24/05/2015

Rapidinha de retorno depois de longa ausência

Desde o dia 18 de abril, data da última postagem aqui no blog, fui duas vezes à Paraíba, assumi interinamente uma chefia no trabalho, participei de um seminário de uma semana sobre o teatro trágico grego e a filosofia, válido como disciplina do Mestrado em Literatura da UnB, comecei a fazer análise pela primeira vez na vida, afora as obrigações de sempre. 

Fica aí esse rol de desculpas, para vocês chancelarem as que convierem para justificar minha ausência duradoura, ou para simplesmente ignorarem, como talvez eu mesmo fizesse. "Deixa de mimimi e volta a escrever logo", eu pensaria, se gostasse do blog. "Deixa de mimimi e encerra logo essa joça", eu pensaria, se do blog eu não gostasse. Besta!

Voltarei já com postagens literárias. Estou pensando em abrir também, dentro do blog, uma página para textos extraliterários. Se alguém tiver algo a dizer contra essa ideia, cale-se para sempre, ou fale a qualquer hora.

18/04/2015

Brasiliana Fotográfica

O Instituto Moreira Salles e a Biblioteca Nacional publicaram esta semana, em parceria, um site de iconografia brasileira, o Brasiliana Fotográfica. Estão disponíveis agora, em um só lugar, com opção de busca temática, imagens históricas relacionadas à paisagem brasileira. Vale a pena visitar e explorar o material, que, até o presente, estava compilado em publicações em papel, seja de forma esparsa, em livros de história de mais alta qualidade, seja em edições de luxo pouco acessíveis.

Missa campal celebrada por ocasião da abolição da escravatura no Brasil.



17/04/2015

Meu remorso depois de "o remorso de baltazar serapião" - parte 2

(Continuação)

Minhas dívidas só se acumulam. No entanto, estou aqui, ainda não desertei. Vamos à segunda parte da longa apreciação de o remorso de baltazar serapião.

***

Eu dizia que as relações de gênero são peça-chave nesse romance tramado por Valter Hugo Mãe. A regra é a mulher oprimida e violentamente esfolada, com requintes de crueldade chocante. A irmã de baltazar, brunilde, é levada para servir, em todos os sentidos imagináveis, dom afonso, o senhor das terras onde vive a família sarga. A mãe de baltazar anda torta e aleijada, porque o marido torceu-lhe propositadamente os ossos, de modo que ela não pudesse traí-lo, seja pela dificuldade de escapar, seja pela deformação que espantaria a cobiça masculina. Seu destino é aterrorizante.
A estonteantemente bela ermesinda casa com baltazar, porém a formosura excessiva dela, ao mesmo tempo que o cativa, desperta a cobiça de dom afonso. O marido apaixonado, depois de muito ansiar pelo casamento, depara com o dilema: não pode aceitar a desonra do chifre e a humilhação do amor maculado pela presença de outro homem, todavia falta-lhe a ousadia para contrapor-se a seu senhor, ou para levar ermesinda para longe e iniciar nova vida. O remorso de baltazar, pode-se dizer que é parido por sua grande covardia.
Os abusos e os arbítrios são cometidos ao longo de uma cadeia de opressores e de oprimidos que se tornam opressores para quem está no degrau logo abaixo. A malfadada ermesinda, que gradativamente se entroncha pela violência de baltazar, repetindo a sina da sogra, é provavelmente o elo mais fraco da corrente. A degradação de ermesinda, que quase não tem voz, que mal se defende, que parece tão indefesa nesse meio, a ponto de não conseguir sequer negar que seja obrigada a transar com o senhor das terras, eu dizia que a degradação dela é sufocante demais, uma história de terror. É estropiada, sem que baltazar a socorra nem a proteja, como deveria ocorrer, mas ao contrário.

a minha ermesinda já tinha pé torto virado para dentro, braço que não baixava com mão apontada para céu, outro braço flácido e sem mão a partir de pulso, mais olhos esquerdo nenhum, só direito. era como estava, mas nada verdade que vantagem sua se apagasse, estava de curvas mantida, pele macia, o cabelo longo e claro, lábios cheios.

Talvez se possa considerar que há uma heroína na história. Ela é um foco de resistência feminina. É insolente, não se enquadra. O narrador refere-se a ela, quase sempre, como a mulher queimada. Considerada bruxa, vivia isolada, porque não quis outro homem, depois das mortes dos seus. A comunidade acusa-a de tê-los matado. Escondidos dos poderes estabelecidos - o padre, no âmbito religioso, e dom afonso, no âmbito secular -, os moradores do local ateiam fogo em Gertrudes. Ela sobrevive e passa a vagar pelas penumbras, até que baltazar, compadecido, aceita levá-la em uma viagem, para que possa retomar a vida alhures, como esmoler. No meio do caminho, desentendem-se, e aí está a origem de uma maldição que vai acompanhar o protagonista até o fim da narrativa.

e todos escondiam de el-rei o caso da mulher queimada. nenhuma condenação haveria de nos ser conhecida. como se nenhuma mulher cozinhasse ali coisas más e houvesse sido queimada contra decisão das pessoas superiores.

nada normal para mim que recuso ser de homem, nada quero que homem algum me toque. e porque te casaste. sempre fui casada por pais ou homens que me mandassem, mulher solteira é má de vida e fica sem trabalho nem amizades.

Eu estou estendendo esta postagem, sei que precisa terminar, contudo teria muito mais a dizer sobre o livro. Não posso deixar de comentar a linguagem singularíssima entretecida por Valter Hugo Mãe. Além das imagens poéticas que já me haviam aparecido em a desumanização, surpreendeu-me uma prosa com sintaxe muito própria, meio barroca, meio oral, que lembra muito o estilo de Guimarães Rosa, mas, diferentemente desse, não vem marcada pelo vocabulário regional pujante nem pelos truncamentos sintáticos da fala do jagunço Riobaldo.

manhã cedo o sol nos acorda, estava nossa cara acesa onde incidia como instrumento picando pedra.

Concluo este texto com uma incômoda sensação de incompletude. Faltou muito. Falta, inclusive, reler essa obra e prestar mais atenção aos meandros que uma primeira leitura não permite notar. E isso é característica de obra destinada ao futuro, fadada a virar clássico e a se perpetuar defronte dos olhos de muitas gerações. 

09/04/2015

Meu remorso depois de "o remorso de baltazar serapião" - parte 1

Depois de terminar minha primeira leitura de Valter Hugo Mãe, A desumanização, não fiquei convencido. Como comentei nas postagens a respeito do livro, achei que o autor era talentoso em construir imagens de grande qualidade literária, mas o conjunto da obra ou sua virtude como romance ficava a desejar.
Foi essa notável qualidade das imagens criadas por Valter Hugo Mãe, aliada ao entusiasmo de duas amigas virtuais cujo gosto respeito muito, que me levou a, tão logo terminado o primeiro, entabular a leitura do segundo, o remorso de baltazar serapião, que comprei, porque não achei a máquina de fazer espanhóis na ocasião em que fui à Livraria Cultura.

06/04/2015

Livros versus e-books

Acabei de deparar com um videozinho bem bacana produzido pela editora Intrínseca sobre as vantagens e as desvantagens de e-books e de livros. Eu acho a convivência entre os dois formatos plenamente possível e desejável. Cada qual pode ter sua utilidade. Eu mesmo tenho o mesmo livro nos dois formatos.