lembram-se da grande audiência que Mr. M deu ao Fantástico? A diferença do evangelho de Saramago está no como, nas ênfases em determinados episódios e no recheio que ele usou, para preencher as lacunas da história celebrizada com a disseminação do cristianismo. Exemplificar bem isso me levaria, inevitavelmente, a estragar algumas surpresas, porque as há. Conforme eu disse, os pontos-chave da biografia bíblica de Jesus repetem-se, mas os imprevistos estão em como são encadeados.

Preciso usar um parágrafo para advertir aqueles que levam a religião muito a sério de que Saramago, ao recontar a história de Jesus, não adotou a mesma reverência que talvez vocês esperassem. Deus, o Diabo, Jesus, Maria de Nazaré, José, Maria de Magdala e outras personagens que entrariam na hagiografia católica misturam-se, convivem, e não estão caracterizados com as qualidades morais que se poderia prever. O Jesus de Saramago é de uma humanidade pungente em seu esforço sincero e angustiado de ser bom, é um herói; o Diabo do livro é um humanista pragmático e não deixa de contar com nossa simpatia; quanto a Deus, bem, sinto dizer que é o maior vilão dessa trama. Uma leitura atenta do romance deve desafiar crenças e contestar paradigmas. Conhecer bem a história bíblica tanto pode tornar a leitura mais instigante, como pode ferir susceptibilidades. Fica o aviso.

Se lerem, prestem atenção (aos que já leram, tentem lembrar) a como Saramago agrupa, em torno de Jesus, sempre pares de personagens que podem ser bem medidos um em relação ao outro. Por exemplo, Maria de Nazaré, a mãe, e Maria de Magdala (ou Madalena), a companheira: a primeira virtuosa, casada, mãe, exemplar segundo as leis oficiais e divinas, mas falha no reconhecimento do filho; a segunda, prostituta, impura ante os olhos da comunidade, mas de uma compreensão e comunhão divinas com Jesus. Uma das cenas  mais comoventes do Evangelho é o primeiro encontro entre as duas, depois de tempos de preparação, durante os quais uma ouvia falar da outra, unidas pelo vínculo afetivo com Jesus. Outros pares: Deus, o pai celeste, e José, o pai de carne e osso; Tiago, o irmão que assume as responsabilidades de Jesus como primogênito da casa, e José, o irmão afetuoso; Deus e o Diabo, claro. Cada par desses renderia um texto inteiro de análise. Se quiserem, posso fazer.

Como eu vou agora, depois de tudo que ficou dito, incluir a "malga" nesta conversa? Para que não precisem correr à primeira postagem do Palavra de Literatura no Instagram, recupero aqui tanto o trecho do Evangelho em que a palavra apareceu, quanto a definição retirada do Houaiss:

"A mãe tinha acabado de preparar a ceia, sentaram-se todos à volta da MALGA comum e comeram do que havia."

malga substantivo feminino ( 1510)tigela ou prato fundo de louça em que se toma sopa, caldo

(Nessa pintura do português José Malhoa, uma malga é emborcada sobre a mesa por um bêbado)


Aqui vai aparecer um spoiler, portanto, se você, em uma história, dá mais importância ao quê do que ao como, pule para o parágrafo seguinte. A ceia mencionada no excerto que pincei é carregada de emoção. José não está presente. O homem da casa, marido de Maria, pai de Jesus e de seus irmãos, não apenas respeitado pela sua posição hierárquica naquela sociedade patriarcal, mas também amado por suas qualidades pessoais, morreu. Não digo como, porque é uma das surpresas do livro. Será a primeira refeição da família após a morte de José, todos estão profundamente tristes, todos têm a garganta atada por um nó cego, todos, exceto os muito miúdos - pelas óbvias razões -, pensam nas incertezas do amanhã, provavelmente todos estão sem fome, mas a ceia conjunta é o primeiro passo dessa família para o futuro em direção ao qual os vivos necessitam caminhar. Ato corriqueiro, comezinho, banal, repetitivo, essa ceia deverá ser inesquecível. No centro da cena, a malga, uma grande tigela para a qual convergem as mãos da família sentada em redor do objeto, receptáculo do alimento compartilhado.

Seria espantoso, se eu revelasse que "malga" vem do grego? Assim como eu gosto de histórias de pessoas, também me apetecem as das palavras. Resgatar detalhadamente o percurso de "malga" do grego antigo até a flor do Lácio que falamos no Brasil não caberia neste texto, exigiria um exclusivo. Deixem-me apenas registrar a curiosidade de que, na origem antiga, a palavra era magís (μαγίς) e designava: a) uma massa de pão, b) um pão de mel oferecido no altar de Trofônio, c) mesa ou d) o prato de uma balança. Ao que parece, o percurso do sentido carregado pela palavra girou sempre em torno da relação metonímica entre o alimento e seu recipiente. Cada significado etimológico desses renderia ótimos ganchos analíticos para a leitura do Evangelho. 

Os livros e as histórias neles contidas comparam-se à malga: nós metemos as mãos em suas páginas, os olhos, em suas palavras, a mente, em suas personagens,  imaginação, em tudo que acontece e é narrado neles. Isso alimenta-nos e faz-nos comungar com outras pessoas, inclusive, as que já morreram e, num passado em que não vivemos, leram, emocionaram-se e viram o mundo semelhantemente a nós, por haverem conhecido as mesmas histórias.

Eu desejo que este blog seja como a malga, e todos nós tanto depositemos nele quanto retiremos dele alimento para nosso cotidiano.