28/02/2015

Mais "Memorial de Aires", John Gledson e a crítica literária

                                   "... a traição do leitor é o desenvolvimento lógico dos modelos de traição dentro dos enredos dos romances e dos contos (de Machado de Assis)."

"... permitindo ao tolo contar sua própria história, Machado faz com que ele pareça sábio."

(John Gledson)


O britânico John Gledson está entre os mais prolíficos e respeitados leitores de Machado de Assis atualmente e foi um grande responsável pela internacionalização do prestígio do brasileiro. Em 1986, publicou Machado de Assis: ficção e história, com uma inovadora interpretação de cunho histórico dos principais romances machadianos. Na apresentação à obra, Nicolau Sevcenko, Professor da USP falecido no ano passado, classifica os livros entre os que marcam épocas, os que mudam um campo de estudos e os que "reconfiguram a percepção de um repertório já conhecido". Diz, em seguida, que o de Gledson logra encaixar-se nas três categorias. Depois de terminar a releitura do Memorial de Aires, aproveitei que o enredo e a forma estavam frescos em minha mente e fui ao capítulo de Gledson sobre ele.

26/02/2015

Diário de Leitura: "O Anjo Pornográfico" - parte 4

Não registrei ainda meu espanto, ao ler na biografia que, com 21 anos, todos os dentes de Nelson Rodrigues foram extraídos, e, em seu lugar, uma dentadura passou a cumprir as funções de cortar, rasgar e moer. O motivo? Tinha uma febre persistente, mas as radiografias dos pulmões não confirmavam o diagnóstico mais provável: tuberculose. Para tentar descobrir o foco infeccioso que originava a febre, em uma época em que a estreptomicina não estava disponível no mercado a fim de atacar as bactérias via corrente sanguínea, era comum debastarem caninos, molares e incisivos, corriqueiros acoitadores de infecções. Logo depois, a tuberculose deu as caras em forma de manchas pulmonares nas chapas de raio-x.

***

A gente ouve falar em Oswald de Andrade quando estuda a Semana de 1922 e depois nunca mais. Fiquei surpreso ao saber que o vanguardista Oswald estava vivo na década de 1950, apesar de "desdentado, falido e doente". Qual não foi minha supresa ainda maior, quando li que o debochado incendiário Oswald de Andrade chegou a defender, em coluna de jornal, a criação de uma "'polícia literária' que impedisse a obra de Nelson de passar de um 'folhetim de jornalão de quinta classe'". De Cecília Meireles e Nelson Rodrigues, chegou a dizer que eram "autores de livros analfabetos, que nunca deveriam ter sido escritos". O guerreiro de 1922, segundo Ruy Castro, ansiava por uma polêmica com Nelson, que não entrou na onda. A história está cheia de exemplos de gente que se contradiz assim: uma hora é visionária, outra hora, grosseiramente cega. Um de meus maiores medos é protagonizar na vida uma incoerência gigante como essa.

***

O jornal do pai de Nelson Rodrigues foi empastelado na Revolução de 1930, porque era intimamente ligado ao grupo político deposto, representado pelo paulista Washington Luís. Em meados da década de 1950, a família Rodrigues conseguiu na Justiça o direito a uma indenização pela perda. Os filhos comparam um apartamento para a mãe viúva e dividiram o restante da bolada. As leitoras e eu provavelmente investiríamos esse dinheiro para gerar renda e, com alguma perícia, ampliá-lo. Stella Rodrigues, a irmã médica de Nelson, resolveu usar sua cota para adaptar para o teatro um romance que publicara em 1945 e montar o espetáculo. Na melhor tradição familiar, não apenas gastou seu dinheiro, como também se envolveu em polêmica com seus colegas de profissão, alvos das críticas de Tire a máscara, doutor!

25/02/2015

Diário de leitura: "O anjo pornográfico" - parte 3

Desde a última página do diário de leitura de O Anjo Pornográfico, vamos ao que me chamou mais atenção.
Nelson Rodrigues, depois de fazer muito sucesso com Vestido de noiva, começou a enfrentar problemas com a censura. Por ironia, esses problemas passaram a existir depois da redemocratização do país, com a saída de Getúlio da Presidência. Cada peça escrita por Rodrigues, nessa época, como Álbum de família, O anjo negro e Doroteia, precisaria do auxílio de uma campanha movida por ele e por seus amigos, que envolvia, inclusive, pedido de parecer a um padre, oferecimento de jantar ao Ministro da Justiça e indicação de uma comissão de arbitramento composta por intelectuais isentos, para avaliar a liberação da peça. No caso de Doroteia, Nelson submeteu-a ao crivo dos censores como sendo de outro autor, um amigo seu, pois já se considerava maldito.
Também ressalta das últimas páginas lidas a criação de Suzana Flag. Como mais uma forma de ganhar dinheiro escrevendo, Nelson Rodrigues engendra folhetins bastante exitosos travestido dessa escritora com sobrenome estrangeiro, isso uma estratégia de marketing. Ruy Castro conta que Rodrigues tinha grande preocupação em não descobrirem que ele era o verdadeiro inventor daquelas narrativas. Grande propagandista, o dramaturgo consagrado temia que aquelas páginas maculassem sua reputação de artista da palavra. Os folhetins, depois publicados em livro, renderam a Nelson um bom dinheiro. A ideia deu tão certo, que depois ele criaria Myrna e, sob esse disfarce, ficaria encarregado de uma seção de jornal em que respondia a cartas de leitoras, como uma que teve os cabelos raspados pela mãe, para que não saísse de casa.
Merece um parágrafo à parte a montagem de O anjo negro, cujo papel-título foi escrito para Abdias do Nascimento, amigo de Nelson. Embora a peça tenha passado pela peneira da censura, o Teatro Municipal não autorizou a atuação de um ator negro. A montagem foi estrelada por um branco pintado de graxa. Essa idiotice ocorreu há pouco mais de meio século; outros ignominiosos penduricalhos de uma mentalidade pedestre permanecem, e tomara que se vão depressa. Ainda sobre esse assunto, deu vontade de ler um livro de Mário Filho, irmão de Nelson, citado no capítulo 17 de O Anjo Pornográfico: O negro no futebol brasileiro, que Ruy Castro diz ser a obra máxima de Mário, "uma espécie de Casa-grande & senzala urbana, um livro equivalente na historiografia racial ao de Gilberto Freyre. Se Castro tiver mesmo razão, não é pouca coisa.
Termino a página de hoje com algumas palavras de literatura aparecidas nas últimas páginas lidas:

Sua relação com qualquer tipo de documento era patafísica. Nelson perdia sua carteira profissional; a custo tirava outra no Ministério do Trabalho; tempos depois achava a carteira original e ficava com duas; em seguida, perdia ambas; depois de tirar uma terceira via, achava as duas primeiras. E todas iam sendo carimbadas e anotadas por funcionários tão patafísicos quanto ele

Dito assim, pode-se pensar que Nelson enfrentava problemas em casa ou que seu casamento com Elza, tendo sobrevivido à acídia dos sete anos, estivesse começando a deslizar pela ribanceira.

"Precisamos acabar com esse preconceito de que o público brasileiro é alvar, só sabe rir."

Se Álvaro Lins, que era Álvaro Lins, achava isso, que importava para Nelson que aquela plateia de lorpas e pascácios não lhe tivessem dado bola?

Oliver Sacks ensina a ler

Hoje quero tratar de leitura sim, mas entendida amplamente. De uma forma bem óbvia, o ato de ler é ininterrupto enquanto estamos em vigília, e haverá até quem diga que, durante o sono, continua. Não me refiro à decodificação de um sistema de escrita, como bem já entenderam leitoras mais sagazes. Toda nossa relação com o mundo é mediada por interpretação, por decodificação, por leitura: de texto escrito, de fisionomias, de um jogo de futebol, do mapa de uma cidade. Não nos cansemos na tentativa de exaurir as possibilidades desse rol. O que me motivou a escrever sobre isso foi uma espécie de carta que o escritor e cientista Oliver Sacks publicou no New York Times com um balanço da própria vida, após descobrir-se portador de um câncer em estado terminal.
Lembro como os títulos de Oliver Sacks chamavam-me a atenção, na década de 1990, quando comecei a frequentar livrarias por iniciativa própria e a consumir horas a fio correndo os olhos por cada lombada de livro nas prateleiras. As edições nacionais, saídas pela Companhia das Letras, tinham cintilantes capas coloridas, com uma sobrecapa em plástico relativamente rígido, transparente em grande medida, com título e nome do autor em letras brancas. O interesse que me despertavam essas obras sempre existiu e persiste, mas nunca foi suficiente para me mobilizar para a leitura efetiva. Pouco tempo depois, comecei a cursar Medicina, provavelmente por isso deixei de lado a ideia de conhecer as histórias de Oliver Sacks sobre pacientes e condições neurológicas. Explico-me: naquela época, eu preferia matar minha vontade de ler com assuntos distintos daqueles que me ocupavam na faculdade. 

Livros de Oliver Sacks, inclusive, em edições da Companhia de Bolso, mais em conta.


Os livros de Sacks que eu nunca li são encimados por títulos instigantes, sinestésicos, que rompem com o automatismo da linguagem corrente: Vendo vozes, Alucinações musicais, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Um antropólogo em Marte e por aí vai. Por resenhas e comentários que li ao longo dos anos, sei que o autor pinça casos emblemáticos de sua lida profissional e, a partir deles, discute assuntos menos ligados à ciência dura e mais à Filosofia e às humanidades.
Em 19 de fevereiro passado, em pleno Carnaval, tempo de viver como se não houvesse amanhã, foi publicado o texto de Sacks que mencionei no primeiro parágrafo, intitulado "My own life" (Minha própria vida). Comovente, fez-me pensar de um jeito mais agudo sobre nossa finitude e sobre como a consciência e a iminência dessa condição são cruciais para nossa abordagem da existência. Tratei disso na postagem sobre o poema "Consoada", de Manuel Bandeira, quando comparei a atitude do eu poético, que mantém sua rotina comezinha malgrado a expectativa da morte, com a letra da música de Paulinho Moska que questiona "o que você faria se só lhe restasse um dia?"
Um livro que me marcou bastante e, pasmem, trata de juros, mas de uma maneira intuitiva e humana, foi O valor do amanhã, de Eduardo Gianetti da Fonseca. Para quem não lembra, ele era o principal nome econômico da campanha da presidenciável Marina Silva. Desde que o li, sempre me ocorreu uma formulação que provavelmente não é de Gianetti, porém chegou-me por meio de sua pena: o ser humano de racionalidade média pauta sua vida de acordo com a certeza de que morrerá e com a dúvida quanto ao tempo que o separa de seu fim. Morreremos, mas ignoramos quando, e, devo concordar com o autor, o modo como lemos esse dilema entre uma certeza e uma dúvida interligadas condiciona essencialmente nosso viver.

O valor do amanhã foi lançado também em edição econômica.

Com seus 81 anos e com a consciência aguçada, Oliver Sacks certamente já recebia acenos da morte de modo mais vivo, com o perdão da antítese. Por exemplo, como diz no texto do New York Times, testemunhara o falecimento de muitos de sua geração. Extintos seus avós e seus pais do mundo exterior à memória, qualquer ente humano começa a encarar a morte paulatinamente mais olho-no-olho, pois deixa de contar com as talvez ilusórias fileiras protetoras das gerações mais velhas, que, por natureza, esperamos que desapareçam antes de nós. Mesmo assim, o impacto resultante da notícia que tornou mais iminente sua morte foi sentido por Sacks e provocou o balanço ou a releitura de seus dias.
Quantos livros você pretende ler no ano? Quão ligeira e superficial ou detida e atenta será a leitura que você fará de cada livro? Do livro que você precisa ler para o Mestrado e daquele que degusta sem obrigação? Como dividirá sua atenção entre ficção comercial e obras de arte literária? Se tivesse certeza de que morreria amanhã, leria alguma linha? De qual livro? Assim como a interpretação de uma obra escrita envolve antecipações, mudanças de expectativas, retorno a trechos passados, saltos ou visadas mais ligeiras, a leitura do tempo também. De uma leitura maior, a de nosso tempo sobre a Terra, dependem todas as demais que fazemos, a dos livros, inclusive. No penúltimo parágrafo de seu texto de balanço, Sacks surpreendeu-me e, ao mesmo tempo, cativou-me, ao colocar sua experiência como escritor e com leitores entre os ápices da vida que levou: 


"I have read and traveled and thought and written. I have had an intercourse with the world, the special intercourse of writers and readers."

("Eu li e viajei e pensei e escrevi. Mantive intercurso com o mundo, o especial intercurso de escritores e leitores.")
O sentimento de gratidão que Oliver Sacks confessa predominar em seu espírito atualmente, eu dirijo a ele, por ter compartilhado conosco sua experiência intimamente dolorosa e excruciante, imagino eu. No diálogo platônico Fédon, Sócrates, à espera da execução de sua sentença fatal, define a Filosofia como o aprendizado para a morte. Não deve haver matéria mais difícil no currículo humano. O texto de Sacks ajuda a aprender. Espero que termine seus dias fazendo felizes as pessoas que lhe são mais próximas e também se sentindo feliz. Sou capaz de apostar que, nos sagrados dias que lhe restam, ele estará lendo.

"A morte de Sócrates", de Jacques-Louis David.

24/02/2015

Diário de leitura: "O Anjo Pornográfico" - parte 2

Como eu mencionei na postagem anterior deste diário de leitura, depois do primeiro terço de O Anjo Pornográfico o narrador deixa, aos poucos, a vida de Nelson no período de formação e no contexto familiar e volta-se para aquele em que ele é efetivamente o protagonista da história. Os primeiros eventos dignos de nota são o casamento de Nelson Rodrigues com Elza e sua estreia como dramaturgo, primeiramente com a montagem de A Mulher sem pecado e, mais emocionante e épica, a de Vestido de noiva.

O casamento e o início da carreira dramatúrgica são entrelaçadas na narrativa de Ruy Castro. Nelson casa com Elza e contra a sogra, que o considerava um partido ruim para a filha. Ganhava pouco e morava longe, como se diria atualmente. Andava desleixado e não inspirava um futuro promissor em termos de conforto material talvez nem para ele mesmo. Além de tudo isso, tinha um histórico de tuberculose persistente, em uma época em que o tratamento da doença era, a bem dizer, um jogo de sorte. Consumado o matrimônio, o futuro célebre escritor resolveu escrever peças como forma de aumentar a renda:

Estava passando pela porta do Teatro Rival, na Cinelândia, onde uma fila se atropelava para ver Jaime Costa em "A família Lero-lero", de R. Magalhães Jr. Nelson ouviu alguém comentar: 
"Essa chanchada está rendendo os tubos!" 
Por que não escrever teatro? Não lhe parecia mais difícil do que escrever um romance. Pelo menos, era mais rápido. Com os dedos salivando, Nelson resolveu tentar." 
Atentem para "os dedos salivando", mais uma amostra do talento de prosador de Ruy Castro. Atentem também para o momento marcante na gênese do escritor Nelson Rodrigues. Quem, como eu, interessa-se pelo mundo da literatura - mas especialmente quem deseja tornar-se um escritor - deve achar particular interesse em como se cria um escritor consagrado, em como ele resolve e conclui que se dedicará ao métier. Cada um poderá ter suas motivações, e nós tendemos a idealizá-las. No caso de Nelson, uniu-se a prática da escrita por meio do jornalismo com a necessidade de complementar a renda. Ele vislumbrou a aplicação à produção artística, para fins pecuniários, de um talento aprimorado com o exercício diário nos jornais.

Escrever todo mundo escreve, naquela época como hoje. Eu estou escrevendo, por exemplo. Outra coisa é ser lido. Outra ainda mais difícil é ganhar dinheiro com isso. Minha já arrojada ambição restringe-se ao segundo passo da mencionada escala, mas não era o caso de Nelson Rodrigues. Ele distribuiu suas peças para leitura de medalhões da literatura e da crítica nacionais, como Manuel Bandeira, pediu que escrevessem opinião, de preferência favorável, a respeito delas, bem como usou suas amizades nos meios jornalístico e político, para viabilizar a montagem e alcançar o público. Mutatis mutandis, como os blogueiros e instagrameiros da atualidade trocam curtidas, indicações e divulgações de forma geral.

22/02/2015

Diário de leitura: O Anjo Pornográfico

Comecei a ler, há aproximadamente uma semana, O Anjo Pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro. O biógrafo tem uma prosa bem marcante, que mescla certo tom informal com palavras pouco comuns, mas expressivas. O resultado é ótimo. Tive contato com esse estilo famoso de Ruy Castro no ano passado, quando li Era no tempo do Rei, um romancezinho despretensioso que me pareceu ter toda a pinta de infanto-juvenil, mas não deixou de me impressionar pelo aspecto da escrita em si. 
Estou entre o primeiro quarto e o primeiro terço da biografia e posso dizer que a combinação da prosa de Ruy com sua pesquisa bem feita e com suas escolhas sobre o que era relevante aparecer na obra rendeu um ótimo resultado, muito melhor do que o obtido por ele no romance lido no ano passado por mim. 
Castro ficou famoso por suas biografias de Nelson Rodrigues, de Garrincha e de Carmen Miranda, além de outros títulos de crônicas. Creio que, ao lado de Fernando Morais, autor de Olga e de Chatô: o Rei do Brasil, bem como de Lira Neto, que trouxe à luz biografias do Padre Cícero, de Maysa e, em três volumes, de Getúlio Vargas, Ruy Castro é o maior biógrafo da atualidade no mercado editorial brasileiro. O Anjo Pornográfico, lançado em 1992, foi o primeiro de seus livros nesse gênero.
A intenção do autor, conforme anunciada na "Introdução", não é a crítica ou a análise das obras de Nelson Rodrigues, mas eminentemente factual: seu intuito é narrar, segundo suas palavras, "onde, quando, como e por que". As iscas que ele inseriu na seção introdutória, como que para vender o peixe do livro, são eloquentes: "O Anjo Pornográfico é a espantosa vida de um homem - um escritor a quem uma espécie de ímã demoníaco (o acaso, o destino, o que for) estava sempre arrastando para uma realidade ainda mais dramática do que a que ele punha sobre o papel." Aí se tem uma amostra da prosa de Ruy, com essa ótima expressão "ímã demoníaco". Ademais, quem tem alguma noção do que é a obra de Nelson Rodrigues - quase todo mundo tem - fica curiosíssimo por saber como a vida dele pode superar sua obra em dramaticidade.
No passo em que me encontro, o livro está transitando da fase em que se conta a vida de Nelson no contexto familiar para aquela que será centrada, imagino, propriamente nele. A narrativa começa no Recife, onde nasceu o biografado, passa pela mudança da família Rodrigues para o Rio de Janeiro e segue pelos altos e baixos deles no período de formação de Nelson. Nota-se que Ruy Castro aponta, aqui e ali, possíveis fontes para a ficção rodriguesiana, marcada por traições, bebedeiras, mortes apoteóticas e loucuras.
Uma personagem que chamou particularmente minha atenção, nesse quase primeiro terço de livro, foi Sylvia Seraphim, uma mulher estonteantemente bonita, colaboradora de jornais da época e amiga de intelectuais, algo ainda incomum então. O desquite de Sylvia foi noticiado de forma sensacionalista pelo jornal de Mário Rodrigues, pai de Nelson, apesar dos apelos reiterados para que deixassem esse assunto privado fora das páginas do diário. As consequências foram catastróficas, e aqui eu fico, para vocês não me acusarem de estragar um dos baratos da biografia.
Uma coisa bacana das boas biografias é que elas logicamente não informam apenas da vida da personagem-título. Para permitir que essa seja entendida, vêm a reboque as de outras personagens relevantes, afora elementos de história e de tudo quanto possa lançar luz sobre o biografado. O Anjo Pornográfico também trata, por exemplo, de Mário Rodrigues Filho, irmão de Nelson e grande pioneiro da crônica esportiva nacional, cujo prestígio redundou na escolha de seu nome para o mundialmente famoso estádio do Maracanã. Outro irmão de Nelson, Roberto, ilustrador e artista plástico que viveu muito pouco para deixar uma obra mais marcante, teve um filho, morto em 2014, que seria um dos maiores designers do Brasil.
Incluí O Anjo Pornográfico na meta de leituras de 2015 por duas razões principais. Em primeiro lugar, estou interessado no gênero biográfico e considero que preciso me encharcar dele, para absorver sua forma. Em segundo lugar, se elegi a prioridade de ler biografias, tanto melhor que sejam sobre pessoas que foram protagonistas em áreas que me interessam primordialmente. No caso de agora, o mundo da literatura. Voltarei mais tarde a essas duas intenções geradoras da presente leitura, mas adianto que o livro de Ruy Castro tem cumprido muito bem a destinação que lhe dei, além de deleitar-me com seu ímã demoníaco.

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(O trecho lido no vídeo acima refere-se ao caso de Sylvia Seraphim)

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(Sobre o abandono dos estudos por Nelson Rodrigues)

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(O pai de Nelson Rodrigues começou como jornalista e terminou com proprietário de jornal. Uma das seções que certamente serviram de inspiração para a obra do biografado foi a policial.)

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(Ruy Castro especula sobre a influência da vida na primeira vizinhança dos Rodrigues no Rio de Janeiro sobre a mente de Nelson)

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(Logo que os Rodrigues chegam ao Rio, a cidade é assolada pela epidemia da gripe espanhola)

21/02/2015

Guia leve e informativo sobre a Literatura Brasileira

Título: Literatura Brasileira: modos de usar
Autor: Luís Augusto Fischer
Editora: L&PM
Número de páginas: 143 (com apêndice)
Ano: 2013 (lançado em 2007)
Homero não leu e não gostou, mas não é sempre que a gente concorda.

Só agora, quase quatro da tarde, estou ingerindo os primeiros gramas de cafeína do dia. Acordei quando faltavam somente trinta minutos para meu treino de tênis, então, mal deu tempo de tomar a chuveirada que permite domar os cabelos moldados pelo laquê do travesseiros, engolir alguma glicose em forma de iogurte, vestir a roupa, encher a garrafinha de água e dirigir para a quadra pública que fica a cinco minutos de casa. O treino estendeu-se além do horário, depois fui ao clube tomar Sol e, em seguida, almocei no Mangai, um restaurante paraibano com filiais em Natal e aqui em Brasília. Como ontem fomos dormir perto de três da madrugada, porque decidimos assistir, tarde da noite, ao filme Lendas da paixão (Legends of the fall), é possível imaginar como a cafeína nossa de cada dia me fez falta até este instante e era fundamental para a escritura desta postagem.

Superado o drama pessoal, vamos aos livros, assunto principal deste blog. Comentarei minhas impressões sobre a leitura de Literatura Brasileira: modos de usar, do professor da UFRGS Luís Augusto Fischer. Como contei em uma rapidinha de Carnaval, comprei esse livro de bolso da L&PM no sábado passado, por acaso. Eu esperava uns amigos para almoçar em um shopping, e obviamente isso se faz na livraria mais próxima. Aproveitei a ocasião para procurar um exemplar do Memorial de Aires, destinado à promoção que está rolando. Na estante de títulos de bolso, com fileiras da Martin Claret, da Companhia de Bolso, da Hedra, não poderia faltar a editora de bolso por excelência no Brasil, a já citada L&PM, em cujas fileiras encontrei o protagonista de hoje. 

Não me lembrava de ter visto antes esse pequeno guia de Luís Augusto Fischer em minhas assíduas visitas às livrarias. Puxei-o, pelo topo da lombada, com o dedo médio, dentre os outros livros encostados uns aos outros como andorinhas em fio de poste, olhei a capa, virei, inspecionei o índice e procurei algum capítulo que me chamasse especialmente a atenção. Gostei dos títulos, que prenunciavam uma forma diferente de apresentar a Literatura Brasileira. Em vez de uma exposição linear e cronológica, o autor agrupou tradições e temas recorrentes para construir os capítulos. Embora não abandone o critério temporal, Fischer não parece ter-se preocupado com categorizações bem delimitadas, portanto deixou o livro tomar a forma de um bom bate-papo sobre literatura, sobre seus usos e sobre suas determinantes no Brasil.

Com 140 páginas, em formato de bolso, para dar conta de uma literatura cujos antecedentes europeus remontam a séculos, o livro não poderia ser senão um panorama, mas é dos bons. Seja na exposição de tradições de nossa literatura, como nos capítulos "A tradição realista", "A tradição intimista" e " A tradição de vanguarda"; seja na discussão de gêneros que se destacam em nossa produção literária, como no subcapítulo "Ensaio, o quarto gênero literário" e nos capítulos "O gosto pelos gêneros menores" e "Linhagem das memórias"; seja, ainda, nos momentos em que debate os vínculos mais estreitos entre o mundo da literatura e a realidade nacional, como em "A literatura e o abismo social no Brasil" e em "A busca da identidade nacional", o autor conseguiu engendrar um texto leve e interessante, simpático e pertinente, fluido e informativo.

A preocupação confessada de Luís Augusto Fischer, ao escrever Literatura Brasileira: modos de usar, foi orientar quem não se transformou em leitor contumaz após o período escolar, mas tanto reconhece a importância da leitura como tem vontade de desenvolver o hábito. Ele mesmo diz que se trata de um livro de autoajuda. Seu objetivo é contribuir para que, em nosso país, haja mais leitores não profissionais. O professor Fischer diagnostica que "a circulação da literatura brasileira clássica depende muito, e em alguns casos exclusivamente, do circuito escolar universitário". Ele tem razão, quando diz que só continua lendo literatura, depois da escola ou da universidade, no Brasil, quem vai dedicar-se ao ensino da literatura como profissão. Alguém discorda de que essa seja a regra?

Para além da intenção do autor, muito útil e, a meu ver, realizada a contento, o Literatura Brasileira de Fischer serve como excelente introdução madura para quem está em preparação para concursos que cobrem o tema. Um que me veio à mente foi o do Instituto Rio Branco, que seleciona e prepara anualmente os novos diplomatas brasileiros. Especialmente para a segunda fase do certame, que visa a avaliar o desempenho dos candidatos quanto ao uso da língua portuguesa, creio que o livrinho de Fischer é de grande valia.

Eu me considero relativamente bem informado sobre Literatura Brasileira, mas o Literatura Brasileira: modos de usar teve ainda a utilidade de chamar minha atenção para autores com os quais eu pouco me importava e até para alguns desconhecidos, principalmente entre os contemporâneos. Anotei vários nomes e títulos para posterior atualização da lista de leituras.

Entre as muitas discussões propostas e pinceladas por Fischer, destaco aquelas que lidam com as ideias de regionalismo e de modernismo. Ele critica o emprego desses termos para descrever os fenômenos literários a que tradicionalmente se referem. Em ambos os casos, acusa o reducionismo de tais rótulos, calcados na hipervalorização do urbano, no caso do conceito de regionalismo, e do modernismo paulista, no caso da classificação de toda a literatura nacional do século XX como pré-modernista, modernista de primeira, de segunda e de terceira geração e pós-modernista, em função da Semana de 22. Chama o conceito de regionalismo de "rótulo insuficiente, redutor e anticrítico (...), o que já deveria ser motivo suficiente para ele ser posto de parte, no debate relevante". Chama a classificação fundada no modernismo de 22 de paulistocêntrica e modernistólatra, pretensamente responsável pela existência de tudo de relevante que aconteceu no século XX brasileiro em termos literários.

O efeito da cafeína está terminando, e eu vou tirar um cochilo. Mais tarde, uns amigos virão em casa para uma sessão de jogatina e de fondue. É prudente que eu descanse um pouco, senão o gás do candeeiro de meus olhos vai acabar antes de o papo com as visitas esquentar. Fica a sugestão de leitura com ótima relação custo-benefício: pouco tempo e muito pano pra manga.

19/02/2015

Leitura a lápis - parte 2

Em 10 de fevereiro, na postagem Leitura a lápis, comentei o hábito de fazer grifos e anotações nas margens dos livros. Depois disso, ocorreu-me a ideia de realizar uma promoção no Palavra de Literatura, cujas regras de participação os leitores podem ler aqui. Trata-se do sorteio de um exemplar do romance Memorial de Aires, de Machado de Assis, com os sublinhados e as notas que eu fiz em minha edição do livro transcritos. Espero que a leitura das duas postagens mencionadas seja suficiente para contextualizar tudo.

(Homero escrevendo uma parte desta postagem. Juro que a bagunça aí foi obra dele)

Passemos agora ao motivo da postagem de hoje. Aconteceu que a leitora Marcela Yoneda, depois de ler a já mencionada Leitura a lápis, fez um rápido comentário no campo reservado para tal, no blog, mas, ao mesmo tempo, mandou-me um texto maior, que pode ser considerado uma crônica, com um relato e algumas reflexões sobre a ocasião em que pegou emprestado da Biblioteca Mário de Andrade, na capital paulistana, um exemplar que lhe veio anotado e grifado, como o que estou oferecendo na promoção.
Em seu comentário rápido no blog, Marcela questionou-me sobre se eu - que defendi grifos e notas sobre o papel dos livros, em detrimento daquela posição de veneração desse objeto, a qual faz muita gente querer, a qualquer custo, preservá-lo incólume a todo desgaste - retomando, se eu sou a favor da liberação de realces e de inscrições em livros de bibliotecas. O sujeito vai a uma das raras que existem no país e, chegando lá, ao retirar um exemplar do acervo, descobre, como Marcela, que as linhas estão comentadas, sublinhadas, marcadas etc. 
Se a moda pega, quem sabe não passam a fazer isso mesmo nas livrarias? Eu, que defendi o direito, quase como um dever, de deixar nos livros lidos os rastros da leitura realizada, compraria um exemplar assim? Sei que, nos sebos, de forma geral, obras grifadas valem menos. Pode procurar, por exemplo, na Estante Virtual, que esse aspecto é frequentemente mencionado nas descrições do estado dos exemplares anunciados. 
Minha resposta a Marcela recorre ao brasileiríssimo "depende" intransitivo. Depende. Imagina se o livro pertenceu a Aldir Blanc, e as páginas registram as leituras que ele fez? Certa feita, comprei um exemplar usado no sebo Berinjela, no Centro do Rio de Janeiro, de presente para minha mãe. E não é que o danado do dito cujo pertenceu a Aldir Blanc e trazia a assinatura do compositor na folha de rosto? Nesse caso, o valor do objeto pode ser elevado pela fama em si do antigo dono ou pelo interesse, inclusive, coletivo, pelo modo como aquela personalidade leu determinada obra. Já imaginou se eu pego a edição de Casa-grande & senzala lida e anotada por José Lins do Rego, tendo em conta a importância que a obra de Freyre teve para a de Zé Lins?

(São comuns edições com notas de especialistas)

No caso de Marcela, não podemos ter certeza, mas aparentemente o livro que ela emprestou da Biblioteca Mário de Andrade não foi anotado por Sérgio Buarque de Holanda ou por Joaquim Nabuco. Sim o foi por uma pessoa comum como nós. Digo "comum" em certo sentido, porque, pelo que me disse o relato de Marcela, quem se atreveu a intervir, a caneta ou a lápis, nas folhas pertencentes ao Pode Público, foi uma leitora acima da média, com bagagem considerável, que chamou a atenção de Marcela para passagens relevantes e ainda proporcionou que ela conhecesse um excelente autor, cuja obra dialogava com aquela à mão e cujo nome foi posto ali ante seus olhos.
Seria difícil que a experiência contada por Marcela se repetisse com a maioria dos grifos de livros em biblioteca, caso esses fossem liberados pela administração do lugar. No e-mail que lhe mandei, à guisa de resposta, aventei a possibilidade de a instituição ter um cadastro de leitores que, preenchidos certos requisitos, formariam uma equipe de voluntários autorizada a fazer grifos, ao ler as obras. Por exemplo, clientes assíduos da biblioteca que comprovassem ter formação em determinada área seriam autorizados e até estimulados a grifar e anotar livros da mesma área. É uma ideia, mas não necessariamente se deveria vincular a permissão para sublinhar e escrever ao currículo profissional do usuário.
Feitas essas considerações, que já ultrapassaram demais o que eu planejava como apresentação ao texto de Marcela, compartilho-o com vocês e estimulo todos a visitarem o blog dela (Blog da Mar), que me parece uma ótima cronista. Aí vai:

Raimundo, 

Então vamos lá: confesso que ainda tenho escrúpulos! 
Dificilmente escrevo em livros. 

Já tive muito mais. Atualmente, se o livro for meu, faço grifos, chaves, estrelinhas ou qualquer outra marcação para chamar minha posterior atenção em algum trecho que se destacou aos meus olhos ou em palavras que não sei o significado. 

Mas frases não dá. 
Lembro dos meus pais me ensinando: em livro não se escreve, não se faz pinturas e nem rabiscos. É obra de alguém e não se escreve na obra de alguém. Se for emprestado, devolva do mesmo jeitinho que pegou e agradeça. 

Hoje penso que esse argumento é um respeito exagerado, afinal de contas anotar alguma coisa na obra de alguém não vai alterar a obra, mas pensando em propriedade alheia, cabe. 
O fato é que levei ao pé da letra a “assepsia” das páginas por muito tempo. 

Os questionamentos, pesquisas e dúvidas e ignorâncias anotava - e ainda anoto - em um caderno separado, fazendo as devidas referências. 

Se o livro não me pertencer, nem pensar! Sem grifos, sem asterisco, sem marcação alguma. 
Não tenho nada contra se fizerem em algum meu. Já aconteceu, mas não gosto de escrever no dos outros. 

Para presentear faço questão de escrever dedicatória na primeira página. 
Como geralmente presenteio com livros que já li, acho simpático deixar registrado que desejo que a pessoa presenteada compartilhe a mesma experiência que me agradou. Que passe a fazer parte do universo dela. 

Lembro que fiquei estarrecida a primeira vez que peguei um livro na Biblioteca Mário de Andrade (SP) que estava forrado de anotações. 
Procurei a funcionária para comentar a respeito e a reação dela foi pior do que a minha. 
Ficou triste e perguntou se eu levaria daquele jeito, se preferia deixar e ofereceu-se para ver se havia outro exemplar disponível, “limpinho”. 

Retirei o livro todo “rabiscado”. 
Prometi a mim mesma que não olharia as anotações para não xeretar os pensamentos de ninguém. 
Achava que seria um desrespeito – uma certa intromissão -saber o que uma pessoa desconhecida escreveu num livro. Bobagem, eu sei. Mas foi o que pensei à época. 

Mais tarde, em casa, não cumpri a promessa e posso dizer que não li o livro: estudei-o, meticulosamente. 

Todas as anotações haviam sido feitas por uma estudante. 

Pelos escritos, concluí que a professora pedira a leitura e moça (os dizeres e a letra pareciam femininos) foi anotando: “falar para a profa que pode ser interpretado assim ou assado, por causa disso e disto”; “vai cair na prova”; e fazia colocações pertinentes, paralelos com outras obras e analogias. 
Nos trechos que ela mais gostou desenhou coraçãozinhos. (mais uma pista de que a pessoa era uma mulher – rapazes não costumam desenhar corações nos cadernos; ou desenham? Sei lá! Tanto faz!). 
E a pessoa fez tudo a lápis - grafite. 

Foi por causa das anotações da suposta garota que conheci o escritor “Mia Couto”. 
Ela escreveu o nome dele na lateral e até achei que eu não estava lendo corretamente. 
Achei que talvez ela tivesse escrito “Meu Conto” mas pesquisei “miu”, “min”, “mio” e finalmente “mia”. 

A Biblioteca Mário de Andrade é toda informatizada hoje em dia e é fácil achar as obras através dos filtros disponíveis. 
Sempre acho uma maravilha as buscas por lá - sou da época das fichinhas ensebadas pelas muitas dedilhadas dos usuários. Mouses ensebados são mais ágeis! rsrs 

Só não me pergunte qual foi o livro “enfeitado” de comentários que retirei. 
Não consigo lembrar. Já pensei e pensei e não lembro. Isso foi há muitos anos, logo que informatizaram o sistema de acesso ao público. 

Quando fui devolver o bendito livro procurei a mesma funcionária da retirada e comentei que as anotações eram ótimas, sugerindo que a Biblioteca não as apagasse porque poderiam ser úteis a outros leitores e estudantes. 

Não sei o que ela fez. 
Por ela ou por norma da Biblioteca, talvez tenha apagado tudo, mas na hora que mostrei as anotações ela achou muito interessante e ficou pensativa. 

Quem sabe leu o livro justamente por causa das anotações? 
E, quem sabe, não buscou o outro autor também? 
Conhecimento passado involuntariamente no caso da estudante para mim. Proposital da minha parte para a funcionária. 

A questão é que se todos anotarem nos livros que são de acesso público vai virar uma grande confusão pelo excesso de informação e pelo formato – alguns escreverão com canetas, outros com lápis para distinguir do leitor anterior. 
Não sei. 

Lembro que, na época, fiquei muito feliz pelo “estudo” do livro, pelo conhecimento de novo autor que um desconhecido me proporcionou e pela constatação de que havia gente levando os estudos a sério. 

É isso. 
Lembrei do fato ao ler sua última postagem e quis te contar a experiência. 
Obrigada. 

Marcela Yoneda

18/02/2015

Promoção: receba em casa um exemplar grifado e anotado do romance "Memorial de Aires", de Machado de Assis

O feriadão do Carnaval terminou, passou voando, a gente não fez tudo que planejara, e já bate aquela melancolia com o expediente no trabalho que se avizinha. Eu hoje ainda ganhei a manhã livre, mas terei de entrar em paletó e gravata logo mais, para retomar minhas atividades laborais a partir das 14h. Poliana cochicha-me no ouvido direito que, pelo menos, esta semana de trabalho vai durar só a metade, e que o novo fim de semana está na outra esquina. O diabinho do ouvido esquerdo contrapõe que a aposentadoria ainda custa, e muitas segundas-feiras virão. Como espécie de consolo para leitoras e leitores do Palavra de Literatura, o fim do feriadão será compensado por um sorteio.

No final da postagem em que anunciei o resultado da promoção dos marcadores de páginas e dos cartões com reproduções de obras de arte, antecipei que tivera uma ideia de nova promoção, inspirada na postagem Leitura a lápis e, isto eu não disse, em minha releitura do Memorial de Aires, que comentei em Memorial do "Memorial de Aires".

O prêmio da vez será um exemplar do Memorial de Aires, de Machado de Assis, mas não, um qualquer. O livro em disputa carrega os grifos e as anotações de margem que eu fiz, em duas leituras minhas, a primeira em dezembro de 2003, a segunda em janeiro de 2015. Exatamente como está marcado em meu exemplar, os realces de 2003 foram feitos a caneta de tinta azul, e aqueles de 2015, a lápis. Dessa forma, quem faturar o volumezinho poderá dialogar com minhas duas leituras, comparar o que grifaria com o que eu grifei e, assim espero, mandar-me uma carta ou um e-mail com seus comentários, suas dúvidas, suas discordâncias. Não está sendo oferecido só um livro, que qualquer um poderia achar nas livrarias, a um preço até acessível, mas sim, um livro e duas experiências de leitura, com marcas pessoais que o tornam único.


E como funcionará? Eis as regras para habilitar-se ao prêmio, que será sorteado até o final de fevereiro (quem não cumprir uma das condições a seguir e for sorteado será desclassificado, e se procederá a um novo sorteio):

1. Seguir o perfil @palavradeliteratura no Instagram;
2. Curtir a imagem referente à promoção lá no Instagram;
3. Marcar três outros perfis (de não famosos) na área de comentários da imagem referente à promoção, também no perfil de Instagram @palavradeliteratura;
4. Transcrever, na área de comentários aqui desta postagem, um trecho de livro de que tenha gostado, acompanhado do título do livro citado, do nome de seu autor e do perfil de Instagram que estará concorrendo ao Memorial de Aires.

Nesta promoção, somente pessoas com perfil no Instagram poderão concorrer. Cumpridas as condições acima, será gerado um número, com o qual o candidato participará do sorteio. Como eu disse, o sorteio ocorrerá até o final de fevereiro, mas poderá ser antecipado, a depender do número de participantes. As situações duvidosas que eventualmente surjam das regras desta promoção serão decididas exclusivamente por mim, de boa fé, com a garantia de participação igualitária para todo mundo.

17/02/2015

Respostas aos comentários dos leitores

Literaterapia escreveu na postagem Meta de leitura 2015: introdução:
No inicio do ano fiz uma lista com 60 livros, tbm divididos em algumas categorias e incluindo alguns dos meus projetos de leitura, mas no fim fui incluindo mais alguns, lendo outros que não faziam parte da lista e por fim, minha meta nesse minuto está com 73 livros, dos quais 15 já foram lidos. Dentro dessa meta esta meu projeto de leitura de Em busca do tempo perdido e O tempo e o vento. Um projeito de leitura dos classicos eróticos e um projeto de contemporâneos brasileiros. E para o mês de março, por conta do dia da mulher estou organizando leituras de autoras que ainda não tive contato! Sua lista de "livres" me interessa bastante, mas acho q vão ficar para 2016. Rs em Meta de leitura 2015: introdução


Minha resposta: Literaterapia, achei bem interessantes seus projetos. Já podia presumi-los por postagens suas no Instagram. Sobre o número de livros a ler, minha lista oficial ainda não ultrapassou os 33 que estabeleci, mas creio que, mantido o ritmo até aqui, será facilmente superada. Quem viver - e acompanhar o Palavra de Literatura - verá!


Literaterapia escreveu na postagem Metas de leitura de 2015: "O anjo pornográfico":
E será que podemos saber biografia de quem vc tem vontade de escrever? em Metas de leitura de 2015: "O anjo pornográfico"

Minha resposta: A princípio, não é uma personagem de interesse nacional. Trata-se de um antepassado meu. Acredito realmente que uma biografia dele seria de interesse coletivo para a História da Paraíba e da Medicina. Se eu me der bem nessa primeira empreitada, já tenho outras personalidades em mente, mas não me dará sorte antecipar mais nada.

Literaterapia escreveu na postagem Considerações sobre a "Odisseia":
Não sei se vc já viu, mas no canal da Univesptv tem uma playlist que chama "Literatura Fundamental" ( http://www.youtube.com/playlist?list=PLxI8Can9yAHfwU1xgIgN2QLh6SuYsV2gG ) , são peogramas de 30min. em que um especialista é convidado a falar sobre uma obra da literatura universal. E os primeiros videos são com o prof. André Malta falando sobre Odisseia e Ilíada. Bem legal, vale a pena conferir! em Considerações sobre a "Odisseia"

Minha resposta: Não conhecia o canal. Vou dar uma olhada sim. Muito obrigado pela dica!

Marcela Yoneda escreveu na postagem Considerações sobre a "Odisseia":
Raimundo, um prazer descobrir seu blog! Parabéns.Uma delícia de ler. Você já leu Valter Hugo Mãe? Entendi que prefere usar o filtro "tempo" como critério para confirmação dos clássicos dado ao pouco tempo que temos para ler todos os bons livros nessa vida, mas sugiro que leia esse autor - se é que ainda não leu, claro - mesmo sendo contemporâneo. Adoraria ver seus comentários sobre o "Desumanização", "O remorso de Baltazar Serapião" e outros. Lerei "Odisseia". Seu carinho pela obra é bem contagiante. Ah! E desculpa, mas tomara que te deixem mais vezes sozinho em casa! Rende postagens para nós!! rsrs Abraços, Marcela em Considerações sobre a "Odisseia"

Minha resposta: Marcela, obrigado pela visita e pelo estímulo. Também visitei seu blog e achei você uma ótima cronista, sem favor nem gentileza. Nunca li nada de Valter Hugo Mãe, embora já tenha deparado com livros dele, muito amiúde, nas rotineiras visitas às livrarias. Prometo que darei uma chance a ele, por causa de sua indicação. Quando terminar a Odisseia, venha aqui contar como foi, ou escreva algo a respeito em seu blog.

Teófilo Ribas escreveu na postagem Considerações sobre a "Odisseia":
Tens uma bela coleção. Interessante a forma que mencionas e difencias cada uma delas. Das frases escritas, o que mais me chamou a atenção foi a explicação sobre o seu presente de 2013. Me fez refletir bastante sobre isso... As pessoas que escolhemos para fazer parte de nossa vida. em Considerações sobre a "Odisseia"

Minha resposta: Teófilo, minha coleção da Odisseia é uma joiazinha de minha biblioteca. Sempre me pego folheando uma ou outra e relendo trechos. Você sabe que a pessoa a que me referi na postagem, embora reconheça meu amor aos livros e me tenha dado aquela preciosidade de presente, também tem seus momentos de sofrimento por causa de minha compulsão em colecionar esses objetos que, como disse Borges, são a única invenção humana que funciona como extensão da imaginação, e não das mãos. Obrigado pela visita participativa!

Marcela Yoneda escreveu na postagem Leitura a lápis:
Raimundo, muito agradecida e lisonjeada pela visita e comentário gentil. Muito simpático de sua parte. E sobre esta postagem: você está aumentando minha lista de desejos de livros e filmes. Muito bom! Obrigada Com relação às anotações em livros, achei muito interessantes as colocações. A questão que gostaria de abordar é: e nas bibliotecas públicas, escolares, itinerantes? Vale escrever nos livros? Convém cada usuário anotar no livro e o devolver com as anotações? Mandarei um e-mail no endereço que consta no Instagram para comentar o assunto. Pode ser? Abraços, Marcela Yoneda em Leitura a lápis

Meu comentário: Marcela, obrigado a você. Como já disse em resposta a seu comentário anterior, meu comentário reconheceu mérito, não foi gentileza vazia. Fico feliz que pessoas como você estejam frequentando meu blog. Fico ainda mais feliz em receber aquele imenso e delicioso comentário sobre sua experiência com o exemplar grifado que você pegou emprestado na Biblioteca Mario de Andrade. Por e-mail, pedi que você o publicasse em seu blog, ou me deixasse publicar aqui. 

Literaterapia comentou na postagem Memorial do "Memorial de Aires":
Tenho uma amiga que é mestre em filosofia e hoje cursa história, que está estudando a relação entre a história do Brasil e a obra do Machado, mais especificamente o período do Ventre Livre. Quando vi sua postagem das obras completas dele, lembre dela. em Memorial do "Memorial de Aires"

Meu comentário: Literaterapia, que legal o objeto de estudo de sua amiga. Se ela estiver na Unicamp, sou capaz de apostar que esteja sob orientação de Sidney Chalhoub, autor de Machado de Assis historiador. Também aposto que ela se aproveita das interpretações inovadoras de John Gledson, cujo comentário ao Memorial de Aires pretendo usar, brevemente, para uma nova postagem sobre o livro de Machado. Se ficar sabendo de algo mais relacionado à pesquisa de sua amiga, conte-nos, por favor!

Rodrigo Alípio escreveu na postagem Memorial do "Memorial de Aires":
Não é minha obra de Machado se Assis preferida. Mas lendo sua postagem me veio a vontade de relê-la. Farei isso. Valeu. em Memorial do "Memorial de Aires"

Meu comentário: Rodrigo, não consigo dizer qual é meu romance realista de Machado predileto. Sempre gosto muito do que li mais recentemente. Se você reler mesmo, quero saber como foi, por favor. Eu ainda pretendo postar sobre os aspectos do livro que mencionei no primeiro texto.

Meta de leitura: categoria "Paraíba e Nordeste" e "A invenção do Nordeste"


"Se eu fosse editor, ia buscar coisas no Nordeste: as coisas mais geniais do mundo estão lá."
(Tom Jobim, "O Pasquim", 1969)

Na semana que passou, voltando do trabalho para casa, ouvi pelo rádio que as denúncias contra ocorrências de xenofobia na Internet aumentaram 375%, em 2014, em relação ao ano anterior. A maior parte delas relacionava-se a casos de preconceito e de discurso de ódio contra os nordestinos no período pós-eleitoral.

Na época, o fenômeno não me apareceu quantificado, mas aquela discussão sobre a legitimidade do voto dos eleitores nordestinos despertou-me os instintos mais primitivos. Brincadeira. Na verdade, meu fogo de indignação foi aceso sim, mas, em vez de vontade de vingança primitiva, senti mesmo um desejo grande de conhecer melhor a realidade do que se convencionou chamar Nordeste e povo nordestino, para municiar-me de argumentos sólidos nesses debates, que, julgo eu, tendem a tornar-se mais frequentes no futuro próximo. 

Ligado a isso, cresceu meu interesse especificamente sobre a Paraíba, minha terra natal, que me vejo na obrigação de estudar e de conhecer. Se não forem os paraibanos a sistematizar e produzir conhecimento sobre o que aconteceu e acontece dentro das divisas do Estado e a contar a História do Brasil da perspectiva local, mais ou menos como fez Evaldo Cabral de Melo, raramente alguém vai dar atenção a esses temas e a esses pontos de vista fora do Nordeste. 

Já vivemos o apagamento sistemático das cores e dos traços locais pelo fato de que quase tudo que se produz, em termos de notícias e de debate jornalístico com abrangência nacional, de teses acadêmicas com oportunidade de publicação e distribuição, de peças audiovisuais com espaço na televisão para todo o Brasil, de ficção literária nas grandes editoras, eu dizia, tudo que se produz e adquire relevância geral no Brasil tem, atualmente e há muito tempo, de passar pelo crivo do eixo Rio-São Paulo. A história do país é contada, diariamente, pelas lentes, pelos interesses e pelos objetivos de quem vive no Sudeste. Não é questão de malvadeza, não se me entenda mal: é natural que quem tenha acesso ao microfone, à câmera, ao papel publicado e à tribuna em sentido geral conte sua versão, nos limites de seu mundo.

O primeiro e principal livro que incluí nas metas de leitura para 2015, na categoria "Paraíba e Nordeste (ver postagem sobre as metas de leitura deste ano), criada pelo sentimento pós-eleitoral e pela necessidade de conhecer melhor, para mostrar um ponto de vista fora do eixo, foi o de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, publicado pela editora Cortez: A invenção do Nordeste e outras artes. O livro é uma versão adaptada da tese do autor, defendida na Unicamp e vencedora do Concurso Nelson Chaves de teses sobre o Norte e Nordeste brasileiro, da Fundação Joaquim Nabuco. Minha edição é a quinta e data de 2011, mas o livro foi lançado em 1999.



Lembro que ouvi falar nesse livro, pela primeira vez, pela boca de um grande amigo que cursava a graduação em História na Universidade Federal da Paraíba. O autor foi professor da instituição, e já se falava neste, entre os estudantes, com uma admiração que testemunhei nos comentários de meu amigo. Esse amigo figura entre os mais inteligentes e estudiosos que conheci e também é apaixonado por livros.

A obra historia como, aos poucos, no século XX, formou-se a ideia de Nordeste, na condição de espaço de identidade dentro do guarda-chuva da nacionalidade brasileira. Assim como, após a Independência, a elite brasileira dedicou-se à invenção da brasilidade, processo mais ou menos consciente, ocorrido em detrimento de particularidades regionais e classistas não convidadas a participar integralmente dessa invenção, a nordestinidade também constitui o que Benedict Anderson chamou de comunidades imaginadas, em livro com esse mesmo nome. O fato de ser imaginada não significa que seja falsa. Como diz Lilia Moritz Schwarcz na apresentação ao livro de Anderson:


"Não se imagina no vazio e com base em nada. Os símbolos são eficientes quando se afirmam no interior de uma lógica comunitária afetiva de sentidos e quando fazem da língua e da história dados 'naturais e essenciais'".
Eis, em linhas gerais, o que me levou a criar a categoria "Paraíba e Nordeste" em minha lista de livros a ler em 2015. Fica explicado também por que incluí A invenção do Nordeste e outras artes entre as metas deste ano. A divulgação dos números com que comecei este texto lembrou-me de adiantar a postagem. 

Para terminar, indico outros títulos que já li e considero que seja importante figurarem em uma lista formada à luz das preocupações expostas aqui:

O Norte agrário e o Império: 1871-1889, de Evaldo Cabral de Melo, publicado pela Topbooks.



A outra Independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824, também de Evaldo Cabral de Melo, publicado pela Editora 34.



O fole roncou: uma história do forró, de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, publicado pal Zahar.



Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil, de Gilberto Freyre, publicado pela Graal.



Formação econômica do Brasil, de Celso Furtado, publicado por várias editoras, entre elas, a edição comemorativa dos 50 anos, pela Companhia das Letras.



O moleque Ricardo e Usina, de José Lins do Rego, publicados pela José Olympio.