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13/01/2016

Livraria do Luiz

Ontem visitei a Livraria do Luiz, e foi uma redenção. Buscava livros de autores paraibanos, e o melhor lugar para garimpá-los atualmente, na capital do Estado, é lá. O atendimento está diligente, pode-se tomar um espresso São Braz enquanto se folheiam os livros pré-selecionados, e o ambiente parece bem apresentável. Antes ou depois de cavoucar estantes, tem-se a oportunidade de circular pelas calçadas do Centro, de rever as fachadas do Palácio da Redenção, da faculdade de Direito, do Tribunal de Justiça e a mais moderna da Assembleia. Ir lá é também uma forma de homenagear a memória de Augusto dos Anjos, cujo busto preside à entrada da galeria que leva seu nome e abriga a livraria.

Palácio da Redenção e parte da fachada da faculdade de Direito vistos da Praça João Pessoa.



31/08/2015

"A conquista da felicidade" - Diário de leitura

Um de meus divertimentos favoritos é visitar livrarias. Aqui em Brasília, as que me proporcionam mais prazer são quaisquer uma das duas lojas da Livraria Cultura existentes na capital federal. Nelas sinto que a experiência bibliófila ainda é considerada, não se trata de mero comércio de livros. Não tem - nem poderia ter - o charme, a beleza e a singularidade de uma Shakespeare & Co ou de uma Lello, que são citadas em livros e em filmes e se transformaram em pontos turísticos, respectivamente, em Paris e no Porto, porém a Livraria Cultura consegue equilibrar bem a necessidade de lucro com a preservação de um ambiente amigável a quem tem paixão por esse secular objeto, com formato simples e funcional, carregado de mundos dentro de si.
Pois bem, esse trololó todo foi para introduzir o primeiro (e talvez único) diário de leitura de A conquista da felicidade, de Bertrand Russell, filósofo e matemático britânico que viveu na transição entre os séculos XIX e XX. A Livraria Cultura, em parceria com a editora Nova Fronteira, lançou uma série de edições em capa dura, com tratamento gráfico simpático, composta por livros, de alguma forma ou em certo sentido, clássicos. Um deles é o que comento aqui. Não o conhecia, mas a seu autor, sim. Formado que sou em Filosofia, tenho um bom livro dele sobre a história da matéria. Além disso, há outro, mais ou menos na mesma linha, que ficou razoavelmente conhecido no Brasil, o História do Pensamento Ocidental. Tendo ótimas referências de Russell, assim como da qualidade de tudo quanto envolve a Livraria Cultura, interessei-me pelo livrinho de capa dura laranja, com meras 160 páginas, sobre um assunto que não poderia ser de maior interesse: a felicidade.
Antes de adentrar o conteúdo da parte já lida até o presente, como este é um blog eminentemente sobre leitura e sobre livros, em que as escolhas e os métodos importam, devo acrescentar que A conquista da felicidade furou a fila agora, porque o clube de leitura que mantive, por alguns meses, com colegas de trabalho, foi retomado. Depois de discutirmos longamente sobre vários critérios e formarmos uma lista de obras de interesse comum, sobre as quais cada um teria poder de veto, decidimos recomeçar os trabalhos com esse. Sendo curto, e considerando as obrigações, inclusive de leitura, que todos temos, pareceu sensato não reiniciar com grandes ambições. Já me interessara pelo livro, mas o impulso decisivo foi o que venho de explicitar.
Para que se entenda minha apreciação momentânea do livro, a qual, adianto, não é boa, confesso que as expectativas eram altas. Eu estava curioso por verificar como um filósofo e matemático de envergadura intelectual razoável, cético e ateu confesso em uma época em que isso era mais socialmente impactante do que ainda é, trataria o tema da felicidade, objeto de tantos livros de autoajuda e de religião corriqueiramente banais e fáceis, lotados de clichês e de frases digeríveis, porque superficiais. Dificilmente se fala em felicidade sem uma busca de sentido para a vida fora dela.
O comentário desse diário de leitura considera os primeiros 30% do livro. Estou nos primeiros capítulos da parte I, intitulada "Causas da infelicidade". Infelizmente, o tom do autor parece sempre ser de superioridade, como se a vivência individual dele fosse referência para o resto da humanidade, sem que, para isso, demonstre ter vivido algo realmente revelador e de interesse comum. Em um dos passos mais confessionais até o presente, ele limitou-se a dizer que odiava a vida na adolescência e "estava continuamente à beira do suicídio", mas apaixonou-se pela matemática e aprendeu "a ser indiferente" a si e a suas deficiências. Falta aí a necessária minúcia para convencer-nos de que o aprendizado dele foi ilustrativo e pode ser aproveitado por todos. Como em toda narrativa, não importa tanto o quê quanto o como.
Logo nas primeiras páginas, deparei-me com juízos preconceituosos que, se, por um lado, podem ser atribuídos à época e seriam perdoáveis mesmo a pessoas de pensamento mais avançado então, por outro, dão um fastio em quem os lê atualmente e não é recompensado dessas opiniões superadas - para dizer o mínimo - por um conteúdo excepcional quanto à conquista da felicidade. Ao exemplificar como as pessoas não aproveitam a vida devidamente, Bertrand Russell vem-me com esta:
"Vez por outra, num veículo lotado, pessoas negras dão mostras de estarem se divertindo, mas despertam indignação por causa desse comportamento excêntrico e acabam caindo nas mãos da polícia devido a um fato: ficar alegre por ocasião de feriados é ilegal." 
Mais à frente, quando anuncia o objetivo do livro, diz que é sugerir uma cura (!) "para a infelicidade cotidiana normal que se abate sobre quase todas as pessoas nos países civilizados". 
Calma, que lá vem mais:

"Um homem que nunca tenha desfrutado o belo em companhia da mulher que ama não experimentou plenamente o poder mágico de que são capazes todos esses prazeres." 
"As pessoas, cuja perspectiva da vida faz com que sintam tão pouca felicidade em fazer filhos acham-se biologicamente condenadas. Não demorará muito até que sejam substituídas por algo mais alegre e festivo." 

Já nutro robustas dúvidas sobre a capacidade de Russell dizer-me algo muito relevante sobre a felicidade, até o final do livro, depois dessas pérolas. A felicidade, na opinião dele, está aparentemente vinculada a uma visão estereotipada do desenvolvimento e das pessoas de pele negra. O texto é antipaticamente indiferente às pessoas que não mantêm relação erótico-amorosa com mulheres e muito provavelmente, ao imaginar a pessoa destinatária de seu livro, não estava pensando em lésbicas, mas sim em homens heterossexuais como ele. Por último - e lembro que estou comentando pouco menos do primeiro terço da obra -, o autor relaciona idiotameante a decisão de não ter filhos a uma condenação biológica.
Acho que idealmente um livro sobre a felicidade deveria tornar o leitor feliz pelos recursos que a linguagem escrita oferece. A forma deveria participar da felicidade de que se trata. Por exemplo, pode ser lúdico, mobilizar figuras de linguagem, fazer esquecer o tempo e dar vontade de continuar lendo, como quem, por estar feliz, não nota o relógio girar. Não é o caso de A conquista da felicidade, até a parte em que parei, o que é mais grave, quando se considera que não é um livro técnico ou rigorosamente teórico.
Espero voltar com opinião mais favorável depois.

17/02/2015

Rapidinha (de Carnaval) 2

Conforme programado, talvez com um pouco de atraso, terminei a leitura meio obrigatória de História das Relações Internacionais Contemporâneas, que estabeleci como condição para iniciar O Anjo Pornográfico. No meio do caminho, porém, tinha uma ida à livraria, de onde saí, no sábado de Carnaval, com os três livros que postei no Instagram. Comecei a ler Literatura Brasileira: modos de usar, do professor da UFRGS Luís Augusto Fischer, ainda no shopping onde o comprei, e terminei-o só um pouco depois do de Relações Internacionais. 


Vim só dar notícias, dizer que atribuí quatro estrelas ao livrinho de Fischer - que será objeto de postagem própria - e consignar minha alegria de começar a virar as páginas da biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, com grandes expectativas.

09/02/2015

Leitura a lápis

Hoje o dia no trabalho foi pesado, cheio de responsabilidades. Depois do expediente, joguei pouco mais de duas horas de tênis, que relaxa e ajuda a saúde. Cheguei bem disposto para atualizar o blog.

No clube de leitura formado pelo pessoal de meu trabalho, a que me referi na postagem sobre Dois irmãos, surgiu uma discussão sobre grifar e anotar os livros. Já há algum tempo, esse assunto me surgiu como bom mote para uma postagem. Como o Palavra de Literatura é, lato sensu, um espaço da bibliofilia, cabem umas pinceladas sobre isso.


Eu, em meus primeiros anos de leitor, tive uma fase de veneração pelo livro como objeto. Nada de riscar, de anotar, de usar a orelha como marcador de página e, heresia das heresias, de abrir o coitado do folhoso como um caderno de arame, de forma que uma capa encostasse na outra. Meu pai, quando via uma traça saracotear para fora de um amontoado de papéis, xingava demais o coitado do bicho, o que sugere uma das fontes de meu zelo pelos livros. Creio que nunca cheguei a ser doentio nesse cuidado, mas sentia raiva de quem amassasse, dobrasse, riscasse, ou maculasse os de minha propriedade. Para preservar a amizade, era melhor nem emprestar.


Uma professora minha de português, posteriormente também patroa no curso dela e uma das principais incentivadoras, tanto pelo exemplo quanto pelo discurso, de minha paixão pelos livros, começou a quebrar o tratamento sacrossanto que eu dedicava a eles. Lembro que, certa vez, depois que eu lhe devolvi um exemplar emprestado, ela lamentou que eu não o tivesse grifado nem anotado, porque tinha curiosidade de saber o que chamara minha atenção naquela prosa. Era uma obra de Juan José Saer, escritor argentino, intitulada O enteado (recomendo!).




Outro motivo para ter mudado minha reticência quanto aos grifos e às notas foi a leitura de Como se faz uma tese, de Umberto Eco. Meu exemplar ficou no Nordeste (eu moro em Brasília), mas, felizmente para mim e para vocês, encontrei com facilidade o trecho que me interessava mostrar-lhes. Depois de dar várias instruções sobre como e por que grifar, leia-se o que diz Umberto Eco sobre a intocabilidade dos livros, o que vai em português europeu, que foi o que achei:


"Os sublinhados personalizam o livro. Assinalam as pistas do nosso interesse. Permitem-nos voltar ao mesmo livro muito tempo depois, detectando imediatamente aquilo que nos havia interessado."


"Se o livro é vosso e não tem valor de antiguidade, não se deve hesitar em anotá-lo. Não deveis dar crédito àqueles que dizem que os livros são intocáveis. Os livros respeitam-se usando-os e não deixando-os quietos."




Depois desse conselho de um dos mais importantes pensadores vivos atualmente, relaxei. Não foi só questão de autoridade: ele convenceu-me. Parece-me que mais vale garantir o prazer e a utilidade de, ao passar em revista um livro lido, reencontrar-se com os momentos marcantes da leitura, do que deixá-lo intocado. Fiquei tão persuadido, que passei a grifar com caneta. Sublinhava, comentava, discordava, exclamava, tudo naquele azul Bic indelével de esferográfica comum. O resultado foi que minha inexperiência traduzia-se em alguma falta de critério, e, aos poucos, notei que, ao folhear títulos já lidos, discordava da relevância de certos destaques. Foi o caso, por exemplo, daquela minha edição da Odisseia publicada pela Cultrix, que viu quem leu a postagem sobre minha coleção de traduções dessa obra.


O arrependimento do grifo não é algo tão grave. Sempre se pode encarar um realce que a gente descredencia depois como um registro histórico, como rastro de nosso passado mental. O confronto com ele pode ser motivo para reflexões proveitosas. De todo modo, a experiência conduziu-me ao estado atual em que espalho lápis por onde posso e sempre tenho um à mão, para a leitura da vez. Leio a lápis tanto quanto a olhos. Quando me dano a ler desarmado de um coto que seja de grafite e deparo com um trecho bonito, interessante, palpitante, é comum interromper o fluxo, pelo medo de, passando as páginas, esquecer-me dele depois. 


(Meus grifos em Memorial de Aires, de Machado de Assis: leitura em caneta, releitura em grafite)


Há quem alimente um ideal de isenção e independência e não queira nem influenciar nem ser influenciado pelos grifos alheios, ao ler um livro. Quem pensa assim usa esse argumento, para falar contra os riscos nas páginas. Não sabem que, quando levantamos a capa, nossa mente vem já grifada e anotada por inúmeras influências do mundo, e essa suposta independência de nossa leitura não passa mesmo de um ideal. A leitura é sempre sua, mesmo com condicionalidades e determinações externas.

Termino esta postagem com a citação de um de meus dez filmes mais queridos, que desperta enorme carga emocional em mim, cada vez que o revejo. Se você que me lê adora livros e se considera um bibliófilo tem obrigação de assistir a Nunca te vi, sempre te amei (84 Charing Cross Road). Certamente farei uma postagem exclusiva para essa película, mas vale dizer algo a respeito do enredo, para contextualizar a citação. Imagine-se uma escritora de humor fino, personalidade forte, inteligência aguda, na margem ocidental do Atlântico, em Nova York, interpretada por Anne Bancroft; no outro lado do mesmo oceano, em Londres, um livreiro sereno, contido, culto e diligente interpretado por Anthony Hopkins. 




Agora pensem em um filme quase todo construído sobre as cartas, as ordens de compra e as remessas de livros entre ambos. A amizade entre a escritora e os funcionários da livraria londrina enseja o envio por eles de um exemplar para ela, à guisa de presente. Como bons profissionais do ramo, mandam uma mensagem escrita à parte, em um cartão, não no livro. A seguir, leiam o que diz Helene Hanff, a presenteada, sobre tudo isso, que traduz perfeitamente o que sinto sobre grifos e anotações em livros (primeiro minha tradução livre, depois o original em inglês):




"Muito mau vocês terem sido tão exageradamente cuidadosos, que me escreveram em um cartão, em vez de fazê-lo na folha de rosto. É o livreiro dentro vocês todos. Recearam desvalorizar o livro. Teriam aumentado seu valor para esta dona e possivelmente para os futuros donos. Eu adoro inscrições em folhas de rosto e anotações nas margens. Gosto da sensação de camaradagem ao passar páginas que outra pessoa passou e ao ler passagens para as quais alguém, muito tempo atrás, chamou minha atenção."


"Too bad you were so over-courteous and put the inscription on a card instead of on the flyleaf. It's the bookseller in you all. You were afraid you'd decrease its value. You'd have increased it for this owner and possibly for future owners. I love inscriptions on flyleaves and notes in margins. I like the comradely sense of turning pages someone else turned and reading passages someone long gone has called my attention to."

02/02/2015

Visita à livraria

Ontem visitei a Livraria Cultura (Shopping Iguatemi Brasília) e encontrei livros da Cosac&Naify com 40% de desconto. Vários folhosos preciosos! Nenhuma editora consegue equiparar-se à Cosac&Naify, quando se trata de fazer livros belos. Eles aprazem aos olhos, ao tato e ao olfato. A editora explora magistralmente as possibilidades estéticas do objeto livro. Só não arrisquei ainda lamber ou escutar as páginas, mas são tão estimulantes, que não tardo a experimentar fazê-lo. Além disso, a seleção editorial é espetacular. Na visita de ontem, comprei um de ensaios de Virginia Woolf, "O valor do riso", e o romance russo "Oblómov", de Ivan Goncharov, em tradução de Rubens Figueiredo. 

(Comprei por indicação de um amigo, um dos leitores mais interessantes que conheço)

(Comprei, porque gosto de ensaios, e havia alguns bem interessantes, como os que tratam da experiência de leitura)