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07/11/2015

Satisfações de um início de novembro

Leitoras discretas, leitores silenciosos, tenho lido bastante, mas sobra pouco tecmpo para escrever. Neste mês de novembro, preciso ler a bibliografia de uma seleção de Mestrado, composta por livros teóricos da área de Literatura, os textos de uma disciplina que estou cursando como aluno especial, o romance Viva o povo brasileiro, para a mesma disciplina, além de uma monografia, a pedido de uma amiga. Na semana recém-finda, já tracei uma dissertação de Mestrado em História, porque seu autor, meu amigo, decidiu publicá-la em livro e pediu-me que escrevesse o texto da capa traseira. Fiquei bem feliz com a honraria, mas achei necessário ler o trabalho de ponta a ponta, para elaborar o melhor texto possível. 

***

Essas leituras todas, embora me agradem, têm prazos para cumprimento, o que manda para o final da fila todas aquelas que eu vinha fazendo meramente porque me deu na telha. Estão paradas Harry Potter and the Chamber of Secrets, Suicide and the Soul, Cangaços e História da morte no Ocidente. Acredito que será possível terminar todos até o final do ano, além de cumprir um pouco mais da meta de 2015, da qual me desviei bastante. Oportunamente comentarei cada livro desses, além de problematizar essa questão da meta. Foi o primeiro ano em que organizei uma com tanto detalhe, e não me frustro tanto, porque a vida já me ensinou que não é linear, e que os planejamentos devem gozar de certa flexibilidade, especialmente quando dizem respeito aos prazeres de nosso tempo livre.


17/02/2015

Respostas aos comentários dos leitores

Literaterapia escreveu na postagem Meta de leitura 2015: introdução:
No inicio do ano fiz uma lista com 60 livros, tbm divididos em algumas categorias e incluindo alguns dos meus projetos de leitura, mas no fim fui incluindo mais alguns, lendo outros que não faziam parte da lista e por fim, minha meta nesse minuto está com 73 livros, dos quais 15 já foram lidos. Dentro dessa meta esta meu projeto de leitura de Em busca do tempo perdido e O tempo e o vento. Um projeito de leitura dos classicos eróticos e um projeto de contemporâneos brasileiros. E para o mês de março, por conta do dia da mulher estou organizando leituras de autoras que ainda não tive contato! Sua lista de "livres" me interessa bastante, mas acho q vão ficar para 2016. Rs em Meta de leitura 2015: introdução


Minha resposta: Literaterapia, achei bem interessantes seus projetos. Já podia presumi-los por postagens suas no Instagram. Sobre o número de livros a ler, minha lista oficial ainda não ultrapassou os 33 que estabeleci, mas creio que, mantido o ritmo até aqui, será facilmente superada. Quem viver - e acompanhar o Palavra de Literatura - verá!


Literaterapia escreveu na postagem Metas de leitura de 2015: "O anjo pornográfico":
E será que podemos saber biografia de quem vc tem vontade de escrever? em Metas de leitura de 2015: "O anjo pornográfico"

Minha resposta: A princípio, não é uma personagem de interesse nacional. Trata-se de um antepassado meu. Acredito realmente que uma biografia dele seria de interesse coletivo para a História da Paraíba e da Medicina. Se eu me der bem nessa primeira empreitada, já tenho outras personalidades em mente, mas não me dará sorte antecipar mais nada.

Literaterapia escreveu na postagem Considerações sobre a "Odisseia":
Não sei se vc já viu, mas no canal da Univesptv tem uma playlist que chama "Literatura Fundamental" ( http://www.youtube.com/playlist?list=PLxI8Can9yAHfwU1xgIgN2QLh6SuYsV2gG ) , são peogramas de 30min. em que um especialista é convidado a falar sobre uma obra da literatura universal. E os primeiros videos são com o prof. André Malta falando sobre Odisseia e Ilíada. Bem legal, vale a pena conferir! em Considerações sobre a "Odisseia"

Minha resposta: Não conhecia o canal. Vou dar uma olhada sim. Muito obrigado pela dica!

Marcela Yoneda escreveu na postagem Considerações sobre a "Odisseia":
Raimundo, um prazer descobrir seu blog! Parabéns.Uma delícia de ler. Você já leu Valter Hugo Mãe? Entendi que prefere usar o filtro "tempo" como critério para confirmação dos clássicos dado ao pouco tempo que temos para ler todos os bons livros nessa vida, mas sugiro que leia esse autor - se é que ainda não leu, claro - mesmo sendo contemporâneo. Adoraria ver seus comentários sobre o "Desumanização", "O remorso de Baltazar Serapião" e outros. Lerei "Odisseia". Seu carinho pela obra é bem contagiante. Ah! E desculpa, mas tomara que te deixem mais vezes sozinho em casa! Rende postagens para nós!! rsrs Abraços, Marcela em Considerações sobre a "Odisseia"

Minha resposta: Marcela, obrigado pela visita e pelo estímulo. Também visitei seu blog e achei você uma ótima cronista, sem favor nem gentileza. Nunca li nada de Valter Hugo Mãe, embora já tenha deparado com livros dele, muito amiúde, nas rotineiras visitas às livrarias. Prometo que darei uma chance a ele, por causa de sua indicação. Quando terminar a Odisseia, venha aqui contar como foi, ou escreva algo a respeito em seu blog.

Teófilo Ribas escreveu na postagem Considerações sobre a "Odisseia":
Tens uma bela coleção. Interessante a forma que mencionas e difencias cada uma delas. Das frases escritas, o que mais me chamou a atenção foi a explicação sobre o seu presente de 2013. Me fez refletir bastante sobre isso... As pessoas que escolhemos para fazer parte de nossa vida. em Considerações sobre a "Odisseia"

Minha resposta: Teófilo, minha coleção da Odisseia é uma joiazinha de minha biblioteca. Sempre me pego folheando uma ou outra e relendo trechos. Você sabe que a pessoa a que me referi na postagem, embora reconheça meu amor aos livros e me tenha dado aquela preciosidade de presente, também tem seus momentos de sofrimento por causa de minha compulsão em colecionar esses objetos que, como disse Borges, são a única invenção humana que funciona como extensão da imaginação, e não das mãos. Obrigado pela visita participativa!

Marcela Yoneda escreveu na postagem Leitura a lápis:
Raimundo, muito agradecida e lisonjeada pela visita e comentário gentil. Muito simpático de sua parte. E sobre esta postagem: você está aumentando minha lista de desejos de livros e filmes. Muito bom! Obrigada Com relação às anotações em livros, achei muito interessantes as colocações. A questão que gostaria de abordar é: e nas bibliotecas públicas, escolares, itinerantes? Vale escrever nos livros? Convém cada usuário anotar no livro e o devolver com as anotações? Mandarei um e-mail no endereço que consta no Instagram para comentar o assunto. Pode ser? Abraços, Marcela Yoneda em Leitura a lápis

Meu comentário: Marcela, obrigado a você. Como já disse em resposta a seu comentário anterior, meu comentário reconheceu mérito, não foi gentileza vazia. Fico feliz que pessoas como você estejam frequentando meu blog. Fico ainda mais feliz em receber aquele imenso e delicioso comentário sobre sua experiência com o exemplar grifado que você pegou emprestado na Biblioteca Mario de Andrade. Por e-mail, pedi que você o publicasse em seu blog, ou me deixasse publicar aqui. 

Literaterapia comentou na postagem Memorial do "Memorial de Aires":
Tenho uma amiga que é mestre em filosofia e hoje cursa história, que está estudando a relação entre a história do Brasil e a obra do Machado, mais especificamente o período do Ventre Livre. Quando vi sua postagem das obras completas dele, lembre dela. em Memorial do "Memorial de Aires"

Meu comentário: Literaterapia, que legal o objeto de estudo de sua amiga. Se ela estiver na Unicamp, sou capaz de apostar que esteja sob orientação de Sidney Chalhoub, autor de Machado de Assis historiador. Também aposto que ela se aproveita das interpretações inovadoras de John Gledson, cujo comentário ao Memorial de Aires pretendo usar, brevemente, para uma nova postagem sobre o livro de Machado. Se ficar sabendo de algo mais relacionado à pesquisa de sua amiga, conte-nos, por favor!

Rodrigo Alípio escreveu na postagem Memorial do "Memorial de Aires":
Não é minha obra de Machado se Assis preferida. Mas lendo sua postagem me veio a vontade de relê-la. Farei isso. Valeu. em Memorial do "Memorial de Aires"

Meu comentário: Rodrigo, não consigo dizer qual é meu romance realista de Machado predileto. Sempre gosto muito do que li mais recentemente. Se você reler mesmo, quero saber como foi, por favor. Eu ainda pretendo postar sobre os aspectos do livro que mencionei no primeiro texto.

Meta de leitura: categoria "Paraíba e Nordeste" e "A invenção do Nordeste"


"Se eu fosse editor, ia buscar coisas no Nordeste: as coisas mais geniais do mundo estão lá."
(Tom Jobim, "O Pasquim", 1969)

Na semana que passou, voltando do trabalho para casa, ouvi pelo rádio que as denúncias contra ocorrências de xenofobia na Internet aumentaram 375%, em 2014, em relação ao ano anterior. A maior parte delas relacionava-se a casos de preconceito e de discurso de ódio contra os nordestinos no período pós-eleitoral.

Na época, o fenômeno não me apareceu quantificado, mas aquela discussão sobre a legitimidade do voto dos eleitores nordestinos despertou-me os instintos mais primitivos. Brincadeira. Na verdade, meu fogo de indignação foi aceso sim, mas, em vez de vontade de vingança primitiva, senti mesmo um desejo grande de conhecer melhor a realidade do que se convencionou chamar Nordeste e povo nordestino, para municiar-me de argumentos sólidos nesses debates, que, julgo eu, tendem a tornar-se mais frequentes no futuro próximo. 

Ligado a isso, cresceu meu interesse especificamente sobre a Paraíba, minha terra natal, que me vejo na obrigação de estudar e de conhecer. Se não forem os paraibanos a sistematizar e produzir conhecimento sobre o que aconteceu e acontece dentro das divisas do Estado e a contar a História do Brasil da perspectiva local, mais ou menos como fez Evaldo Cabral de Melo, raramente alguém vai dar atenção a esses temas e a esses pontos de vista fora do Nordeste. 

Já vivemos o apagamento sistemático das cores e dos traços locais pelo fato de que quase tudo que se produz, em termos de notícias e de debate jornalístico com abrangência nacional, de teses acadêmicas com oportunidade de publicação e distribuição, de peças audiovisuais com espaço na televisão para todo o Brasil, de ficção literária nas grandes editoras, eu dizia, tudo que se produz e adquire relevância geral no Brasil tem, atualmente e há muito tempo, de passar pelo crivo do eixo Rio-São Paulo. A história do país é contada, diariamente, pelas lentes, pelos interesses e pelos objetivos de quem vive no Sudeste. Não é questão de malvadeza, não se me entenda mal: é natural que quem tenha acesso ao microfone, à câmera, ao papel publicado e à tribuna em sentido geral conte sua versão, nos limites de seu mundo.

O primeiro e principal livro que incluí nas metas de leitura para 2015, na categoria "Paraíba e Nordeste (ver postagem sobre as metas de leitura deste ano), criada pelo sentimento pós-eleitoral e pela necessidade de conhecer melhor, para mostrar um ponto de vista fora do eixo, foi o de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, publicado pela editora Cortez: A invenção do Nordeste e outras artes. O livro é uma versão adaptada da tese do autor, defendida na Unicamp e vencedora do Concurso Nelson Chaves de teses sobre o Norte e Nordeste brasileiro, da Fundação Joaquim Nabuco. Minha edição é a quinta e data de 2011, mas o livro foi lançado em 1999.



Lembro que ouvi falar nesse livro, pela primeira vez, pela boca de um grande amigo que cursava a graduação em História na Universidade Federal da Paraíba. O autor foi professor da instituição, e já se falava neste, entre os estudantes, com uma admiração que testemunhei nos comentários de meu amigo. Esse amigo figura entre os mais inteligentes e estudiosos que conheci e também é apaixonado por livros.

A obra historia como, aos poucos, no século XX, formou-se a ideia de Nordeste, na condição de espaço de identidade dentro do guarda-chuva da nacionalidade brasileira. Assim como, após a Independência, a elite brasileira dedicou-se à invenção da brasilidade, processo mais ou menos consciente, ocorrido em detrimento de particularidades regionais e classistas não convidadas a participar integralmente dessa invenção, a nordestinidade também constitui o que Benedict Anderson chamou de comunidades imaginadas, em livro com esse mesmo nome. O fato de ser imaginada não significa que seja falsa. Como diz Lilia Moritz Schwarcz na apresentação ao livro de Anderson:


"Não se imagina no vazio e com base em nada. Os símbolos são eficientes quando se afirmam no interior de uma lógica comunitária afetiva de sentidos e quando fazem da língua e da história dados 'naturais e essenciais'".
Eis, em linhas gerais, o que me levou a criar a categoria "Paraíba e Nordeste" em minha lista de livros a ler em 2015. Fica explicado também por que incluí A invenção do Nordeste e outras artes entre as metas deste ano. A divulgação dos números com que comecei este texto lembrou-me de adiantar a postagem. 

Para terminar, indico outros títulos que já li e considero que seja importante figurarem em uma lista formada à luz das preocupações expostas aqui:

O Norte agrário e o Império: 1871-1889, de Evaldo Cabral de Melo, publicado pela Topbooks.



A outra Independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824, também de Evaldo Cabral de Melo, publicado pela Editora 34.



O fole roncou: uma história do forró, de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, publicado pal Zahar.



Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil, de Gilberto Freyre, publicado pela Graal.



Formação econômica do Brasil, de Celso Furtado, publicado por várias editoras, entre elas, a edição comemorativa dos 50 anos, pela Companhia das Letras.



O moleque Ricardo e Usina, de José Lins do Rego, publicados pela José Olympio.


Rapidinha (de Carnaval) 2

Conforme programado, talvez com um pouco de atraso, terminei a leitura meio obrigatória de História das Relações Internacionais Contemporâneas, que estabeleci como condição para iniciar O Anjo Pornográfico. No meio do caminho, porém, tinha uma ida à livraria, de onde saí, no sábado de Carnaval, com os três livros que postei no Instagram. Comecei a ler Literatura Brasileira: modos de usar, do professor da UFRGS Luís Augusto Fischer, ainda no shopping onde o comprei, e terminei-o só um pouco depois do de Relações Internacionais. 


Vim só dar notícias, dizer que atribuí quatro estrelas ao livrinho de Fischer - que será objeto de postagem própria - e consignar minha alegria de começar a virar as páginas da biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, com grandes expectativas.

15/02/2015

Rapidinha

Como vai o Carnaval das leitoras e dos leitores? Alguém optou pela temperança e anda agarrada com sua leitura da vez, no lugar de sair pulando por aí como cururu? Eu fiquei em Brasília, decidi aproveitar o sossego em que a cidade fica, sempre que há um feriado prolongado. Como um casal de amigos está fazendo conexão prolongada aqui antes de partir em viagem ao exterior, pouco me peguei lendo páginas. Faltam trinta para terminar História das Relações Internacionais contemporâneas, que duvido muito que interesse à maioria de vocês. Quando os amigos partirem, na tarde de hoje, vou correr as últimas folhas desse livro, para, enfim, começar O Anjo Pornográfico, sobre o qual já postei.

12/02/2015

Memorial do "Memorial de Aires"

Anteontem terminei a releitura de Memorial de Aires, último romance escrito por Machado de Assis. Deu tempo de publicar algo no Instagram, mas só hoje arranjei um momento para escrever a respeito do livro.

Notei que, depois de iniciado nesta atividade blogueira e instagrameira, minhas experiências de leitura são marcadas por uma novidade: a preocupação em procurar elementos interessantes para as postagens. Além da atenção voltada para os aspectos estéticos, para a construção da trama, para referências e significados indiretos, para trechos de conteúdo memorável, passei a ter sempre presente, ao virar as páginas, a pergunta sobre o que poderia ser objeto de bons debates no Palavra de Literatura. O complexo ato da leitura fica, assim, enriquecido por essa nova disposição de espírito.

O problema é que estou começando com essa história de escrever sobre livros e, feliz ou infelizmente, tive muitas ideias para o texto que escreveria sobre o Memorial. Eu poderia implementar todas e desdobrá-las em várias postagens, mas, conhecendo-me bem, temo deixar ideias soltas pelo caminho, sem que lhes dê corpo textual. Confesso aos leitores, metalinguisticamente, os impasses de um novel blogueiro com sua mente cheia de projetos confrontada com as restrições de tempo que a vida lá fora impõe aos que cumprem expediente por um salário. 

Pensei, por exemplo, em dedicar uns parágrafos só para os aspectos de construção do narrador-personagem em sua condição de diplomata aposentado. Reuniria e comentaria tanto as passagens com referências abertas e diretas à vida profissional do Conselheiro Aires, o narrador, no exterior e na relação com os órgãos de governo, como exploraria aquelas características mais sutis e indiretas atinentes ao perfil esperado de um diplomata. Um texto assim discutiria, em primeiro lugar, a construção da personagem por Machado de Assis: minúcias que conferem verossimilhança e consistência ao protagonista. Por exemplo:

"Quando eu era do corpo diplomático efetivo não acreditava em tanta cousa junta, era inquieto e desconfiado; mas, se me aposentei foi justamente para crer na sinceridade dos outros. Que os efetivos desconfiem!"

Outra vertente que me renderia uma postagem exclusiva, ainda como fruto da leitura do Memorial de Aires, seria a discussão sobre a arte da conversa na forma como ela se manifesta no livro: falas, respostas, hesitações, cálculos e sutilezas que são narrados pelo Conselheiro Aires, nas páginas de seu diário, relativas à condução de conversas nos ambientes sociais que frequenta. A informação que obtemos da trama, contada no dia-a-dia registrado no diário, vem da habilidade com a qual o narrador conduz os bate-papos entabulados com um e com outro de suas relações. 

Achei interessantíssimo como ele, em diversas ocasiões, confessa haver tido a intenção de dizer algo, mas ter recuado por julgar inconveniente ou invasivo. Em outras, suscita assuntos, como quem não quer nada, para descobrir as novidades sobre a viúva Fidélia ou sobre o jovem Tristão. Reconhece a maldade de D. Cesária, mas admite sua queda pelas maledicências da senhora. Há momentos, ainda, em que consegue desviar de temas dolorosos e entreter seus interlocutores com amenidades. Essa habilidade liga-se, a propósito, com a profissão do Conselheiro Aires, pois se espera que um diplomata colete informações de bastidores relevantes para seu país, e uma das formas mais corriqueiras de consegui-las é fazer amizades certas, conquistar a confiança delas e ser capaz de seduzir pela conversa. Eis um trecho que ilustra o que digo:

"D. Carmo entendeu acaso que o assunto podia ser enfadonho a estranhos, e trocou as mãos à conversa. Não totalmente, é verdade; falou da casa do Desembargador Campos e do que iria por lá. Eu (habilmente, confesso) querendo saber o estado do coração de Osório, perguntei se ele não estaria lá também, ele, que também é do foro."

Mais pano para manga seria explorar as marcas do gênero "diário" empregadas por Machado de Assis, para engendrar o Memorial de Aires. Assim como há a construção da verossimilhança do narrador-personagem como diplomata aposentado, também se encontram, a serviço do convencimento literário, elementos desse gênero de escrita pessoal, destinado a consignar confidências e registros mais ou menos aleatórios do cotidiano de quem o escreva. Aires, por exemplo, conversa com o papel e discute o que deve ou não incluir em sua superfície. Ele comenta os dias omissos, admite o encurtamento de uma história em razão do cansaço, anota as datas e os horários de inclusão das linhas no diário, questiona-se sobre a finalidade dos textos. Eu já tentei disciplinar-me a escrever diário e vivenciei muito do que Aires revela passar nessa sua atividade. Para além disso, caberia, na postagem que tratasse desse aspecto, discutir como Machado se valeu desse formato, para contar uma história.

"Sete dias sem uma nota, um fato, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque também hoje não tenho que apontar aqui. Escrevi isto só para não perder longamente o costume. Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem pensa nada."

Até este ponto, acho que os aspectos levantados foram primordialmente formais: a construção da personagem narradora, a arte da conversa como meio de revelação do eixo central da trama e as marcas do gênero "diário". A última postagem que faria sobre minha releitura (quer dizer, a penúltima, porque a última poderia ser sobre a experiência das releituras) do Memorial de Aires seria de fundo, de conteúdo: a relação entre a juventude e a velhice. A maioria das personagens é idosa: o próprio Aires, o casal Aguiar, a irmã do diplomata, Rita, e o tio da viúva Fidélia, Desembargador Campos. No vaivém dos dias, eles giram em torno do destino de Fidélia e de Tristão, ambos amados como filhos pelo mencionado casal Aguiar. Mais não digo, para não estruir algum elemento surpresa da narrativa. Dou só um aperitivo:


"... concluí que a mocidade tem o direito de viver e amar, e separar-se alegremente, do extinto e do caduco."

Creio que já vão bastantes linhas para atualizar o blog. Ao mesmo tempo que considero haver transmitido algum gosto da obra, deixo estabelecido um plano de postagens, que só o tempo dirá se virão à luz. Os leitores podem ajudar-me, com pressões e com pitacos, incentivando a realização do projeto. Não preciso dizer a ninguém que o romance é recomendadíssimo, porque estão aí décadas e décadas de críticos sagazes, de acadêmicos rigorosos e de bons leitores a elogiar, com cada milímetro de mérito, a maestria de Machado de Assis na seara da prosa.

07/02/2015

Considerações sobre a "Odisseia"



Estou aproveitando que me deixaram sozinho em casa para atualizar o blog.

Quem acompanha o @palavradeliteratura no Instagram sabe que tenho uma queda especial pela Odisseia. Criei lá uma série em que posto o mesmo trecho dessa obra em diferentes traduções para o português disponíveis no Brasil. 

A Odisseia, como a Ilíada e a Bíblia, são livros fundadores da civilização ocidental. Nós crescemos em contato com várias referências a essas obras, muito frequentemente sem ter consciência disso, alheios à importância que elas tiveram em nossa formação e no modo como nosso mundo simbólico é organizado.

A questão da autoria e da formação de livros como a Odisseia é problemática. Nós contentamo-nos em dizer que os versos originais, em grego clássico, são de Homero, mas os especialistas acadêmicos ainda no presente debatem se ele foi uma pessoa só ou um conjunto de poetas. Chamam esse problema de "a questão homérica". Fazem, nesse esforço, um trabalho de arqueologia que também se aplica aos livros bíblicos, quando abordados histórica e literariamente. 

A forma atual da Odisseia remonta, mais ou menos, ao momento em que uma das mais avançadas sociedades humanas da época, a dos gregos antigos, transitou da vida predominantemente oral para um estágio em que a escrita se disseminou e passou, inclusive, a servir como suporte para as obras poéticas. Por essa posição inaugural, embora sejam reiteradas vezes citadas, de forma manifesta ou indireta, ao longo de toda a história da Literatura no Ocidente, as epopeias de Homero pouco ou nada têm, antes de si, para citarem, a não ser um abismo de tradição oral a que obviamente não temos acesso.

Os grandes dramaturgos gregos, Platão, Aristóteles, o latino Virgílio, o luso Camões, nosso Machado de Assis, no século XIX, e James Joyce, com seu Ulisses, formam uma longa fileira de sumidades literárias que, em quase três milênios, rendem tributo às epopeias homéricas.

Tão perto e tão longe. Apesar de sua presença constante e imperceptível, o fato de ter sido escrita por volta do século VIII a. C., em um contexto de todo diferente do nosso, torna a Odisseia potencialmente problemática para um leitor desavisado. Acho que é o tipo de livro que se deve abordar com obstinação e paciência. Talvez valha a pena ler primeiro em prosa, para familiarizar-se com o conteúdo, e depois, em uma releitura, experimentar o ritmo e o tom de traduções em verso, mais próximas ao original. A intimidade e o deleite vêm com o tempo, em minha opinião. Não é, portanto, uma obra para quem prefere pagar mais caro por um prazer imediato e momentâneo do que negociar com o tempo um prazer maior, mais duradouro e mais em conta.

Em 2015, relerei a Odisseia na tradução de Christian Werner, recém-lançada pela Cosac&Naify (ver postagem sobre as metas de leitura deste ano).

Em postagens futuras, mostrarei, também no blog, como diversos tradutores resolveram a difícil tarefa de verter do grego - ou de recriar para o português - os versos homéricos.

A seguir, minha coleção de edições da Odisseia, pela qual vocês podem inferir o bem que quero a esse livro.

(A primeira que eu comprei foi a da Cultrix, em tradução em prosa de Jaime Bruna, em 05/11/2004, por R$ 22,00. Ela também foi lançada pela Abril, com capa revestida de tecido, e vendida nas bancas de revista. Também está disponível em formato digital.)

(Essa foi minha primeira tradução em verso, talvez a mais famosa no Brasil, de Carlos Alberto Nunes, que também traduziu todos os diálogos de Platão. Essa tradução está disponível em várias edições, como as da Ediouro, da Saraiva/Nova Fronteira e da Hedra. Gosto muito dela.)

 (Essa edição em espanhol, com capa dura, comprei em Madri, em outubro de 2008, em uma banca de revista. Lembro que custou baratíssimo. É da editora Gredos.)

(Tradução do luso Frederico Lourenço, da sempre cuidadosa Companhia das Letras, em parceria com a Penguin)

(A Editora 34 lançou a tradução de Trajano Vieira, Professor da Unicamp, a qual inclui texto de Franz Kafka sobre a Odisseia. A minha é a versão de bolso, mas está disponível também em tamanho maior.)

(Esta edição portuguesa, em dois volumes, foi um de meus presentes de aniversário em 2013, dadas pela mais importante pessoa entre as que escolhi fazerem parte de minha vida.)

(A tradução de Christian Werner apareceu no mercado em 2014, em duas edições da Cosac & Naify: uma muito bonita e outra preciosíssima. A segunda foi meu autopresente de aniversário em 2014. Ela está em minha meta de leitura deste ano.)

(Essa foi a última que comprei, do maranhense Manuel Odorico Mendes, o primeiro a traduzir a Odisseia para a língua portuguesa, ainda no século XIX. A capa é horrível, como quase todas da Martin Claret, que agora tem melhorado isso. A recriação de Mendes é interessantíssima, mas pouco amigável ao leitor contemporâneo.) 




Metas de leitura de 2015: "O anjo pornográfico"



Está na agulha, para leitura ainda este mês, a primeira biografia que lerei no ano, de Ruy Castro, mestre do gênero no Brasil. Trata-se de O anjo pornográfico, publicação da editora Companhia das Letras. Lembram que, na postagem sobre Dois irmãos, mencionei um clube de leitura formado com amigos meus do trabalho? Pois, decidimos encarar a biografia de Nelson Rodrigues. De Ruy Castro, há também as famosas e elogiadas biografias que tomaram por objeto as vidas de Carmem Miranda e de Garrincha.

Estou particularmente interessado pelo gênero "biografia", porque ando com a coceira de escrever uma. Botei na cabeça, por isso, que deveria ler o máximo delas que pudesse, prestando especial atenção à construção, à forma, à organização das informações sobre a vida do biografado, às escolhas do autor sobre o que foi relevante vir a público. Uma de minhas intenções primordiais, com essa leitura, é assimilar a forma. A escolha do grupo veio ao encontro de um de meus projetos.

Pelo fato de tratar da vida de um escritor e provavelmente incluir, por isso, informações sobre o mundo literário da época, com a presença de outros escritores, de intelectuais, de jornalistas e de figuras dos bastidores da cena editorial, nutro a expectativa de também ter acesso a informações históricas de particular interesse para mim, que curto literatura e gosto de escrever. Espero, por exemplo, saber como Nelson Rodrigues publicou seu primeiro livro, se sua inclinação para a escrita surgiu desde cedo, se foi espontânea ou estimulada, se teve crises de criatividade, como encarou eventuais insucessos de público ou de crítica etc.

(Minha edição autografada pelo autor na Bienal do Livro de Brasília em 2014)

Conforme prometi na postagem sobre as metas de leitura para 2015, compartilhei um pouco dos critérios que usei para fazer minhas escolhas de leitura deste ano e transmiti algumas informações elementares sobre o livro que foram importantes para a seleção. Aos poucos, farei o mesmo com os outros títulos da lista deste ano. Igualmente, quando terminar as leituras, voltarei com minhas impressões, com a confirmação ou com a rejeição de minhas expectativas quanto a elas, com informações mais detalhadas que permitam vocês decidirem se vale a pena incluir em suas listas e com minha avaliação geral de 1 a 5 estrelas.

04/02/2015

Meta de leitura 2015: introdução

Achei uma boa comentar com vocês a lista de livros que pretendo ler em 2015. Pretendo explicar o que norteou a escolha dos livros e trocar impressões com @s leitor@s do blog. Também acho que será um bom exercício refletir publicamente sobre a formação dessa lista e, no final do ano, ao olhar retrospectivamente as postagens desta série, avaliar se foi cumprida, o que ficou de fora, o que entrou e não estava previsto e por quê.
Em 2014, pela primeira vez, eu estabeleci uma meta numérica de leitura. Um amigo meu tinha assumido um desafio no Goodreads, uma rede social e aplicativo para leitores, e eu animei-me a seguir o exemplo. Julguei que ler 25 livros seria razoável, tendo em vista o trabalho, as obrigações assumidas, a vida social. Terminei em 30. Com esse resultado, resolvi aumentar em 10%, pelo menos, a nova meta. Para este ano, pretendo ler 33 folhosos, no mínimo, o que resulta em uma média mensal de menos de três, bem factível.
Para escolher os títulos, eu tinha de conciliar minha livre vontade de ler com as leituras que, por projetos pessoais que me atribuí, teriam de ser feitas. Dadas essas condições, criei cinco categorias, pelas quais distribuí os livros que digerirei em 2015.
Uma categoria incluirá os volumes relacionados a minha área de atuação profissional, as Relações Internacionais. Essa foi uma necessidade ainda maior, porque provavelmente darei algumas aulas sobre o tema. 
Outra categoria vincula-se um pouco à carreira, mas provavelmente existiria de qualquer forma, por interesse pessoal: livros em língua estrangeira. Nessa, defini que serão lidos quatro escritos em inglês, dois em espanhol e mais dois em francês. Minha intenção é praticar os idiomas e entreter-me. Um critério essencial é que a obra tenha sido escrita originalmente na língua estrangeira em questão. Por ora, aqueles em espanhol serão El General en su laberinto, de García Márquez, e um de contos do peruano Julio Ramón Ribeyro, que comprei quando estive em Lima. Em inglês, também sujeitos a mudança, serão Oliver Twist, A single man, The remains of the day e Purple hibiscus. Em francês, ainda não defini.



Duas outras categorias ligam-se a um projeto de livro/pesquisa que eu pretendo levar a cabo e a um tema, o Nordeste, que decidi estudar melhor, para poder entender e discutir. Na primeira das categorias citadas, estão, até agora, Fogo morto, O espetáculo das raças e Política e parentela na Paraíba. Na segunda, A invenção do Nordeste, Cangaceiros, Pedra bonita, a biografia de Padre Cícero escrita por Lira Neto e o primeiro volume de Crimes que abalaram a Paraíba, que já está lido.
O quinto grupo é o melhor: chama-se "livre". Nele, eu incluo as leituras que me derem na telha. Quatro já foram: O evangelho segundo Jesus Cristo, Cinzas do Norte, A sombra do meio-dia e Caim. Dos que constam da lista, faltam: Odisseia, em nova tradução de Christian Werner, lançada pela Cosac & Naify (foi meu autopresente de aniversário em 2014); as duas últimas biografias de Getúlio escritas por Lira Neto (autor que está bombando em minha lista, notaram?), O anjo pornográfico, Chatô, O mestre e Margarida e Memorial de Aires.



Aos poucos, vou singularizar cada livro mencionado em um texto próprio, em que detalharei informações sobre eles e explicarei por que despertaram meu interesse e candidataram-se a ocupar meu precioso tempo. E vocês? Fazem lista com metas de leituras? Como as organizam? Já leram, ou pretendem ler algum dos livros que mencionei? Diz aí, vai.