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30/11/2015

Fechamento da CosacNaify e de muitas portas para a esperança de beleza no Brasil dos livros

Acabo de ler que a editora CosacNaify vai fechar as portas. Matéria do Estadão com entrevista de Charles Cosac noticia que o editor e sócio tomou a decisão, porque, a ver o espírito que regeu a formação do perfil da editora ser corrompido pelas determinações de mercado, preferiu encerrar o passado da casa em um lugar seguro. Como bibliófilo e apaixonado, na exata expressão desse adjetivo, pelos livros cuidadosamente gestados pela CosacNaify, fico bem entristecido. A sensação parece com aquela de quando um grande escritor morre, e a gente fica enlutado pelos livros singularmente belos que somente ele escreveria, mas já não escreverá. É uma sensação de solidão, de restrição das possibilidades de comunicar-se, de sair de si e de encontrar outros no caminho. Quando leio um livro de autor assim - e quando tateio, cheiro e perscruto um livro da CosacNaify - sinto-me expressado, comunicado, prazerosamente fora de mim e identificado com os outros: com o escritor, com os demais leitores, com a equipe da editora que artesanou aquele volume com empenho, com desvelo e com ardil de artista que busca a melhor síntese entre forma e conteúdo. A equipe da editora demonstrava acreditar que as obras finamente selecionadas e traduzidas por eles mereciam o figurino não adequado, mas inelutável. A confluência de circunstâncias que permitiu o surgimento e a existência da CosacNaify, nos últimos vinte anos, não irá, infelizmente, repetir-se tão cedo. Que bom que aconteceu, que pena que acabará.

12/03/2015

Diário de leitura: "A desumanização" - parte final


A autopenitência da parte 2 deste diário de leitura fez-me acordar cedo, como combinei comigo mesmo, ler 30 páginas de A desumanização e, um pouco mais tarde, aproveitar tempos livres esparsos para dar cabo das vinte páginas restantes. Com isso, encerrei a leitura de meu primeiro romance  de Valter Hugo Mãe, muito influenciado por Marcela Yoneda e por Literaterapia. A impressão que manifestei na parte 1 do diário sobre o livro confirmou-se: o autor tem talento cinco estrelas, com uma capacidade metafórica e imagética sensacional em sua escrita, mas o livro, considerado em sua inteireza, só mereceu três estrelas de minha parte (para entender melhor meus critérios com as estrelas, favor ler o segundo parágrafo desta postagem), porque achei o enredo esvaziado. Recomendo abordar esse livro não com expectativa de romance, mas como se fosse de poesia. Acho que faria uma apreciação melhor dele, se houvesse modulado minha expectativa de acordo com essa recomendação.

11/03/2015

Diário de leitura: "A desumanização" - parte 2


Hoje vou fazer uma postagem de preguiçoso, porém os leitores fingirão que não notaram, e nossa amizade seguirá firme e cordial. Não avancei na leitura de A desumanização, quando já deveria tê-la concluído. No Dia das Mulheres, preferi dedicar meu tempo a Chimamanda Adichie e a Virginia Woolf, como os dois textos do final de semana comprovam. Ontem e hoje, não encontrei forças para desgarrar-me dos lençóis e fazer minha sessão matinal de leitura, sempre com o auxílio do café, antes de aprontar-me para o dia de trabalho. Dormi vergonhosamente até o último segundo possível e atrasei minha agenda. 

09/03/2015

Diário de leitura: "A desumanização" - parte 1

Faz uma semana que comecei a ler A desumanização, de Valter Hugo Mãe, e nada de escrever o diário de leitura prometido. Como o livro é curtinho, tem 150 páginas, chego com o primeira postagem do diário depois de lidos dois terços do romance. Vão algumas impressões.

08/03/2015

"Mulheres e ficção", ensaio de Virginia Woolf


Como prometido na postagem passada, dedicarei alguns parágrafos a comentar o ensaio "Mulheres e ficção", escrito por Virginia Woolf e publicado em uma coletânea da Cosac Naify chamada O valor do riso. A escritora britânica publicou esse texto originalmente na revista Forum, de Nova York, em 1929, já lá se vão quase noventa anos de mudanças vertiginosas no comportamento, nos valores sociais e nas discussões sobre gênero. No ensaio, Woolf problematiza os fatores que condicionam o ato da escrita por mulheres e relaciona - para minha surpresa, mas talvez não sem fundamento - certos gêneros literários ao gênero de quem escreve.

02/03/2015

Rapidinha de final de livro

Ontem à noite, despedi-me de O Anjo Pornográfico como se fora de uma amizade inesperada que partisse depois de nos acostumarmos com sua companhia sempre cheia de ação e de interesse, de uma beleza discreta e indubitável subjacente ao convívio. Nelson Rodrigues é uma personagem ideal de biografia, cheio de defeitos e de talentos, de paixões e de gestos generosos para além do óbvio. Cativante. Nada melhor para uma biografia arrebatadora do que uma pessoa que fez da vida uma batalha resoluta e diuturna contra a unanimidade e a corrente do comum e do normal. Essa rapidinha é o prenúncio do texto que está por vir sobre o livro de Ruy Castro.

***

Ontem também comprei, na Livraria Cultura, A desumanização, do português Valter Hugo Mãe. Edição da Cosac Naify, obviamente bela. Já estou grifando alucinadamente, porque o livro é curto, mas a prosa é intensa, repleta de imagens vivíssimas. Um aperitivo:

"A minha mãe disse que era um pequeno vulcão. São as flores das mulheres. São de sangue. São de lume. Magoam. Todos me falavam de passar a ser mulher e sobre o que isso significava de perigo e condenação. Ser mulher, explicavam, era como ter o trabalho todo do que respeita à humanidade."

07/02/2015

Considerações sobre a "Odisseia"



Estou aproveitando que me deixaram sozinho em casa para atualizar o blog.

Quem acompanha o @palavradeliteratura no Instagram sabe que tenho uma queda especial pela Odisseia. Criei lá uma série em que posto o mesmo trecho dessa obra em diferentes traduções para o português disponíveis no Brasil. 

A Odisseia, como a Ilíada e a Bíblia, são livros fundadores da civilização ocidental. Nós crescemos em contato com várias referências a essas obras, muito frequentemente sem ter consciência disso, alheios à importância que elas tiveram em nossa formação e no modo como nosso mundo simbólico é organizado.

A questão da autoria e da formação de livros como a Odisseia é problemática. Nós contentamo-nos em dizer que os versos originais, em grego clássico, são de Homero, mas os especialistas acadêmicos ainda no presente debatem se ele foi uma pessoa só ou um conjunto de poetas. Chamam esse problema de "a questão homérica". Fazem, nesse esforço, um trabalho de arqueologia que também se aplica aos livros bíblicos, quando abordados histórica e literariamente. 

A forma atual da Odisseia remonta, mais ou menos, ao momento em que uma das mais avançadas sociedades humanas da época, a dos gregos antigos, transitou da vida predominantemente oral para um estágio em que a escrita se disseminou e passou, inclusive, a servir como suporte para as obras poéticas. Por essa posição inaugural, embora sejam reiteradas vezes citadas, de forma manifesta ou indireta, ao longo de toda a história da Literatura no Ocidente, as epopeias de Homero pouco ou nada têm, antes de si, para citarem, a não ser um abismo de tradição oral a que obviamente não temos acesso.

Os grandes dramaturgos gregos, Platão, Aristóteles, o latino Virgílio, o luso Camões, nosso Machado de Assis, no século XIX, e James Joyce, com seu Ulisses, formam uma longa fileira de sumidades literárias que, em quase três milênios, rendem tributo às epopeias homéricas.

Tão perto e tão longe. Apesar de sua presença constante e imperceptível, o fato de ter sido escrita por volta do século VIII a. C., em um contexto de todo diferente do nosso, torna a Odisseia potencialmente problemática para um leitor desavisado. Acho que é o tipo de livro que se deve abordar com obstinação e paciência. Talvez valha a pena ler primeiro em prosa, para familiarizar-se com o conteúdo, e depois, em uma releitura, experimentar o ritmo e o tom de traduções em verso, mais próximas ao original. A intimidade e o deleite vêm com o tempo, em minha opinião. Não é, portanto, uma obra para quem prefere pagar mais caro por um prazer imediato e momentâneo do que negociar com o tempo um prazer maior, mais duradouro e mais em conta.

Em 2015, relerei a Odisseia na tradução de Christian Werner, recém-lançada pela Cosac&Naify (ver postagem sobre as metas de leitura deste ano).

Em postagens futuras, mostrarei, também no blog, como diversos tradutores resolveram a difícil tarefa de verter do grego - ou de recriar para o português - os versos homéricos.

A seguir, minha coleção de edições da Odisseia, pela qual vocês podem inferir o bem que quero a esse livro.

(A primeira que eu comprei foi a da Cultrix, em tradução em prosa de Jaime Bruna, em 05/11/2004, por R$ 22,00. Ela também foi lançada pela Abril, com capa revestida de tecido, e vendida nas bancas de revista. Também está disponível em formato digital.)

(Essa foi minha primeira tradução em verso, talvez a mais famosa no Brasil, de Carlos Alberto Nunes, que também traduziu todos os diálogos de Platão. Essa tradução está disponível em várias edições, como as da Ediouro, da Saraiva/Nova Fronteira e da Hedra. Gosto muito dela.)

 (Essa edição em espanhol, com capa dura, comprei em Madri, em outubro de 2008, em uma banca de revista. Lembro que custou baratíssimo. É da editora Gredos.)

(Tradução do luso Frederico Lourenço, da sempre cuidadosa Companhia das Letras, em parceria com a Penguin)

(A Editora 34 lançou a tradução de Trajano Vieira, Professor da Unicamp, a qual inclui texto de Franz Kafka sobre a Odisseia. A minha é a versão de bolso, mas está disponível também em tamanho maior.)

(Esta edição portuguesa, em dois volumes, foi um de meus presentes de aniversário em 2013, dadas pela mais importante pessoa entre as que escolhi fazerem parte de minha vida.)

(A tradução de Christian Werner apareceu no mercado em 2014, em duas edições da Cosac & Naify: uma muito bonita e outra preciosíssima. A segunda foi meu autopresente de aniversário em 2014. Ela está em minha meta de leitura deste ano.)

(Essa foi a última que comprei, do maranhense Manuel Odorico Mendes, o primeiro a traduzir a Odisseia para a língua portuguesa, ainda no século XIX. A capa é horrível, como quase todas da Martin Claret, que agora tem melhorado isso. A recriação de Mendes é interessantíssima, mas pouco amigável ao leitor contemporâneo.) 




04/02/2015

Meta de leitura 2015: introdução

Achei uma boa comentar com vocês a lista de livros que pretendo ler em 2015. Pretendo explicar o que norteou a escolha dos livros e trocar impressões com @s leitor@s do blog. Também acho que será um bom exercício refletir publicamente sobre a formação dessa lista e, no final do ano, ao olhar retrospectivamente as postagens desta série, avaliar se foi cumprida, o que ficou de fora, o que entrou e não estava previsto e por quê.
Em 2014, pela primeira vez, eu estabeleci uma meta numérica de leitura. Um amigo meu tinha assumido um desafio no Goodreads, uma rede social e aplicativo para leitores, e eu animei-me a seguir o exemplo. Julguei que ler 25 livros seria razoável, tendo em vista o trabalho, as obrigações assumidas, a vida social. Terminei em 30. Com esse resultado, resolvi aumentar em 10%, pelo menos, a nova meta. Para este ano, pretendo ler 33 folhosos, no mínimo, o que resulta em uma média mensal de menos de três, bem factível.
Para escolher os títulos, eu tinha de conciliar minha livre vontade de ler com as leituras que, por projetos pessoais que me atribuí, teriam de ser feitas. Dadas essas condições, criei cinco categorias, pelas quais distribuí os livros que digerirei em 2015.
Uma categoria incluirá os volumes relacionados a minha área de atuação profissional, as Relações Internacionais. Essa foi uma necessidade ainda maior, porque provavelmente darei algumas aulas sobre o tema. 
Outra categoria vincula-se um pouco à carreira, mas provavelmente existiria de qualquer forma, por interesse pessoal: livros em língua estrangeira. Nessa, defini que serão lidos quatro escritos em inglês, dois em espanhol e mais dois em francês. Minha intenção é praticar os idiomas e entreter-me. Um critério essencial é que a obra tenha sido escrita originalmente na língua estrangeira em questão. Por ora, aqueles em espanhol serão El General en su laberinto, de García Márquez, e um de contos do peruano Julio Ramón Ribeyro, que comprei quando estive em Lima. Em inglês, também sujeitos a mudança, serão Oliver Twist, A single man, The remains of the day e Purple hibiscus. Em francês, ainda não defini.



Duas outras categorias ligam-se a um projeto de livro/pesquisa que eu pretendo levar a cabo e a um tema, o Nordeste, que decidi estudar melhor, para poder entender e discutir. Na primeira das categorias citadas, estão, até agora, Fogo morto, O espetáculo das raças e Política e parentela na Paraíba. Na segunda, A invenção do Nordeste, Cangaceiros, Pedra bonita, a biografia de Padre Cícero escrita por Lira Neto e o primeiro volume de Crimes que abalaram a Paraíba, que já está lido.
O quinto grupo é o melhor: chama-se "livre". Nele, eu incluo as leituras que me derem na telha. Quatro já foram: O evangelho segundo Jesus Cristo, Cinzas do Norte, A sombra do meio-dia e Caim. Dos que constam da lista, faltam: Odisseia, em nova tradução de Christian Werner, lançada pela Cosac & Naify (foi meu autopresente de aniversário em 2014); as duas últimas biografias de Getúlio escritas por Lira Neto (autor que está bombando em minha lista, notaram?), O anjo pornográfico, Chatô, O mestre e Margarida e Memorial de Aires.



Aos poucos, vou singularizar cada livro mencionado em um texto próprio, em que detalharei informações sobre eles e explicarei por que despertaram meu interesse e candidataram-se a ocupar meu precioso tempo. E vocês? Fazem lista com metas de leituras? Como as organizam? Já leram, ou pretendem ler algum dos livros que mencionei? Diz aí, vai.

02/02/2015

Visita à livraria

Ontem visitei a Livraria Cultura (Shopping Iguatemi Brasília) e encontrei livros da Cosac&Naify com 40% de desconto. Vários folhosos preciosos! Nenhuma editora consegue equiparar-se à Cosac&Naify, quando se trata de fazer livros belos. Eles aprazem aos olhos, ao tato e ao olfato. A editora explora magistralmente as possibilidades estéticas do objeto livro. Só não arrisquei ainda lamber ou escutar as páginas, mas são tão estimulantes, que não tardo a experimentar fazê-lo. Além disso, a seleção editorial é espetacular. Na visita de ontem, comprei um de ensaios de Virginia Woolf, "O valor do riso", e o romance russo "Oblómov", de Ivan Goncharov, em tradução de Rubens Figueiredo. 

(Comprei por indicação de um amigo, um dos leitores mais interessantes que conheço)

(Comprei, porque gosto de ensaios, e havia alguns bem interessantes, como os que tratam da experiência de leitura)