13/06/2015

Dois tipos de amor num poema de Augusto dos Anjos - "Versos de amor"

Com um pouco de atraso, mas foi o que deu para fazer, trago um poema de Augusto dos Anjos sobre o amor, em referência ao Dia dos Namorados. Eu releio esse poema desde o Ensino Médio, quando o escolhi para um trabalho da escola na disciplina de Literatura. Ele chamou-me a atenção, primeiramente, por trazer um tema incomum na obra de Augusto, mais conhecido por tratar da finitude, da degradação física e espiritual, da noite e do sombrio. 
Esse "Versos de amor" tem um toque de amargura ou, para usar os termos do próprio poema, de azedume, porque o eu poético começa apresentando uma concepção traiçoeira e egoísta do amor, para depois contrapor a sua, que tem por tão sublime, que não pode ser enunciada por uma língua; precisa, na verdade, de um instrumento musical único que a torne compreensível por toda a humanidade, quer dizer, universal. 
Gosto da sonoridade especialmente da primeira e da última estrofes. A primeira recorre a uma imagem que deveria ser muito familiar à realidade do poeta, criado em um engenho de açúcar na Paraíba: a da cana, que sempre se espera seja doce, mas se revela azeda na realidade. A última estrofe, como era de esperar-se de Augusto dos Anjos, retoma a presença da morte nas reflexões sobre as coisas da vida, e aqui parece que o eu poético considera que o amor, como ele o concebe, seria uma forma de contrapor-se ao vazio existencial que a morte demarca.




Versos de amor


A um poeta erótico


Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a . . ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.


Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!


Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.


Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.


Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!


É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!


Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Mársias — o inventor da flauta —
Vou inventar também outro instrumento!


Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!


Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!

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