27/06/2015

"Getúlio 1930-1945": aula de biografia na forma, aula de política no conteúdo.


Há quase dez dias, terminei de ler Getúlio 1930-1945: Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo, segundo livro da trilogia biográfica publicada recentemente pela Companhia das Letras, com autoria de Lira Neto. Fiquei muito empolgado com a leitura do primeiro volume, o que reforçou minha vontade de percorrer não apenas os outros dois sobre Getúlio, mas também aqueles sobre Padre Cícero e sobre José de Alencar (um amigo que me dá dicas de leitura valiosíssimas adorou a biografia de Alencar e recomendou-a faz tempo).  O Getúlio #2, recém-terminado, não foi tão instigante quanto o #1, porém, com isso, não quero dizer que não seja um livro excelente, que merece ser lido por quem gosta de história e de biografias.
Como indicado no título, o segundo volume conta a vida e o contexto histórico do Presidente Getúlio Vargas, desde que conquistou o poder por meio de um golpe, com a ajuda fundamental de forças militares, até que foi retirado da mesma posição, também pela intervenção essencial de forças militares. Lira Neto expõe com que estratégias, talentos e ardis Vargas se equilibrou em uma corda-bamba instável, para manter-se no posto presidencial. Como em qualquer biografia, em que estão em foco, eminentemente, os atos - as decisões - do biografado, é difícil não fazer constantemente juízos sobre Getúlio. 
Eu diria que Lira Neto tem uma opinião mais positiva do que negativa do objeto de sua pesquisa, o que é legítimo. Imparcialidade não se alcança aqui, muito menos na China. As contradições de Getúlio, as ambiguidades, os vaivéns nas alianças estão lá no texto, mas também estão elementos que poderiam justificar, a critério de quem o lê, cada caminho adotado. Notei que muitas justificativas ou interpretações positivas sobre a conduta de Getúlio são calçadas no depoimento de Alzira Vargas, a filha dileta do ex-Presidente, e nos diários que este manteve até quase o final de sua primeira estada no poder. No geral, o equilíbrio é muito adequado entre a exposição do que poderiam ser consideradas canalhices e trapassas e suas motivações, seja no âmbito do pragmatismo, seja no das limitações e dos equívocos pessoais, mesmo que bem-intencionados. De qualquer forma, Getúlio estava cercado de raposas, de egos, de lideranças mais ou menos reconhecidas que, à sua maneira, buscavam cavar espaço e prestígio para os interesses que representavam, inclusive, os mais pessoais: caso de José Américo de Almeida, de Góes Monteiro, de Eurico Gaspar Dutra, de Oswaldo Aranha etc.

"Dotado de hábil pragmatismo e de impressionante paciência histórica, preferia deixar suas opções políticas sempre em aberto, na expectativa de que o tempo oferecesse a oportunidade propícia para deliberações mais seguras ou até mesmo para futuras conciliações, por mais improváveis que estas aparentassem ser no momento." (pos. Kindle 288)

Getúlio Vargas detinha um tino político fora do comum. Foram 15 anos de permanência na chefia do Executivo. De 1930 a 1945, todos os aliados que ajudaram a alçá-lo à cadeira presidencial, na Revolução de 1930, saíram de cena, ou foram eclipsados, sempre que Getúlio pôde fazê-lo. Na gangorra entre aqueles que defendiam a democracia liberal e os outros que se opunham a esta como um sistema vicioso e corrupto, com referência ao período da República Velha, Vargas acenava, sugeria compromissos que não cumpria, e, no fim das contas, promoveu o que ficou conhecido como modernização conservadora da sociedade brasileira. Houve avanços trabalhistas significativos, a indústria ganhou robustez. Ironicamente, foi introduzida uma legislação eleitoral mais avançada, sob a supervisão de um tribunal próprio, porém Getúlio, supostamente por considerar que a sociedade estava imatura para eleições diretas, não a pôs em prática.

"Durante os dez dias que passou no Rio Grande do Sul, Aranha cumpriu uma extenuante maratona de compromissos políticos. Trancafiou-se com Pilla em uma reunião de mais de seis horas em Porto Alegre. Tomou um trem noturno para ir a Cachoeira conversar com Borges de Medeiros e João Neves. Voou em um pequeno Farman-Salmson de apenas dois lugares - um para o piloto, outro para o passageiro - e aterrissou em Pelotas, no aeroporto mais próximo de Pedras Altas, para uma conferência com Assis Brasil. Além disso, participou de almoços e jantares com lideranças empresariais, autoridades militares e representantes de sindicatos. Ouviu muito, falou mais ainda." (loc. Kindle 935)

A política em períodos de fragilidade constitucional, quando a unidade e o consenso nacionais são frágeis, apresenta semelhança interessante com os processos de articulação diplomática. Mesmo tendo chegado ao poder pela força, Getúlio é obrigado a negociar apoios e, para isso, envia seu Ministro Oswaldo Aranha ao Rio Grande do Sul, no intuito de arrefecer ânimos e de recuperar o apoio de sua base regional, sem a qual jamais chegaria ao comando do país. Trata-se de ponto crucial entre a passagem de Getúlio de liderança com legitimidade e com compromissos oligárquicos regionais para a situação posterior, em que sua figura pública desprende-se, em grande medida, da identidade gaúcha e passa a ser associada à brasileira. A missão de Oswaldo Aranha, mencionada na citação logo acima, assemelha-se bastante a uma missão diplomática ao exterior, quando se busca a adesão de soberanias - leia-se "países independentes" - a determinada tese, projeto ou valor. Coincidência ou não, Aranha depois seria Ministro das Relações Exteriores de reconhecido talento.
A história desses quinze anos abrange também a guerra civil de 1932, que os paulistas chamam de Revolução Constitucionalista, a Intentona Comunista, o golpe dentro do do golpe, em 1937, a barganha com os Estados Unidos pelo apoio brasileiro no contexto da Segunda Guerra Mundial e a queda de Getúlio. Além disso, há a desilusão amorosa de Vargas pelo abandono por sua amante e a interessante e saborosa relação entre o Presidente e Alzira, sua filha mais próxima, uma mulher que se enxeriu em ambiente predominantemente masculino e conquistou a confiança e a admiração do pai, como confidente e como conselheira. Como mencionei, o depoimento de Alzira em livro foi essencial para a reconstituição operada por Lira Neto.

"Pela primeira vez na história do país, um líder político buscou sua legitimação no povo, o que ajudou a cristalizar sua figura, no imaginário popular, como um aliado preferencial dos mais pobres e humildes. Ao mesmo tempo, a proibição de greves e a repressão brutal a comunistas e anarquistas minimizaram de modo progressivo a resistência histórica das organizações patronais e das elites, que também foram convocadas a se aproximar do aparelho estatal, como parcela indissolúvel de sua estrutura burocrática." (loc. Kindle 10133)

O jornalista cearense Lira Neto, talento consagrado do gênero biográfico no Brasil.


Por último, destaco, porque me interesso particularmente pelo processo de construção de biografias, o post-scriptum do autor sobre a criação de Getúlio #2. Lira Neto explica que, enquanto o desafio do primeiro volume era recuperar informações pouco conhecidas sobre a vida de Vargas antes da chegada à Presidência, a dificuldade do segundo era lidar com a caudal de informações e de estudos disponíveis acerca de um dos períodos mais pesquisados da história política brasileira. Talvez por isso, como mencionei em postagem anterior e na introdução a este texto, instigou-me mais a narrativa de Getúlio #1.

"Meu propósito, como biógrafo, foi articular o vasto pano de fundo com os aspectos da vida privada do biografado, sobrepondo cotidiano e contexto histórico, para tentar compreender de que forma essas duas dimensões interagiram e sofreram influências mútuas." (loc. Kindle 10164)

"A partir do mapeamento prévio do material depositado no CPDOC, confrontaram-se as informações obtidas nos registros particulares do biografado com a extensa bibliografia disponível (…). Mais de duas dezenas de outros arquivos foram igualmente pesquisados, no Brasil e no exterior, para compor o mosaico de dados. A leitura de periódicos de época, das mais diversas procedências e tendências políticas, contribuiu para conferir à narrativa certa polifonia de vozes, produzida pelos repórteres e analistas que então escreviam e interpretavam a história em tempo real. Charges, caricaturas, canções populares, panfletos, inquéritos policiais, filmes, fotografias e gravuras também ampararam a recomposição de época." (loc. Kindle 10175)

2 comentários:

  1. Agripino Iga27/06/2015 18:20

    Não li as biografias, mas imaginava que a #2 seria melhor, já que teoricamente traria a história politica de Getúlio que conhecemos. De Lira Neto ensaiei ler sobre o Padre Cícero e o que li foi delicioso.

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  2. Gostei da resenha. Eu prefiro o segundo volume, entre os três.

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